9 de mar de 2017

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Fome na Somália é vergonha para a humanidade

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Não serei muito razoável neste texto porque vou escrever indignada. E penso que, num mundo onde há 6,2 milhões de pessoas passando fome num único país da África – Somália – por causa da seca e de conflitos internos, é exigir demais que alguém tão próxima ao tema não se sinta assim como fiquei, entre a irritação e a impotência. Vou lembrar, para subir um pouco mais o tom dos descontentes, que o último relatório da Oxfam mostrou que há oito pessoas que detém, juntas, mais dinheiro do que a metade mais pobre do mundo. Não seria nada demais que o governo do primeiro-ministro Hassan Ali Haire, da Somália, pedisse uma mãozinha a eles, não sob forma de empréstimo, mas como doação mesmo.

Não se trata de querer que todos tenham a mesma riqueza, não estou nem pensando em questionar a teoria capitalista que diz que(alguma) desigualdade é importante para que o sistema dê certo. Agora, nesse instante, porém, é o caso de focar no sentido de solidariedade de quem tem muito e pode dividir sem ficar nem mais pobre. Nesse ponto, aplausos para a Suécia. Segundo informações do site da BBC, o país já se declarou sensível à causa dos somalis e vai doar alguns milhões de dólares.

Ontem (7), em visita ao país africano, o atual Secretário-Geral da ONU, Antonio Guterres, solicitou à comunidade de doadoresuma quantia certa: US$ 825 milhões, nada mais, nada menos, para tirar aquelas pessoas das privações em que estão vivendo.

“Sem esse apoio, vamos presenciar uma tragédia totalmente inaceitável, que o povo somali não merece”, disse ele. É preciso lembrar que, além da fome, aquelas pessoas estão enfrentando também um conflito interno de graves proporções. Guterres ficou pouco mais de 24 horas na Somália e, nesse tempo, se encontrou com o presidente, Mohamed Abdullahi Mohamed, a quem foi levar a solidariedade em palavras e gestos.Certamente que o presidente Mohamed esperava um pouco mais do que isso...

A situação no país é gravíssima. Numa única região, segundo Ali Haire declarou à BBC, 110 pessoas morreram de fome em 48 horas por causa de uma grave seca que não está dando chance a ninguém de plantar e colher. Em parte, o que causou a seca foi o fenômeno El Niño, que esquentou as águas do Pacífico e afetou o Leste e o Sul do continente africano.Ainda precisa dizer que esse fenômeno é causado pelo aquecimento global, que é causado pela alta dose de emissões de carbono que está sendo injetada na atmosfera terrestre a cada segundo, sobretudo pelos países ricos? Talvez sim, porque há muitos que duvidam da ligação entre aquecimento global e seca na África.

Quer seja pela falta de chuva, que desertifica a região, quer seja pela falta de acesso aos poucos grãos, a cena, trágica, de mães segurando no colo crianças desnutridas, praticamente apenas com pele e osso, é o retrato de que alguma coisa está muito fora da ordem nesse mundo.E não é de hoje. Procurei aqui pela internet, mas não encontrei, a foto que correu mundo nos anos 70, de uma mãe africana desnutrida amamentando uma criança que, ao sugar, conseguia se livrar da fome. Causou comoção, muitos enviaram pacotes de comida. E na época não havia internet, redes sociais.

Hoje o drama vivido pelas famílias pobres da Somália, assim comoda Nigéria, Sudão do Sul e Iêmen joga no rosto de todos nós uma realidade difícil de engolir.E, antes que me lembrem,é claro, não é nada difícil perceber que não se precisa ir tão longe para ver pessoas com fome.Aqui mesmo, no Brasil,de acordo com um estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgado no fim de 2014, ainda havia 7 milhões de pessoas passando fome. Bem diferente, é verdade, dos mais de 20 milhões que estavam nessa situação quando o ex-presidente Lula assumiu.

Segundo o “Guia da Fome no Mundo”,editado pela On Line Editora e disponível na internet, a fome mata mais do que os conflitos.Entre 2004 e 2009, a estimativa é de que55 mil pessoas perderam a vida por causa de guerras. Já a fome matou mais de 250 mil pessoas entre 2010 e 2012, só na Somália. Como sair disso, sem ser esperando a boa vontade dos países e das pessoas ricas para ajudar?

O Guia entrevistou José Graziano, brasileiro que é diretor-geral da Organização das Nações Unidaspara a Alimentação e a Agricultura (FAO) e foi um dos cabeçasdo Programa Fome Zero, implementado por Lula em 2003 e até hoje internacionalmente reconhecido como uma solução eficaz para o problema.Não tem nenhuma complexidade, e a matemática é até simples: para acabar com a fome é preciso investir na agricultura, “maneira crucialde aliviar a pobreza e garantir o desenvolvimento”.

A questão é que esse investimento deve seguir uma lógica mais igualitária do que acontece hoje no mundo. Porque, afinal, como bem lembra o ecosocioeconomista Ignacy Sachs, não existe falta de alimento, mas sim falta de dinheiro para comprar o alimento. E isso não é difícil comprovar, basta seguir a trilha do desperdício. O Brasil, vale lembrar, está entre os dez países que mais desperdiça – por ano, jogamos fora cerca de 41 mil toneladas de alimentos, segundo estudo divulgado ano passado pelo World Resources Institute.Sendo assim, voltamos à questão do início, da desigualdade e, muitas vezes, também do controle do alimento pelos que estão no poder.

Sim, isso existe. E não é de hoje. Fazendo uma retrospectiva interessante sobre os primeiros casos de fome no mundo, e suas causas, o Guia da Fome traz a informação de que foi em 436 a.C. que se tem notícia dos primeiros casos de fome no mundo.Milhares de romanos famintos, contam os autores, chegavam até mesmo a se afogar no Rio Tibre quando estavam passando fome.Mas, já ali, o problema não era a falta de alimento:

“Para os imperadores, o controle sobre o alimento que chegava a Roma e sua distribuição entre a população eram formas de dominação”.

Eis um bom desfecho para essa reflexão.

Por Amelia Gonzalez - http://g1.globo.com/

Alfredo de Pontal

Autor & Editor

O portal Águas de Pontal abre as cortinas para mostrar o grande espetáculo da vida proporcionado pela Mãe Natureza e seus atores: o ser humano íntegro voltado à reconstrução.

 

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