27 de fev de 2018

Publicado em:

Consumidores buscam cada vez mais conhecer a origem dos alimentos

variedades

Consumidores estão mais interessados em conhecer as origens dos alimentos (Foto: Divulgação)

Além de querer mais sustentabilidade e transparência, também exige mudanças nos processos industriais jogo está começando a virar no mercado de alimentos. Se, até há pouco tempo, quem ditava o quê e como seria vendido era a indústria, agora a pressão de uma parcela de consumidores mais bem informados tem levado grandes companhias de alimentos, como Knorr, Unilever, McDonald’s, BRF, Nestlé e Coca-Cola, a mudar seus processos e adotar novos valores. 

Desenvolvimento sustentável, transparência, valor compartilhado, rastreabilidade e boas práticas são conceitos que hoje fazem parte do discurso e da estratégia dessas grandes empresas.

Elas próprias reconhecem que hoje o consumidor ocupa um lugar menos passivo. “Pesquisas comprovam que os consumidores estão cada vez mais engajados com a procedência daquilo que comem. Por isso nossa intenção genuína de trazê-lo para perto”, diz a diretora de marketing da Knorr no Brasil, Marcella Puglia.

Aproximar-se do consumidor significa criar narrativas capazes de convencê-lo a comprar. Quase todas as companhias têm canais onde contam a história de suas matérias-primas e fornecedores.


“A qualidade do produto já é um standard e não mais um fator diferencial. Hoje, o produto tem de ter uma boa história por trás”, diz o consultor de mercado Marco Giotto, representante da GlobalG.A.P. no Brasil. Uma boa história dá segurança ao consumidor, pois mostra que o produto tem menor impacto ambiental ou social do que normalmente ele imagina.

Acostumada a ditar tendências no mercado de alimentos, a Unilever diz que preza pela transparência e segurança. Neste ano, a Knorr lançou uma campanha para comunicar a procedência e a natureza sustentável de seus ingredientes. “Nosso objetivo é apoiar nossos fornecedores e produtores em projetos de agricultura sustentável, dando o suporte necessário para atingirem a entrega e a excelência da marca globalmente”, afirma Marcella.


Sinônimo de junk food, o McDonald’s está revendo processos industriais para se adequar. Em 2010, a rede de lanchonetes iniciou um estudo, em parceria com a ONG ambiental WWF, para a produção sustentável de seu cardápio em nível global.

Em função do volume de compras, seis itens, como as carnes de boi, de frango e de peixe, foram escolhidos para iniciar o processo. “Passamos a adotar uma série de ações para que esses itens possam ser comprados de maneira sustentável”, diz Leonardo Lima, diretor de sustentabilidade da Arcos Dourados, dona da marca no Brasil.

Por enquanto, o café, o peixe e as embalagens utilizadas pelo McDonald’s são 100% certificados. No ano passado, pela primeira vez, a rede comprou carne produzida de maneira sustentável de um projeto ligado ao Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável (GTPS) no município de Alta Floresta (MT).

Leonardo acredita que, no futuro, toda a cadeia de alimento será sustentável, graças à conscientização do consumidor. “Isso varia de país para país. Eu diria que, na América Latina, o Brasil é o país mais consciente, onde o consumidor começa a indagar sobre a origem dos produtos e não somente consumi-los. A pressão ainda não é tão forte quanto na Europa e em outros países desenvolvidos, mas o consumidor já tem mais curiosidade de saber de onde vêm os alimentos.”


Fazenda sustentável da Knorr, em Mendoza, na Argentina

Bem-estar animal

Na BRF, que abateu mais de 9 milhões de suínos e mais de 1 bilhão de aves em 2016, a grande preocupação é com as práticas de bem-estar animal, uma das prioridades da companhia. “Entendemos que o bem-estar está em sintonia com os princípios éticos que envolvem a produção animal, possibilitando a melhoria do ambiente de trabalho, da relação humano-animal e, consequentemente, da produtividade”, diz o diretor de agropecuária Hugo Urso.


Ele explica que, até 2025, a empresa tem o compromisso de comprar e empregar em todo processo industrial apenas ovos de galinhas não confinadas em gaiolas. Há três anos, a BFR também iniciou um processo gradual de eliminação das celas de gestação de suínos, que deve ser concluído em 2026. “A indústria alimentícia vem demonstrando mudanças relacionadas a essas práticas. Trata-se de uma resposta à crescente exigência dos consumidores e de organizações de proteção por mais transparência e ética no tratamento dos animais.”

A preocupação com o bem-estar animal e com as exigências do consumidor levou a Nestlé a iniciar um trabalho que envolve uma de suas principais matérias-primas: o leite. Recentemente, a empresa começou a produzir leite orgânico de forma experimental. São apenas 26 fazendas contratadas em todo o Brasil, que representam uma produção de 2.000 litros por dia.

O volume é resultado de uma parceria com a Embrapa Sudeste e com a Fundação Mokiti Okada para fomentar o leite orgânico no Brasil. Com o incentivo aos produtores, a Nestlé espera produzir até 30.000 litros por dia no primeiro semestre de 2019, quando o produto finalmente será comercializado.


Acima, fazenda produtora de leite convertida para a produção orgânica da Nestlé; abaixo, projeto social da Coca-Cola de acesso à água, desenvolvido em Caucaia (CE)


No segmento do café, um dos primeiros produtos agrícolas que receberam denominação de origem no Brasil, a Nestlé lançou uma marca do grão solúvel que destaca a região produtora, no caso Água Branca, no norte do Espírito Santo.

Segundo a companhia, todas as iniciativas levam em conta a capacitação do produtor rural a longo prazo.“Fazemos isso para fomentar a organização da cadeia produtiva e contribuir para o desenvolvimento social e econômico não só de uma região específica, mas de toda a sociedade.”


Preocupações semelhantes levaram a Coca-Cola a passar por uma mudança cultural em 2009. Segundo a gerente de sustentabilidade Flavia Neves, naquele ano a empresa se perguntou o que podia fazer para, além dos negócios, gerar um impacto positivo para a sociedade. “Há uma expectativa social muito grande sobre o papel da empresa privada na agenda social e ambiental”, diz ela.

A partir de uma pesquisa com seus consumidores, a gigante das bebidas identificou que a área mais preocupante era a água, base de todos os seus produtos. Juntamente com outras companhias como a Ambev, a PepsiCo, a Faber-Castell e o McDonald’s, a Coca-Cola iniciou um trabalho de conservação de bacias hidrográficas e proteção de mananciais.

“O consumidor pede transparência não só das empresas, mas de todo mundo. Isso é um aprendizado muito importante. As companhias precisam abrir o diálogo, ele é importante para nos mantermos vivos e relevantes, incorporando as demandas na estratégia da empresa”, diz Flavia.

Centenária, a Coca diz que a adaptação às mudanças não é fácil, mas a companhia quer estar pronta para continuar sendo relevante nos próximos 100 anos. “O consumidor tem um papel muito grande. O ato de compra passou a ser um ato político. Quando o consumidor escolhe o que consome, ele está definindo em que mundo vamos viver”, afirma Flavia.


Consultor de grandes empresas em estratégias de sustentabilidade e vice-coordenador do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGV), Paulo Branco explica que há dois movimentos por trás da mudança. O primeiro é interno, quando lideranças decidem alinhar seu negócio ao desenvolvimento sustentável, com redução de desigualdades e conservação ambiental. “Isso ocorre na minoria”, diz. “Por outro lado, temos uma série de indutores externos. Um deles certamente é o consumidor.”

No entanto, ele observa que os clientes ainda não têm poder para provocar transformações em larga escala. A grande pressão vem do mercado financeiro. “Empresas de capital aberto listadas em bolsa têm um investidor interessado em saber suas práticas ambientais, sociais e de governança corporativa. No Brasil, o índice de sustentabilidade da bolsa é um exemplo. Você tem os grandes bancos com política de riscos socioambientais.”

As mudanças, segundo o consultor, são fundamentais para a continuidade dos negócios. “É uma estratégia de proteger e também de evitar que o valor da companhia seja destruído por maior exposição a riscos, perda de reputação e limitação de mercados. Ao mesmo tempo, é uma questão de criação de valor, de acesso a dinheiro com menor taxa de juros e a mercados que não seriam conquistados sem boas práticas e certificações. Uma empresa que queira, de fato, se perenizar e fazer negócios na sociedade contemporânea, na nova economia, tem de olhar para esses temas como estratégicos.”

Na avaliação de Paulo, o marketing das empresas é positivo, pois pode ajudar a separar práticas verdadeiras daquelas que não passam de “greenwashing”, como é chamada a propaganda enganosa em relação a estratégias ambientalmente corretas. “Temos uma sociedade cada vez mais atenta, que aceita cada vez menos uma comunicação não baseada em fundamentos, em práticas”, diz. “É melhor que as empresas falem e deixem a sociedade controlar, vigiar. O lado positivo é que estão se expondo. Quem tem telhado de vidro será cobrado.”

Fonte: https://revistagloborural.globo.com/

Alfredo de Pontal

Autor & Editor

O portal Águas de Pontal abre as cortinas para mostrar o grande espetáculo da vida proporcionado pela Mãe Natureza e seus atores: o ser humano íntegro voltado à reconstrução.

 

Não perca nossas publicações...

Inscreva-se agora e receba todas as novidades em seu e-mail, é fácil e seguro!

Desenvolvido por YouSee Marketing Digital - Nós amamos o que fazemos
| Hosted in Google Servers with blogger technology |: