9 de fev de 2017

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Longevidade, singularidade, criogenia e transumanismo

reflexões
“A morte é o agente de mudança da vida” (Steve Jobs)


O biogerontologista inglês Aubrey de Grey costuma dizer que a primeira pessoa que vai chegar aos 150 anos já nasceu e que está próximo o dia em que nós, humanos, viveremos 1.000 anos. Em entrevista à Folha de São Paula, no dia 30/01/2017, ele reafirmou suas ideias de que o envelhecimento é uma doença que pode ser vencida pela ciência.

Porém, por incrível que pareça, há quem vá além e considere estas previsões pessimistas. O cientista Raymond Kurzweil vai mais longe e prevê que poderemos nos tornar imortais e atingir a vida eterna na Terra. A palavra longevidade será substituída pela eternidade. O humano pelo pós-humano ou transumano. Será?

Ray Kurzweil é um escritor que se encaixa na denominação de tecnófilo cornucopiano. Ele é autor do livro The Singularity is Near (A Singularidade está próxima), acredita na primazia da tecnologia e na junção da Inteligência Artificial (IA) com a biotecnologia, a genética, a nanotecnologia, a revolução digital e a robótica para modificar completamente a vida e a forma de viver no Planeta. Ele considera que haverá um ponto de mutação definido como Singularidade, termo emprestado da física, que corresponde a um ponto em que acréscimos finitos no tempo conduzirão a um potencial tecnológico infinito. O desenvolvimento ocorreria sem restrição e a humanidade entraria em uma nova fase histórica. Ele diz:

“A Singularidade é um termo utilizado para definir um período futuro durante o qual a vida humana será irreversivelmente transformada e representará o culminar da fusão do pensamento biológico e da nossa existência com a tecnologia, resultando em um mundo que ainda é humano, mas transcenderá as nossas raízes biológicas. Não haverá distinção, pós-Singularidade, entre homem e máquina ou entre o físico e o virtual” (Kurzweil, 2006).

Kurzweil também escreveu o livro “A medicina da imortalidade”, onde defende a ideia da miscigenação entre o ser humano e as máquinas. Ele explica que em primeiro lugar haverá um aumento dramático da longevidade:

“No meu livro, refiro a três grandes revoluções sobrepostas a que dei o nome de “GNR”, que significa Genética, Nanotecnologia e Robótica. Cada uma delas propicia um aumento dramático da longevidade humana, entre outros impactos significativos. Nós estamos neste momento na primeira fase da revolução genética – também chamada biotecnologia. A biotecnologia oferece os meios para alterar os genes: não apenas bebês programados, mas natalidades programadas. Seremos igualmente capazes de rejuvenescer todos os tecidos e órgãos do nosso corpo transformando as células da pele em versões jovens de qualquer outro tipo de célula. Neste momento, novos desenvolvimentos fármacos têm como objetivo o combate de etapas importantes da arteriosclerose (a causa das doenças de coração), a formação de tumores cancerígenos, e os processos metabólicos que estão na base das doenças mais importantes e do processo de envelhecimento. A revolução biotecnológica já está na sua fase inicial e atingirá o seu pico na segunda década deste século (2010-2020), um ponto a partir do qual seremos capazes de ultrapassar a maior parte das doenças e retardar dramaticamente o processo de envelhecimento. Seguir-se-á a revolução da nanotecnologia, que atingirá a sua maturidade durante os anos vinte (2020s). Com a nanotecnologia, seremos capazes de ir além dos limites da biologia, e substituir o nosso atual ‘corpo humano versão 1.0’ com um substancial aperfeiçoamento versão 2.0 fornecendo um aumento radical dos anos de vida” (Kurzweil apud Mito & Realidade, 2010).

Para Kurzweil a junção da Singularidade com os avanços da medicina tornará possível a conquista da imortalidade, por meio da “clonagem terapêutica”:

“Outra importante linha de ação é desenvolver novamente as nossas próprias células, tecidos, e até órgãos inteiros, e introduzi-los nos nossos corpos sem cirurgia. Um dos maiores benefícios desta técnica de ‘clonagem terapêutica’ é que seremos capazes de criar estes novos tecidos e órgãos de versões das nossas células que também já foram tornadas mais jovens – o campo emergente da medicina do rejuvenescimento. Por exemplo, poderemos ser capazes de criar novas células do coração a partir de células da sua pele e introduzi-las no seu sistema através da corrente sanguínea. Com o passar do tempo, as suas células do coração são substituídas pelas novas células, e o resultado é um “jovem” coração rejuvenescido com o seu próprio DNA” (Kurzweil apud Mito & Realidade, 2010).

Assim, alcançando a imortalidade, deixaríamos de ser humanos para nos tornar uma “espécie superior”. Daí surgiu um movimento intelectual visando transformar a condição humana por meio da criação de tecnologias aperfeiçoadas para aumentar as capacidades intelectuais, físicas e psicológicas das pessoas. Com os novos desenvolvimentos tecnológicos, as doenças e as limitações humanas seriam superadas e novas capacidades surgiriam, abrindo a possibilidade de transformação total dos novos seres, que passariam a ser pós-humanos ou transumanos.

Outro cientista singularitano, David Orban, que foi presidente da “Humanity+” diz que “os avanços tecnocientíficos vão permitir modificar ad libitum o corpo e a mente do ser homem, deixando em segundo plano a evolução biológica. A ideia fundamental é que os seres humanos serão, um dia, capazes de se redesenharem a si próprios. Desse modo, poderão escolher o tipo de organismo em que pretendem transformar-se: um ciborgue (formado por matéria viva e dispositivos eletrônicos), um siliborgue (organismo criado com silício a partir de um DNA artificial), um simborgue (indivíduo reencarnado que reside num meio interligado) ou qualquer outra criatura imaginável que a tecnologia permita congeminar” (Super Interessante, 2011).

Para as pessoas que acreditam na Singularidade, no Transumanismo e na vida eterna, mas vão morrer antes desta “revolução tecnológica” e desta suposta inflexão no conceito de humano, a alternativa é recorrer à criogenia. A criogenia é um ramo da físico-química que estuda tecnologias para a produção de temperaturas muito baixas (abaixo de -150°C). Um paciente mantido por tempo indeterminado em “cryostasis“. Algumas instituições acreditam no poder de preservação da criogenia e estão realmente colocando isso em prática. A promessa da criogenia é que um corpo criopreservado limita danos em todas as estruturas e preserva de forma que possa voltar à vida. Ou seja, um corpo preservado em nitrogênio líquido poderia, em tese, ser ressuscitado no futuro e passar do estado de humano para transumano.

Evidentemente, são muitas as críticas à Singularidade, à criogenia e ao transumanismo. Para Kurzweil, a Lei de Moore (segundo a qual o número de transístores de um chip duplica a cada 18 meses) é um exemplo do que vai acontecer com outras tecnologias. Mas os críticos argumentam que não se pode generalizar a Lei de Moore e nem superar os limites da ecologia. Entre os críticos, a socióloga Débora Danowski e o antropólogo Viveiros de Castro (2014) consideram que a ideia de uma autofabricação do homem no futuro e de seu ambiente pela eugenética e pela síntese tecnológica de uma nova Natureza está mais para o campo da ficção científica do que da realidade.

O cientista político Francis Fukuyama – aquele que teorizou sobre o fim da história – é um crítico da ideia do transumanismo. Em artigo da revista Foreign Policy (23/10/2009) ele pergunta sobre o que vale aumentar a longevidade e até atingir a imortalidade se o ser humano não consegue vencer os seus defeitos e não consegue respeitar a natureza e os ecossistemas. Além disto, a ideia de fazer uma “raça superior” (transhumana) vai contra os princípios liberais e a ideia de que todos os indivíduos são iguais perante a lei.

Já Nathan Pensky (03/02/2014) diz que Ray Kurzweil é uma pessoa muito inteligente, mas que mistura algumas ideias sólidas com outras malucas: “É como se você tivesse um monte de comida muito boa misturada com fezes de cachorro sem poder distinguir o que é bom e o que é ruim”.

As evidências empíricas mostram que a possibilidade de um aumento ilimitado da longevidade é praticamente impossível. Um estudo publicado na revista Nature (05/10/2016) por Xiao Dong, Brandon Milholland e Jan Vijg, afirma que existe um teto para o tempo máximo da vida humana. Dificilmente alguém seria capaz de bater o recorde da pessoa que viveu mais tempo na história, que foi a francesa Jeanne Calment que morreu com a idade recorde de 122 anos e 164 dias. Os avanços médicos podem ter aumentado a expectativa e a qualidade de vida, mas a longevidade dificilmente passa de 115 anos. Para superar este limite seria preciso mudar toda a estrutura genética da espécie humana. O processo de envelhecimento é tão complexo que não será possível mudar substancialmente o limite da vida humana. O estudo conclui dizendo que o tempo de vida máximo dos seres humanos é mais ou menos fixo e está sujeito a condicionantes naturais. A imortalidade não passa de uma ilusão.



Artigo de Anne Case and Angus Deaton, publicado na PNAS (2016), mostra um aumento acentuado na mortalidade de todas as causas de homens brancos de meia-idade não-hispânicos e mulheres nos Estados Unidos entre 1999 e 2013. Esta mudança inverteu décadas de progresso na mortalidade e fez diminuir a esperança de vida. Este fato é um que vai na contramão da singularidade tecnológica.

Mas independentemente se os avanços tecnológicos vão prolongar ou não a longevidade, existem questões filosóficas que precisam ser consideradas. Jorge Luís Borges, no conto “Os Imortais”, descreve o tédio mortal sentido pelos que nunca morrem, pois, o fato de sermos os únicos a sabermos que vamos morrer é um estímulo que dá sabor e intensidade à vida. Além disso, para ele, é uma grande generosidade saber sair de cena para que novos seres nasçam. No livro “As Intermitências da Morte”, romance de José Saramago, a morte é abolida de um país, para rechaçar o desejo da imortalidade.

A glorificação da ciência e da tecnologia já foi questionada, em 1818, por Mary Shelley, nada menos que a filha do iluminista William Godwin e da feminista Mary Wollstonecraft, quando aos 18 anos escreveu o livro: “Frankenstein, o Prometeu Moderno”, mostrando como a racionalidade e a tecnologia, em vez de libertarem o ser humano, podem simplesmente criar monstros. Já na maturidade, Mary Shelley escreveu o livro “The last man”, tratando não da imortalidade, mas do fim da humanidade.

Simone Beauvoir, no livro “Todos os homens são mortais” nos dá uma lição sobre a angustia e o desespero de ser imortal. Ela conta a história de Fosca, rei de Carmona, nascido em 1279, bebe um elixir da imortalidade. Ao longo do romance ele vai mostrando as vantagens da imortalidade, suas conquistas e o desejo de fazer algo importante para a humanidade. Mas depois de passar por guerras e períodos de paz, de progresso e declínio, de amar e odiar, ele se pergunta sobre o sentido da vida. Narrando a vida de um imortal, Beauvoir questiona os temas inerentes à natureza humana, tais como a ambição, o poder, a imortalidade, o prazer, o destino e a transcendência, mostrando que a imortalidade não é tão boa quanto parece.

Os adeptos da Singularidade tecnológica, da criogenia e do Transumanismo são considerados gênios e futuristas por alguns. Mas há muitas questões profundas a serem consideradas sobre o aumento da longevidade e a imortalidade. Este é um longo debate. Mas, de início, considero que todos deveríamos aprender, filosoficamente, com o grande inovador tecnológico que foi Steve Jobs, quando disse, em discurso, em 2005, para formandos da Universidade de Stanford:

“Lembrar que estarei morto em breve é a ferramenta mais importante que já encontrei para me ajudar a tomar grandes decisões. Porque quase tudo – expectativas externas, orgulho, medo de passar vergonha ou falhar – caem diante da morte, deixando apenas o que é importante. (…) a morte é o destino que todos nós compartilhamos. Ninguém nunca conseguiu escapar. E assim é como deve ser, porque a morte é muito provavelmente a principal invenção da vida. É o agente de mudança da vida. Ela limpa o velho para abrir caminho para o novo”.

Referências:

Raymond Kurzweil. The Singularity Is Near: When Humans Transcend Biology, Penguin Books, 2006

Nathan Pensky. Ray Kurzweil is wrong: The Singularity is not near. Pando, February 3, 2014

Mito & Realidade. A imortalidade está a duas décadas de distância?, abril 28, 2010

Super Interessante. E depois de nós? O avanço imparável do trans-humanismo, SUPER 155, Março 2011

Débora Danowski e Eduardo Viveiros de Castro. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Ed. Cultura e Barbárie, 2014

Francis Fukuyama. Transhumanism, Foreign Policy, October 23, 2009

Sonia Arrison. 100 Plus: How the Coming Age of Longevity Will Change Everything, From Careers and Relationships to Family and Faith, Basic Books, 2011

Simone Beauvoir. Todos os homens são mortais. Difusão Européia do Livro, 1965

Steve Jobs. Discurso em Stanford, 2005 http://www.youtube.com/watch?v=yw5fuDMblYg

Xiao Dong, Brandon Milholland & Jan Vijg. Evidence for a limit to human lifespan, Nature, 05 October 2016 http://www.nature.com/nature/journal/vaop/ncurrent/full/nature19793.html

Anne Case and Angus Deaton. Rising morbidity and mortality in midlife among white non-Hispanic Americans in the 21st century, PNAS, vol. 112 no. 49, 2016



José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Fonte: https://www.ecodebate.com.br

Alfredo de Pontal

Autor & Editor

O portal Águas de Pontal abre as cortinas para mostrar o grande espetáculo da vida proporcionado pela Mãe Natureza e seus atores: o ser humano íntegro voltado à reconstrução.

 

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