7 de mar de 2017

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Civilização desaparece? Não!

destaques


Nesta semana o blog Crônicas Indigenistas estreou mais um espaço de comunicação, desta vez com uma página no Facebook, onde podemos ampliar ainda mais as informações sobre os povos indígenas e temas afins.

E algo que me chamou a atenção foi uma mensagem postada por uma seguidora da página: estou chocada com algo que ouvi de uma pessoa amiga… Ela acredita que a ordem natural é que os indígenas acabem desaparecendo, como as antigas civilizações dos maias e astecas, pois estes precisam de muita terra para manter o estilo de vida…

Tentei ajudar, indicando para leitura um excelente texto da Daiara Tukano, que já citei em texto anterior, de maneira que o papo com a “amiga” da leitora fosse feito em outro nível, bem mais inteligente e desprovido de “achismos” como este do excerto acima.

Mas a “pangolice” desse pensamento confuso trouxe, ao menos, um bom tema para reflexão e resume, de maneira estupendamente simples, o que boa parte da sociedade yura (não-índia) desinformada acha a respeito dos povos indígenas.

Primeiro, é preciso esclarecer um ponto importante: os Maias, Astecas, Incas e outros agrupamentos ditos “desaparecidos”, na verdade não “desapareceram” no sentido de deixar de existir, ser extinto. O que houve, na verdade, foi a fragmentação da estrutura organizacional de povos que, juntos, formaram o conceito de “Inca, Asteca e Maia”.

Os povos que compunham estas organizações culturais ainda existem, afinal, os Incas eram compostos por povos como os Aimara e os Quechua, estes ainda existem e são, além de povos distintos e organizados em seus espaços, a base do agrupamento civilizatório que hoje conhecemos como “peruanos”, ou seja, que habitam o Peru.



Assim também são os Maias, pois podemos encontrá-los facilmente na Guatemala, igualmente organizados em pequenas comunidades ditas “indígenas” e, também, nas cidades, onde os processos de interação com os colonizadores criaram o país e, por tabela, o que hoje chamamos de “guatemaltecos”. Some-se a isso todo um processo colonizante e racista que fez com que, até hoje, muitos desses descendentes se sintam envergonhados de se dizerem Maias.

É o chamado “etnocídio”, que mira na cultura quando não se pode destruir o corpo. Sabe-se que quem escreve os livros de histórias e conta a “versão oficial dos fatos” sempre é o vencedor, de maneira que, para consolidar a ocupação física e cultural (com todas as suas mazelas sociais e religiosas) há de se pregar a negação ou destruição de um status anteriormente existente. Aos sobreviventes deste processo cabe a resistência e esta se dá por diferentes maneiras, sendo os povos originários destas ocupações o exemplo vivo, e não estou me referindo só aos povos das América, que fique claro.

Nem o desaparecimento de um povo (ou de uma civilização) é um “processo natural”, a não ser, é claro, se levarmos em conta o que acontece com a Atlântida, segundo nos conta Platão em sua obra “Timeu ou a Natureza”. O desmantelamento e desaparecimento de uma cultura ou sociedade é fruto de fatores diversos, que vão do econômico ao ambiental, passando, é claro, pelo florescimento e ascensão de outras culturas mais dominantes nestes mesmos fatores.



Ainda hoje este processo colonizante ainda não acabou. Temos vários exemplos, como a chamada “cultura de massa”, martelada continuamente pelos meios de comunicação e por nichos de expressão cultural.

Quer um exemplo? Pense bem: a imagem que eu usei na capa do texto anterior, sobre a carnavalização da cultura indígena, onde aparece um cachorro fantasiado de índio. Se este belo animal estivesse fantasiado de Jesus Cristo, ou do Bispo Edir Macedo, tal imagem passaria despercebida? Será que geraria protestos ou receberia elogios e “likes” da maioria da sociedade?

Não acredito no desaparecimento dos povos indígenas, nem mesmo com as atuais investidas criminosas, travestidas de “políticas de desenvolvimento”, em nosso confuso país, como a famigerada Usina de Belo Monte ou de investidas políticas mais diretas, como a infeliz ideia do conluio político que comanda o distante Planalto Central, de indicar para nomeação como Ministro da Justiça, o relator da maldita PEC 215 (parece brincadeira, né?).

Já citei em outros momentos que acredito que “ser indígena” é algo além dos aspectos físicos de cor de pele, de cabelos. É uma ótica de mundo, um sentido de vida. A contemporaneidade tem, em certos aspectos, contribuído com a manutenção desta identidade indígena, dificultando a sua erradicação.



As ferramentas de comunicação atuais e as parcerias com instituições, comunidades alternativas e pessoas esclarecidas propiciam que as comunidades indígenas tenham mais condições de lutar por sua manutenção, coisa que não era possível nos séculos anteriores à fibra ótica ou a quebra do paradigma da “raça pura” do início do século XX (e que alguns desmiolados ainda tentam ressuscitar).

O sentido de pertencimento a uma coletividade é algo sólido entre as comunidades indígenas, bem diferente das chamadas “grandes civilizações” que, geralmente, são compostas de uma pluridiversidade que, ao longo dos anos, se engalfinha numa luta de classes e de status que acabam, por fim, em valorizar as individualidades a tal ponto que, cedo ou tarde, encontrará seu ponto de ruptura.

Isso pode ser sentido por todos nós, principalmente os que moram em locais que, há alguns anos atrás, eram cidadezinhas pouco habitadas e pouco “desenvolvidas”. Com certeza tínhamos muito mais contato com nossos vizinhos próximos e alguns distantes. Onde crianças brincavam nas ruas até tarde da noite em seus diversos corrupios.



Eu sinto isso quando estou numa aldeia. Sinto um calor humano amável e protetor de quem está inserido em um grupo, uma coletividade identitária comum. Essa sensação é bem contrária dos que vivem amontoados em coletividades egoísticas e individuais, que são as grandes cidades onde, o mais próximo que se tem uma de uma pseudo-coletividade, é a reunião etílica propiciada pelos blocos de rua nos carnavais.

Só quem não tem a mínima ideia do que é estar seguro e se sentir parte de um todo, como uma comunidade, é que alimenta uma visão fatalista de dissolução ou desaparecimento. Isso não existe para os povos indígenas, todos são uma única família, mesmo sendo de povos diferentes, comumente se referem uns aos outros como “parente”.

Alguns apedeutas costumam olhar para os povos indígenas, em seu atual estado de contato e integração social, tachando-os de “aculturados”, termo tão amplo quanto incoerente para a atual conjuntura de organização social e estética, em que o chamado “mundo globalizado” vive.

Pergunto: qual a base ou referência de cultura que se usa para tachar o outro de “aculturado”? A profusão de influências à qual os indivíduos estão sujeitos atualmente torna o ato de designar o que é cultura de um determinado grupo como um ato de extrema reflexão e quebra de paradigmas.

Quer saber o que é cultura, cara pálida? Então se desprenda deste círculo vicioso do prazer fácil e do entorpecimento alienativo social, vividos nas intermináveis baladas, onde se busca “aliviar a dor” , e experimente uma vivência numa comunidade, de preferência indígena, mas caso não seja possível, pode ser numa comunidade quilombola, ribeirinha ou extrativista.

Com certeza descobrirás que “cultura” não necessariamente é o que nos vem devidamente enlatado através deste quadro virtual e vivo chamado “televisão”, ou do condicionamento doutrinário a que somos impostos desde o primeiro dia de aula.

Até para os indígenas que circulam nos meios urbanos, em diferentes níveis de contato social, sempre tem uma “referência cultural”, ou seja, algo além das indumentárias estéticas ou dos trejeitos comuns de uma macro-sociedade, ou melhor de uma civilização.

Estes têm sempre sua “aldeia”, com sua família e a natureza que a circunda, pulsando em seu coração e vívida em sua mente. E nós, pobres filhos das modices incorporadas ao longo de anos de falsas realidades vividas na selva de pedra, o que temos?



Na verdade, a autora da frase equivocada do início do texto tem até razão em como se dá o fim de uma civilização, o problema é que ela errou quem está nesta forquilha histórica, pois não são os povos indígenas e, sim, nós, os colonizadores que criamos uma civilização que a cada dia vem mostrando a fadiga da existência.

Estamos sim caminhando para nosso colapso enquanto civilização. Mas isso não significará que iremos desaparecer, somente que voltaremos ao estágio de onde viemos, das comunas coletivas e familiares de existência social.

Finalmente termino essa homilia, chegando à “moral da história” nessa crônica de hoje: a civilização “Índio” não existe, quem existe são vários povos/nações espalhadas por todo esse nosso Brasilzão. São Shawãdawa, Katukina, Tukano, Ashaninka, Madija, Munduruku, Apolima, Yanomami, Macuxi, Puri, etc. Cerca de trezentas e cinco etnias, mostrando que, na verdade, nós da “civilização” brasileira, com seus sérios conflitos sociais e os seguidores do Malafaia e Bolsonaro (e outros da mesma estirpe) é que corremos o real risco de desaparecer.

ANOTE AÍ:

Jairo Lima é indigenista e escritor acreano. Seus principais textos são publicados semanalmente em seu blog www.cronicasindigenistas.blogspot.com.br e, por cortesia de Jairo, replicados aqui neste site da revista Xapuri. As fotos desta matéria foram selecionadas por Jairo e são da autoria de:
Foto 1: Crianças Huni Kui, Foto Ricardo Atoq
Foto 2: Kuntanawa, Foto Talita Oliveira, Projeto Nokun Txai
Foto 3, Mariri Yawanawá, Foto: Tashka Yawanawá
Foto 4: Puyanawa, Foto: Talita Oliveira, Projeto Nokun Txai
Foto 5: Apolima Arara, Foto: Maria Emilia

Fonte: http://www.xapuri.info

Alfredo de Pontal

Autor & Editor

O portal Águas de Pontal abre as cortinas para mostrar o grande espetáculo da vida proporcionado pela Mãe Natureza e seus atores: o ser humano íntegro voltado à reconstrução.

 

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