8 de set de 2017

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O que é gentrificação climática? Por que ela é prejudicial?

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Gentrificação climática é a injustiça socioambiental provocada por camadas mais abastadas da sociedade no contexto das mudanças climáticas.


Imagine que bom seria um bairro pobre ser completamente reformado, reestruturado, passar a ter esgoto encanado e água tratada, mais opções culturais e de lazer e proximidade de serviços e produtos? Certamente os moradores do local passariam a usufruir destes benefícios, certo?

Bem, na verdade, na prática, não é bem assim que funciona.

Você já reparou que em bairros mais estruturados - mais bonitos, arborizados, que possuem mais disponibilidade de produtos e serviços, etc. - o aluguel, os produtos e os serviços costumam ser bem mais caros do que em bairros sem infraestrutura, pouco organizados e com baixa oferta de produtos e serviços?

Pois bem, isto tudo tem a ver com gentrificação.

Cunhado pela socióloga alemã Ruth Glass, o termo gentrificação, de forma geral, é definido como o processo de reconfiguração urbana, de maneira que esta acarrete na elitização socioespacial.

Isso significa que gentrificação é uma consequência de mudanças que são feitas nos aspectos de um determinado espaço, como composição, distribuição da força de trabalho, produção e consumo realizados ali.

A melhoria das cidades - tanto por parte do Estado quanto da iniciativa privada - de maneira que acompanhe o crescimento da riqueza por meio da demolição de locais mal construídos, reforma de prédios antigos, revitalização de patrimônios culturais, arborização de praças, melhoria das ruas e do transporte; melhoria dos serviços e da oferta de mercadorias, faz com que os mais pobres, que antes habitavam a região, sejam expulsos de forma direta ou indireta, para localidades ainda mais degradadas que as habitações anteriores antes da reconfiguração - regiões muitas vezes que não têm serviços de água e esgoto, são densamente povoadas, contam com poucas opções de serviços e produtos, apresentam lazer e cultura precários, são mal iluminadas e mal pavimentadas.

As formas de expulsão são diversas e muitas vezes acontecem simultaneamente.

De forma direta, populações mais pobres são deslocadas por meio de demolições forçadas, incêndio em malocas, negociações ou por meio da justiça para que bairros sejam melhorados para a especulação imobiliária. Esta, por sua vez, é responsável por elevar o preço do aluguel e da compra de imóveis na região, sejam residenciais ou comerciais; exemplo: se um bar de esquina é vendido e dá lugar a uma rede de fast food, que começa a ser um negócio lucrativo para o novo dono, a tendência é q outros imóveis da região tenham o mesmo fim. Há negociação e remuneração para os antigos moradores/comerciantes... Mas se todas as pessoas que moravam ali acabam sendo obrigadas pela conjuntura a se mudarem, as melhorias pelas quais o bairro passa não são para elas, e sim para os que têm melhores condições financeiras.

De maneira indireta, essas populações são erradicadas das áreas revitalizadas por não terem condições materiais ideais para se manterem ali.

Gentrificação climática

Gentrificação climática, por sua vez, é a gentrificação (expulsão dos menos abastados) causada por melhorias que pautam o contexto das mudanças climáticas.

A adaptação climática, que é algo imprescindível para a sobrevivência da humanidade, muitas vezes acaba não incluindo alguns aspectos sociais em suas considerações.

Cidades que passaram por reformas com o intuito de se adaptarem às mudanças climáticas acabam fazendo desta melhoria um instrumento de expulsão dos mais pobres - esse processo caracteriza a gentrificação climática.

Cidades inteligentes que passam a incluir mais espaços verdes bem cuidados, certificação LEED, espaços para inclusão de bicicletas, tecnologias de energia renovável e, portanto, soluções “sustentáveis”, abrem espaço para especulação imobiliária, que, por sua vez, acaba expulsando indiretamente os mais pobres - pelo elevado custo de vida - ou diretamente, por meio de remoções e negociações.

Às vezes, nem são necessárias mudanças espaciais de origem antropocêntrica para ocorrer a gentrificação climática.

Um exemplo neste sentido é o de Little Haiti, um bairro de grupos minorizados localizado no sul da Flórida, nos Estados Unidos, que, por ocupar um terreno mais alto, teve os preços de suas casas se elevando de US$ 100 mil para US$ 229 mil dólares depois dos anúncios de elevação do nível do mar.

Projetos destinados a expandir estruturas verdes, que melhorem eficiência na utilização da energia, que reduzam o uso do transporte a combustível, que promovam jardins comunitários em bairros historicamente marginalizados também acabam promovendo gentrificação climática ao expulsar moradores mais pobres - diretamente ou indiretamente.

Outro exemplo aconteceu em Nova Iorque, também nos Estados Unidos, onde uma linha férrea suspensa abandonada passou por revitalização e deu origem ao parque verde High Line, o que fez aumentar especulação imobiliária, causando a expulsão dos antigos moradores mais pobres.



No Brasil, também há um exemplo que pauta o conceito de gentrificação climática: trata-se da transformação do elevado Presidente João Goulart (popularmente conhecido como "Minhocão") em parque. Com menor circulação de carros, maior disponibilidade de áreas verdes (devido aos jardins verticais em empenas cegas de prédios) e espaços compartilhados - portanto uma mudança de cenário que melhora a vida de quem habita pelas proximidades ao local - acaba havendo abertura para especulação imobiliária, que torna mais alto o custo de vida ali e, portanto, obriga antigos moradores com menor poder financeiro a se mudarem.

Nesse contexto, caberia o questionamento: como as cidades podem se adaptar às mudanças climáticas sem excluir a dimensão socioambiental? Noutras palavras: como as cidades podem se adaptar às mudanças climáticas incluindo os mais pobres? Como evitar a gentrificação climática?

Fonte: http://www.ecycle.com.br

Alfredo de Pontal

Autor & Editor

O portal Águas de Pontal abre as cortinas para mostrar o grande espetáculo da vida proporcionado pela Mãe Natureza e seus atores: o ser humano íntegro voltado à reconstrução.

 

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