27 de set de 2017

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Um pouco sobre a Cultura Caiçara

destaques
Um dia, 17 anos atrás (2000), comecei uma pesquisa de campo sobre a cultura caiçara. Dessa pesquisa gerei um livro que, se você quiser ler, está em download livre em alguns locais da web: Cultura Caiçara – resgate de um povo.




Percorri, durante meses, as comunidades caiçaras, núcleos remanescentes perdidos no interior da mata, na beiras de rios, no meio da Estação Ecológica da Jureia-Itatins, em bairros de pescadores, artesãos e vendeiras de peixes e cestos, nos municípios todos do litoral sul do estado de São Paulo ( de Mongaguá até Cananeia, em todos seus meandros de serra e mar).

Muitos dos caiçaras entrevistados já não estão entre nós, os vivos. Sua cultura, ancestral, permanece na nossa memória.

O que é o caiçara?

Caiçara é o povo da beira-mar e pé de serra, mistura cabocla de índio, português e negro, uma boa amálgama de sabedoría ancestral, a mesma que originou a nacionalidade brasileira pós-colonização.

Caiçara é um ser resistente à chuva, ao sol, à falta do que pescar quando o mar está bravio e os ventos empurram a canoa para a praia.

Caiçara também é aquele, povo, que cultiva o solo cuidando de preservar sua fertilidade, agroecologicamente, como se diz hoje em dia. Em muitos lugares ainda usam o método indígena da coivara que é o cultivo entre a serrapilheira da mata, sem abrir clareira, sem queimar.

Caiçaras são as comidas praianas, a tainha no buraco da praia embrulhada em folha de bananeira, assada lentamente enquanto se puxa a rede para mais.

Também é o cerco de rio, de mar, de lagoa, onde o peixe entra e não consegue mais sair facilitando a vida de quem precisa do peixe para o sobreviver da família. Mas, caiçara é aquele que não tira do mar o peixe ovado, nem o pequeno, nem na época da reprodução porque, esse povo sabe, que para ter mais tarde tem antes que cuidar, e bem cuidado.

Caiçaras são os povos que fazem a Festa do Divino, de Paraty a Cananeia, com a soca do arroz, as cantorias que invadem a madrugada, o café adoçado e o bolo de puba quentinho saindo do forno.

Também são caiçaras o fandango que se dança de Ilha Bela até a Ilha do Mel, no Paraná e no litoral de Santa Catarina, em cada lugar com suas peculiaridades pois que, fandango, passadinho, batido, catira, têm origem me danças do Além-mar açoriano.

Enfim, caiçara é a base cultural do povo que, a partir da colonização europeia, se adaptou à vida na beira do nosso mar, desde o Rio de Janeiro até Santa Catarina.

Caiçara não sobe a serra, sua vida é na beira d’água, rio e mar, mangue e praia.

Vou aproveitar o ensejo para colar abaixo dois artigos que publiquei (2016) no Greenme Brasil, sobre os caiçaras, seus quintais e hortas, sua arte de cultivar a terra sem estragar o futuro e, suas canoas de um pau só, herança indígena que, até hoje, o caiçara usa, se puder encontrar um tronco de bom tamanho caido na mata.

CAIÇARA É POVO QUE SABE CULTIVAR A TERRA



Caiçara, povo litorâneo, de mar e terra, serra e restinga é povo que sabe cultivar a terra tirando dela seu sustento sem agredir a natureza. O caiçara é aquele que, originário dos portugueses colonizadores, se estabeleceu no litoral brasileiro, entre Rio de Janeiro e Santa Catarina. A cultura caiçara é sustentável.Trago hoje para a sua leitura um trecho do meu livro “Cultura Caiçara – resgate de um povo”, livro este que resultou de uma pesquisa de campo, em 2000, nos municípios do litoral sul do estado de São Paulo. É importante de se resgatar os traços culturais de comunidades tradicionais pois, não só como curiosidade cultural mas também como conhecimentos específicos que permitiram à essas famílias, distantes de qualquer ajuda, se estabelecerem e retirarem da terra seu sustento. E, principalmente, é importante que reaprendamos as técnicas usadas, hoje reconhecidas como agroecológicas, por sua capacidade de preservar os recursos naturais.

Sobre a forma de cultivo usada pelos caiçaras, a roça de toco ou coivara, muitos estudos existem. Se você se interessa, dê uma olhada aqui neste material e veja a importância que têm essa técnica para a preservação do solo e da paisagem florestal em todo o seu equilíbrio.

“O caiçara se alimenta de produtos da terra cultivada (mandioca,arroz, feijão, milho etc), de produtos coletados na mata atlântica (frutas,raízes e folhas,mel e caça) e da pesca nos rios e no mar. Povo da beira dos rios e estuários do litoral paulista, o caiçara vive em consonância com o movimento das águas, cultivando a terra e coletando na mata. O respeito aos indicativos naturais – movimentos das marés, das cheias dos rios e das fases da lua – são o fundamento deste modo de vida não agressivo, perfeitamente sustentável. As técnicas de cultivo usadas pelo caiçara, o plantio direto no restolho da mata, a coivara e a roça de toco como sistema de cultivo, o plantio e uso da mandioca, o cerco para peixes nos rios mansos, todas estas formas de viver e estar com a natureza o nosso caiçara herdou dos indígenas, seus vizinhos, muitas vezes inclusive seus parentes. A coivara e a roça de tocos – forma indígena de cultivo da terra na qual o terreno é parcialmente limpo pela derrubada das árvores, as galhadas são queimadas e os tocos e restos são deixados sobre o solo– foram sistemas de cultivo indígena adotados pelo caiçara adequando às necessidades da vida mais sedentária (o indígena utilizava a coivara mantendo seu nomadismo característico, mudando de lugar com grande frequência, o que proporcionava longos períodos de repouso à terra, já o caiçara aplica alguma rotatividade de cultivos, sem grandes expansões do espaço ocupado, perde-se a característica nômade)”.














Nas fotos acima pode-se ver aspectos da roça de toco, coivara, e a roça já mais crescida na mata, condição que mantêm o equilíbrio do ecossistema.

“A generalidade dos grupos tribais da floresta tropical especializou-se na horticultura de raízes ou agricultura de coivara caracterizada pelo cultivo através de mudas e não por semeadura. Na escolha das terras destinadas ao cultivo davam preferência aos solos argilosos e áreas com declives, de modo a permitir a drenagem da água e evitar o apodrecimento das raízes. É interessante notar que, apesar do conhecimento europeu sobre formas de cultivo mais “modernas”, o caiçara prefere o o uso do chuço – pau de ponta aguçada – para penetrar a terra e incorporar a semente a ser plantada. O uso deste instrumento possibilita a manutenção da roça de tocos na qual um arado não tem como agir adequadamente.

A preservação desses conhecimentos é legado da maior valia para a humanidade que, cada vez com maior urgência, precisa reaprender a respeitar a natureza, seu próprio meio ambiente”.

CANOA CAIÇARA: ARTE ANTIGA, HERANÇA INDÍGENA QUE POVOA NOSSO LITORAL



Você já subiu numa canoa caiçara? Talvez sim, talvez não.

Se você for praieiro como eu, então até deve ter tido a oportunidade de ver uma dessas canoas de um pau só subindo ou descendo o rio. Mas subir numa delas, e navegar, já é bem mais difícil. O problema todo é que nós, urbanos, não temos o equilíbrio absoluto que o caiçara, homem de serra e mar, tem. O caiçara, você sabe, navega de pé ou de joelhos na sua canoa, que é empurrada com um remo ou vara. Sobe ou desce o rio conforme a maré, que é preciso saber aproveitar das forças naturais.

A canoa caiçara, vou te contar, é feita em um tronco de árvore escavado. Em tempos bem mais antigos, o miolo da árvore escolhida era queimado lentamente até que se conseguisse o formato aproximado desejado. A limpeza do tronco, retirada das partes queimadas, era feita com enxó. Também podia ser entalhado com o machado, mas com cuidado pois, uma fenda mal feita estragava o tronco de forma irremediável. Mais recentemente, em tempos de serra elétrica, o tronco é aberto, cerrado, escavado com outros instrumentos. Mas é sempre a enxó que dá o acabamento final.

Antigamente o caiçara escolhia a árvore que ia talhar dentre aquelas que já estavam prestes a findar sua vida, ou mesmo escolhia os troncos já caídos. Nas serras litorâneas onde abundam os guaperuvús e as figueiras, eram essas as preferidas, e ainda o são. As canoas eram talhadas no próprio lugar de queda da árvore e depois, empurradas sobre troncos roliços, até a beira d’água.

Hoje em dia é proibido derrubar árvores para fazer canoas, também é proibido usar os troncos caídos.

Para fazer uma canoa o entalhador deve obter uma autorização especial dos órgãos de fiscalização ambiental. São as necessidades de preservação ambiental que ditam essas regras, e tem sua lógica. O que não têm lógica é impedir, ao caiçara, que exerça essa sua arte milenar tão necessária à pesca e ao transporte de populações isoladas nas serras.

Aqui lembro as palavras de um mestre canoeiro, Seu Casimiro, que entrevistei em Iguape, no Mumuna, lá pelo ano 2000. Estas palavras, sentidas, foram publicadas no livro Cultura Caiçara, resgate de um povo (2005), mas continuam muito válidas ainda hoje. Seu Casimiro, lembro bem, contava das dificuldades que tinha para repor as canoas que a sua comunidade precisava:

“Fez a canoa prá ele, que as outras duas que estão em uso,
são muito velhas e estão querendo rachar.
Já remendou, calafetou, pregou lata.
Tudo se acaba um dia. Tinha que fazer outra.

Fez escondido porque é proibido. Eu não entendo.
Proibido por quê? Tá certo proteger o mato,
que isto é coisa de precisão, mesmo.

Mas o que é que uma canoa de um pau só pode fazer de
tão ruim assim, me conta?

“Ou de outra canoa que foi feita por Seu Avelino, um dos guardas antigos da Estação Ecológica da Juréia-Itatins. Apesar da idade avançada e da perna aleijada,

Seu Avelino era um dos guardas mais respeitados, por seus conhecimentos da mata e disposição para ensinar. Também era mestre canoeiro, isso quando me contaram sua história, em algum mês de 2.000, quando andei por aquelas bandas pesquisando o assunto.

Enfim, um dia Seu Avelino encontrou uma grande figueira caída e aí foi que começou a história da canoa que ele fez no tronco da figueira brava derrubada pelo raio – era uma árvore imensa, a copa queimou com o raio, um tronco grosso e reto, de boa madeira.

O diretor da Estação Ecológica autorizou o velho artesão a usar aquele tronco caído. Seu Avelino ficou mais de mês trabalhando o tronco, desbastando no machado, alisando na enxó, até que a canoa ficou pronta. Foi preciso a ajuda dos outros guardas para levar a canoa até o rio.

Uma canoa linda, leve e firme, não muito grande, mas com o equilíbrio perfeito. Esta canoa serviu às suas travessias do Guaraú até o dia em que uma onda traiçoeira a jogou nas pedras; mesmo assim foram dez anos de muita água para um tronco que ninguém dava nada por ele, apodrecendo na mata sem serventia nenhuma; e poderia ter durado mais de cinquenta anos não fossem as pedras e a ressaca.

O ofício de fazer canoas em tronco de árvore está se perdendo, e assim uma técnica milenar sendo esquecida mas, um dia pode ser necessário relembrar tudo isso, para uma vida mais sustentável. Se você quiser conhecer mais, dê uma olhadinha aqui neste blog.Técnicas milenares, artes sustentáveis que se utilizam de recursos naturais já em declínio, canoas que permitem a pesca em rio e mar, reaproveitamento das árvores caídas naturalmente, tudo isso, um dia, pode ajudar a alimentar um povo. Pense nisso!

No vídeo abaixo uma história bonita, de prazer e utilidade nas coisas simples que o caiçara sabe, do Guapuruvu Soberano.




Fonte: https://alicebranco.wordpress.com

Alfredo de Pontal

Autor & Editor

O portal Águas de Pontal abre as cortinas para mostrar o grande espetáculo da vida proporcionado pela Mãe Natureza e seus atores: o ser humano íntegro voltado à reconstrução.

 

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