30 de jan de 2017

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‘Açougues veganos’ lançam moda com coxinha de jaca e outras iguarias

destaques
Iniciativas se multiplicam pelo país para atender adeptos de alimentação origem animal



Quando a chef Marcella Izzo e o publicitário e jornalista Brunno Barbosa abriram o primeiro “açougue vegano” de São Paulo, em dezembro, contavam que sozinhos dariam conta do negócio. Só que não. No dia da inauguração do “No Bones – The Vegan Butcher Shop”, 300 pessoas confirmadas pelo Facebook deram cabo de mais de mil produtos em duas horas. Hambúrgueres, salsichas (de tomate seco com cenoura, beterraba e batata), linguiças (de feijão com especiarias e farinha de glúten), nuggets e cortes especiais sumiram das geladeiras e prateleiras, assim como espetinhos prontos (soja clara e soja escura), costela, coxinhas (de jaca). A loja vende ainda 16 tipos de temperos de fabricação própria, azeites, óleos — tudo artesanal, sem conservantes e com pouco uso de soja. 

Zero carne de bicho, osso ou sangue animal.

A onda também está em outras cidades do país. Seguindo o crescimento de adeptos dessa alimentação, açougues veganos abriram as portas em Curitiba, em janeiro do ano passado, e no Rio e em Belo Horizonte, este mês.

— A gente pensou que ia vender cinco hambúrgueres para cada pessoa experimentar, mas teve gente que comprou 30. No primeiro dia, um cara me perguntou quantas coxinhas eu tinha no estoque e comprou todas. Por mais que tivéssemos multiplicado a produção não daria para atender todo mundo — conta Brunno Barbosa.

Até agora a dupla está conseguindo repor o estoque todo dia, mas ainda não sabe quanto é preciso produzir diariamente.

— Já devemos ter multiplicado a produção inicial por oito. Contratamos gente, somos cinco agora, mas continuamos procurando mais pessoas — calcula Brunno.

FACES DA MESMA DIETA

Engana-se quem pensa que esses empreendimentos têm como objetivo somente agradar aos seguidores de uma alimentação sem origem animal. Chef do Açougue Vegano, no Rio, que abre oficialmente dia 15, na Barra, Celso Fortes conta que um dos objetivos da loja é justamente provar para os carnívoros que a alimentação vegana pode ser saborosa.

— Geralmente, quando um vegetariano convida para almoçar, a outra pessoa que não segue a mesma alimentação sempre tem grande preconceito, porque acha que a comida é ruim. Todas nossas receitas foram testadas com não veganos para provar que são saborosas — diz.

Na loja, que já está em esquema de soft opening, com eventos nos fins de semana, o cardápio vai de hambúrguer de shimeji e shitake a bacon de coco, passando por , kafta de shimeji, espetinho de soja, além da já conhecida coxinha de jaca.

— Muitas pessoas comem a coxinha tradicional por conta do sabor, mas te apresento uma mais leve, até mais saudável, e com sabor até melhor — defende Fortes.

A Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) calcula que sejam já cinco milhões de veganos no Brasil a partir de pesquisa do Ibope de 2012. Quem explica é Mônica Buava, gerente de campanhas da entidade, além de proprietária de uma rede de restaurantes veganos com quatro lojas em São Paulo, sendo duas pizzarias onde o cardápio oferece refeições sem trigo.

— A SVB faz certificação vegana rigorosa, e já são mais de 200 produtos e 25 marcas. Os empresários querem ser certificados — diz ela.

Mônica e a entidade também lançaram um abaixo-assinado para que a rede de lanchonetes Subway inclua no cardápio uma boa opção vegana. Já são mais de 46 mil assinaturas.

SEM ORIGEM ANIMAL

Muitos motivos levam as pessoas a optar pelo veganismo. Em geral, começam vegetarianos, como Natasha, de 15 anos, irmã de Noah, quatro meses, em aleitamento materno exclusivo e sem consumo de carne. Seus pais, Juliana Molina e Elton Bastos, não comem nem usam nada de origem animal. O processo para eles foi gradual, começou há cerca de cinco anos. Juliana mantém um blog sobre o assunto, o “SP Veg”, cuida do app e os dois têm uma agência de viagens vegana, a “Vegan for you”. Algumas receitas, como de pasta de dente e de produtos de limpeza doméstica, foram aprendidas com o tempo.

— Para mim, ser vegetariana é uma coisa normal porque foi fácil, encontro as coisas com facilidade — diz Natasha. — Tenho duas melhores amigas que uma acabou virando vegetariana vindo aqui em casa, e a outra está começando, cortando algumas coisas.

No último Natal, três casais se reuniram à mesa, com seus filhos, todos vegetarianos, como Natasha, com pais veganos. Já Mônica Buava voou para o Rio. Seus familiares agora já aceitam e foi feita uma farta ceia “ecumênica”. Só não faltou o bolo da Kelly Soares, advogada e dona da confeitaria Doce Vegana (DV), juntamente com seu marido e sócio, o engenheiro Erick Marinho. Aberta há mais de um ano, em Niterói, a DV passou por reformas e foi reinaugurada dia 20 de janeiro, com opções com glúten e sem glúten.

Chefe do serviço de Nutrição na 38ª enfermaria da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, Bia Rique destaca que o veganismo, embora contenha uma série de benefícios, também exige adaptações.

— O vegano tem uma dieta balanceada, porque consome vegetais e frutas, tem uma elevada quantidade de fibra em sua dieta e evita alimentos processados, que podem levar a inflamações no organismo — explica Bia, que representa o Brasil na American Overseas Dietetic Association (Aoda). — Por outro lado, deve estar atento se a ingestão de proteína e ferro está em um nível suficiente, e precisará de suplementos para atender sua necessidade de vitamina B12.

PALAVRA DE ESPECIALISTA

Por chefe do serviço de Nutrição na 38ª enfermaria da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro e representante oficial no Brasil da American Overseas Dietetic Association (Aoda)

O veganismo, além de uma linha de alimentação, também está relacionado a um conceito filosófico. É um reflexo de nossa busca obsessiva pela juventude, associada ao crescimento de um movimento cultural. Estamos vivendo em um mundo onde todos buscam a nutrição para estender ao máximo a sua longevidade, como se fosse uma febre de saúde e beleza. Além de se dedicarem à alimentação natural, os adeptos do veganismo também buscam a preservação do meio ambiente e a redução do sofrimento dos animais — um equilíbrio entre o planeta e o homem.

A onda vegana, que cresceu muito nos Estados Unidos e no Brasil, é mais uma demonstração das mudanças na dieta do homem. Cem anos atrás, o consumo de legumes era desencorajado, não só devido ao seu alto custo à época, como também pela supervalorização da proteína, que está mais presente na carne. Uma mudança filosófica levou à ascensão dos alimentos naturais na década de 1970. Agora, o veganismo repete esta tendência, mas reforçando-a através da multiplicação do conhecimento sobre ciência e nutrição.

Muita gente adere ao veganismo e continua comendo basteira. Não podemos achar que todos são saudáveis, alguns são veganos simplesmente por causa de sua filosofia, e não aprendem a fazer uma nova dieta. Desta forma, continuam consumindo alimentos superprocessados ricos em gorduras e açúcares. Todo mundo pode diminuir a frequência e a quantidade de carne, frango e peixe por refeição, além de diminuir ou eliminar carboidratos refinados. Evite pão branco, doces e alimentos processados. É possível adaptar suas refeições sem virar vegano. Não se trata de um jogo de tudo ou nada.

Fonte: O Globo - http://espacoecologiconoar.com.br/

Alfredo de Pontal

Autor & Editor

O portal Águas de Pontal abre as cortinas para mostrar o grande espetáculo da vida proporcionado pela Mãe Natureza e seus atores: o ser humano íntegro voltado à reconstrução.

 

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