8 de mai de 2018

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As aves são muito mais inteligentes do que se pensa

destaques

A capacidade de adaptação revela a inteligência dos animais, tenham bico, pata, tromba ou tentáculos.


O corvo é um dos pássaros mais inteligentes  I STOCK PHOTO / GETTY IMAGES

É inegável: as aves não têm um polegar opositor porque não têm mãos. Mas são, ao lado dos primatas, o grupo de vertebrados com maior número de espécies que usam objetos. As descobertas dos últimos 20 anos mostram que as aves também estão entre as mais criativas. Os corvídeos (pegas, corvos e gralhas) são atualmente reconhecidos por sua criatividade e os psitacídeos (papagaios, periquitos etc.) por sua excepcional capacidade de realizar atividades. O abutre-do-egito (Neophron percnopterus) joga pedras nos ovos para quebrá-los, e as garças atraem os peixes com iscas...


Um grou canadense (Grus canadensis) foi visto usando um pano... para se enxugar! O pica-pau do deserto (Melanerpes uropygialis) usa o bico como recipiente para transportar e comer o mel, e a águia-negra-africana (Aquila verreauxii) é perfeitamente capaz de atirar objetos para atacar outro indivíduo. Um exemplo clássico é o macho da espécie Chlamydera nuchalis e sua decoração de interiores. Esse pequeno pássaro australiano cobre o chão de seu ninho com um tapete feito de folhas de várias cores, que completa com conchas, sementes, pequenas pedras e objetos da mesma cor, a fim de atrair a companheira. Ele é até capaz de construir uma espécie de leito nupcial, ao qual dedica semanas de trabalho. Começa construindo um corredor, que pode ter mais de meio metro de comprimento, com galhos entrelaçados, que às vezes também assumem a forma de um arco na entrada. Esse túnel leva a um pátio que o macho decora com pedras, conchas e ossos e é posicionado de modo que a fêmea só o descobre quando chega a determinada curva do caminho. Com que intenção? Surpreender a parceira, talvez, e forçar sua admiração? O mais notável é o fato de que o pequeno pássaro constrói um caminho inclinado colocando as pedras maiores no fundo do pátio e as menores na entrada, de modo que, em um espaço que parece menor do que realmente é, a figura do pássaro se destaca e, talvez por isso, pareça mais sedutora.

Segundo alguns especialistas, essa atividade tem mais a ver com a fabricação de um ninho do que com o uso de ferramentas, mas também se pode considerar relacionada à manipulação de objetos. (...)

Em geral, corvos e gralhas são os campeões do uso e fabricação de ferramentas com algum grau de complexidade. Um exemplo, como aperitivo. Estamos no Japão. Um corvo grande (Corvus corax) sobrevoa uma rua. Leva uma castanha no bico. Pousa em um fio de luz, perto de um semáforo e acima de uma faixa de pedestres. Quando o trânsito está mais intenso, deixa cair a castanha na pista e os carros que passam acabam por quebrá-la. Esse pássaro usa nada menos que a circulação automotiva como ferramenta... Mas é capaz de nos surpreender ainda mais. O corvo espera pacientemente até acender a luz verde para pedestres e só então voa até a faixa para recolher a castanha, agora livre de sua prisão. Esse tipo de relato sobre corvos é frequente na França, nos Estados Unidos e, como vimos, no Japão. Fetnat, a pequena manon fêmea, usava meu pé para quebrar castanhas. Pelo visto, os corvos são os mais espertos.

Mais elaborado é o uso que os corvos selvagens da Nova Caledônia (Corvus moneduloides) sabem dar a alguns objetos. Eles são capazes de usá-los, por exemplo, para caçar invertebrados alojados na madeira morta. Para isso, utilizam até quatro tipos diferentes de ferramentas, entre as quais estão ramos diversos e objetos fabricados com as bordas eriçadas das folhas lisas e duras do Pandanus.

Esses objetos, aos quais o pássaro chega a imprimir formas complexas, são o produto de várias etapas de fabricação. O mais complexo de todos tem uma base larga e é mais estreito na ponta e serve para executar ações que exigem precisão e firmeza. Com o bico, os pássaros recortam as bordas das folhas pouco a pouco até formarem reentrâncias, que utilizam como pequenos ganchos para capturar as larvas aninhadas na madeira. O perfil gradual da ferramenta e o serrilhado são feitos em etapas diferentes. Acrescente-se a isso o fato de que o processo de desenvolvimento e a forma dos objetos variam de um ambiente para outro, o que poderia indicar, em alguns casos, um comportamento cultural. Muitos cientistas pensam que são as ferramentas mais elaboradas do mundo animal.

Outro exemplo de uso complexo de ferramentas é o oferecido pelas gralhas, capazes de usá-los para brincar. Como? Nada mais fácil. Uma gralha pousa sobre um telhado inclinado coberto de neve. No bico, leva um prato ou tampa que encontrou por aí. Põe o objeto na superfície do telhado, sobe nele e... desliza para baixo como se estivesse em um trenó! Repete a mesma operação várias vezes, entre descidas rápidas e subidas com o veículo no bico.

Exemplos fascinantes
Exemplos fascinantes podem ser vistos em laboratório. Os corvos da Nova Caledônia são capazes de sequenciar o uso de ferramentas, como nesta série de três operações: apanhar um objeto com uma corda e usá-lo para alcançar outro mais longo com o qual consegue chegar à comida depositada no fundo de uma caixa. Também sabem usar ferramentas para explorar o ambiente, como o galho que utilizam para tatear aranhas e cobras trazidas para o espaço em que vivem, provavelmente para garantir a segurança antes de capturá-las. Destemidos, talvez, mas não estúpidos.

A coleta de alimentos leva a outro exemplo impressionante, o de Betty, um corvo na Nova Caledônia que enfrenta o difícil desafio de recuperar alimentos colocados em um pequeno cesto com alça, por sua vez introduzido em um tubo transparente fixado ao solo em uma extremidade para que a ave não consiga movê-la e é longa demais para que ela alcance a comida com o bico. Betty só tem a opção de usar fios de arame. Surpreendentemente, ela não apenas os usa, como o faz de maneira criativa. Segura firmemente um arame com o bico e uma das patas, e com uma série de movimentos coordenados do corpo, do bico e da pata dá ao objeto a forma de gancho. Se o ângulo for muito aberto, o gancho deslizará sobre a alça do cesto, mas se estiver muito fechado, não será capaz de segurá-la. Pois bem, acontece que Betty fez o ângulo certo, introduziu o arame no tubo e conseguiu pegar o cesto com ele (...)

Em suma, muitos mamíferos e aves sabem fazer ferramentas e usá-las, e para realizar essas atividades usam mãos, patas, trombas ou bicos. Em outras palavras, não existe um método único para realizar tarefas que exijam intervenção de ferramentas e capacidade criativa e inovadora, muito menos um desenvolvido exclusivamente por seres humanos. Mas talvez essa capacidade tenha sido desenvolvida apenas por mamíferos e pássaros. Ou não...

Trecho do livro ‘Inteligencia Animal. Cabeza de Chorlitos y Memoria de Elefantes’ (Inteligência animal. Cabeça de Passarinho e Memória de Elefante), de Emmanuelle Pouydebat, bióloga e pesquisadora do Centre National de la Recherche Scientifique, publicado nesta segunda-feira pela editora Plataforma Actual.

Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/05/01/ciencia/1525187303_898604.html

Alfredo de Pontal

Autor & Editor

O portal Águas de Pontal abre as cortinas para mostrar o grande espetáculo da vida proporcionado pela Mãe Natureza e seus atores: o ser humano íntegro voltado à reconstrução.

 

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