18 de nov de 2016

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Povo Indígena Puri: Ghaima tamathin! Nós estamos vivos!

destaques


Acredito que a melhor forma de começar este texto, é contando da onde veio a demanda por ele. Pois bem, alguns meses atrás, eu conversava com o indigenista acreano Jairo Lima, e em dado momento da conversa, ele me perguntou mais sobre meu povo, o povo Puri.

Dentre as perguntas feitas, ele quis saber em que pé estaria a nossa luta pela terra. Acontece que, como eu expliquei para ele, a luta do meu povo por uma terra passa por um nada pequeno detalhe: nós ainda estamos lutando para provar que existimos.

Eu pertenço ao Povo Puri, também denominado Telikong, ou Paqui. Uma busca que qualquer curioso faça no Google pode informar que este povo pertence ao tronco linguístico macro-jê, e suas terras originárias estavam espalhadas por uma região que hoje corresponde a parte dos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo, na região do rio Parnaíba e Serra da Mantiqueira.

Os textos – sempre escritos no passado – também informam aos leitores que os Puri possuíam uma divisão em “pelo menos três subgrupos: Sabonan, Uambori e Xamixuna”. Que “no século XVIII, antes de serem vendidos como escravos, foram estimados em mais de 5.000 índios. [E que] no séc. XIX, foram aldeados em São Fidelis e na Missão de São João de Queluz, registrando-se 655 índios Puri em Resende, em 1841. Em 1885, Ehrenreich localiza remanescentes Puri no baixo Paraíba” (Freire e Malheiros, 2010).

Creio que não seja difícil para os mais afiados em história compreenderem que esta localização geográfica, por óbvio, situa as terras Puri justamente no caminho por onde passaram as hordas de assassinos e ladrões sanguinários que os livros de história chamam de Bandeirantes e ‘pioneiros desbravadores do interior’.

E é assim que, as mesmas páginas, escritas no passado, também informam que por volta do século XIX, os Puri foram “dizimados ou miscigenados com colonizadores luso-brasileiros”, e esse seria mais ou menos o fim da história. Em outras palavras, de acordo com as informações históricas, os Puri, assim como diversos outros povos originários das terras que foram transformadas na República Federativa do Brasil foram declarados extintos há mais de um século.

Oh, sim, é claro, é importante citar que existe uma alternativa ao genocídio neste caso. Há uma escolha à lá Bela Gil: “você pode substituir genocídio por etnocídio!”. Enquanto que genocídio quer dizer o extermínio físico de um povo, o etnocídio é a “subordinação mental de um grupo expropriado de suas condições econômicas de sobrevivência, que nega aos indígenas o direito à terra que já ocupavam e seus recursos naturais, o direito ao uso de sua própria língua e educação e o direito de fazer sua história coletiva com autodeterminação” (BAEZ, 2010, p. 133).

Assim, pode ser que tenha sobrado algum Puri vivo no mundo, mas ele teria se dissolvido em face da miscigenação com os colonizadores luso-brasileiros. Trocando em miúdos, o texto histórico quer dizer que os Puri se acabaram, ou mortos, ou misturados. Tudo se passa como se os Puri fossem um exemplo de sucesso da empreitada ‘civilizatória’ intentada contra os povos originários, para quem não foi dito “Brasil, ame-o ou deixe-o”, mas “Brasil, morra ou desapareça”.

Pois bem, eu, como mbl’êma puki (mulher puri) viva me acho no direito de contestar essa informação histórica, de dizer que, apesar dessa tentativa de nos exterminar, seja literalmente, ou seja de forma simbólica, escrevendo em um papel que não existimos mais, Ghaima tamathin! (nós estamos vivos). E assim é: nós estamos vivos, resistimos, resistimos, e assim continuaremos, não importa o que o raion (branco) tenha a dizer a respeito.

A verdade é que os Puri jamais deixaram de existir. O que houve, neste caso, foi um apagamento com objetivos muito claros. Como é sabido, a prática dos Aldeamentos e Reduções, das quais os Puri e diversos outros povos no Brasil foram alvo, tinham por função reduzir a mobilidade dos indígenas, a fim de favorecer a usurpação de seus territórios, para assim facilitar o avanço em direção aos sertões.

E é importante destacar que, neste caso, está-se falando de um quinhão particular de terras muito cobiçado, devido as riquezas contidas em seu subsolo. É assim que os Puri que não foram mortos vão sendo pouco a pouco empurrados e encurralados, e daí tem-se origem os Aldeamentos de São Luis Beltrão e a Freguesia de Campo Alegre, região essa, por sua vez, algo de vários peticionamentos à Coroa para concessão de Sesmarias, sob a alegação de tratarem-se de ‘terras devolutas’.

Em verdade, nada de novo sob o sol tropical de quem convive há 516 anos com a mesma lógica do raion, que, quando olha para as terras indígenas nunca enxerga gente, mas apenas os lucros que poderá obter mediante a sua exploração.

Com o que então, de uma forma ou de outra, procurou-se uma maneira de varrer os Puri do mapa, e assim, tivessem sido todos mortos ou miscigenados, o fato é que a partir da década de 30 do século XIX, este povo vai sendo cada vez menos citado em documentos oficiais, até simplesmente deixar de aparecer em qualquer menção no século seguinte.

Porém, apesar de não serem mais citados, os Puri permaneceram vivos, e a região de Resende, onde se localizava o antigo aldeamento é ainda hoje chamado de Aldeia, e no ano de 2010, somente naquele município 114 pessoas espontaneamente se identificaram na pesquisa censitária do IBGE como pertencentes ao povo Puri.

E além dos Puri do Rio de Janeiro, em Minas Gerais se encontram mais de uma centena de pessoas que se identificam como sendo Puri ou descendentes, existindo nesses dois estados em curso movimentos de retomada e reconhecimento de territórios ancestrais. Sobre a população Puri de Minas Gerais, temos ainda menos dados, e daí por outra incidência de apagamento: não foram ainda estudados, e assim, ‘oficialmente, não existem’.

Seja como for, esse apagamento histórico tem como fruto funesto a construção de uma ideia de extinção, contra a qual temos lutado. Trata-se, em verdade, de uma experiência muito dolorosa de luta, a de ser declarado morto, quando se está vivo!


Uma luta inglória contra uma máquina de triturar que tem a seu favor uma das piores armas que já foi inventada. A tão subestimada história, escrita desde o ponto de vista daqueles que se sagram vencedores numa luta sempre tão desigual, e que atua em favor da construção de uma ficção heroica e civilizatória, que busca desvanecer e tornar mais limpa e palatável o relato do maior massacre de todos os tempos.

Somente desde esta perspectiva asséptica, é que se pode, por exemplo, falar de ‘mistura’ e ‘miscigenação’, e não de escravidão, rapto e estupro sistemático de mulheres, imposição cultural e religiosa com fins de extermínio. Somente de um ponto de vista que não seja o de uma mulher, é que se pode ler essa versão regional de um ‘Casa Grande e Senzala’ como uma obra lúbrica e prazerosa, e deixar de vislumbrar a violência racista que ali se inscreve.

Pois sim, é disso que se trata também. Eu por exemplo, não tenho como ignorar, seja no espelho, seja nos olhos dos que me olham com dúvida, o fato de que eu, assim como vários de meu povo, não possuímos os traços fenotípicos comumente associados à ideia de uma “aparência indígena”.

Mas também não estou entre aqueles que possam esquecer que os reais motivos pelos quais há, no Brasil, tantos indígenas e negros de peles de tom mais claro, de madeixas loiras e olhos claros são o rapto e estupro de milhares de mulheres.

Não posso esquecer, justamente porque na minha linha de ancestralidade, existem mães, avós e bisavós minhas ‘pegas no laço’ e ‘acuadas por cachorros’, dentre elas, Prucenví, a mais famosa, que para ser contida ‘precisou ser segurada por mais de 10 homens’. E sim, talvez quem acompanhe essa leitura, também se lembre de uma avó ou bisavó sua, com uma história parecida. Pois estas são as bases da história brasileira.

Mas, ao contrário da expectativa de provocar, mediante essa ‘miscigenação’ forçada e violenta, fazer dissolver os Puri em uma massa informe de ‘caboclos’, os Puri têm resistido, e, se são testemunhos vivos de uma violência que se inscreve em suas peles, se mostram mais fortes que ela, ao manterem-se íntegros na invocação do orgulho de seu pertencimento originário.

É óbvio que sim, todo o processo de violência sofrido trouxe consequências graves à sobrevivência e reprodução cultural dos Puri. A falta de uma Terra é o óbvio. Mas a língua é, certamente, um dos mais sérios. Poucos são os que ainda falam ou compreendem o idioma, e, diante disso, muitas práticas e saberes foram sendo esquecidos.

Conscientes disso, os Puri na contemporaneidade têm se lançado em diversas pesquisas, a fim de reatar os laços do que se perdeu, procurando entre os mais velhos aqueles que recordam canções, rezas, práticas e saberes. Pouco a pouco, vamos desvelando as coisas que estiveram esquecidas, e buscamos recuperar aquilo que tentaram nos tirar ao nos matar, tantas e tantas vezes. E é assim que continuamos a afirmar Ghaima tamathin!


Raial Orotu Puri – Indígena do povo Puri. Graduada em Direito. Doutoranda em Antropologia. Chefe de Divisão no IPHAN/Acre. Assessora jurídica da Federação do Povo Huni Kui do Acre (FEPHAC).

Puri – Segundo Jairo Lima, o nome Puri é uma designação de cunho pejorativo, que teria sido atribuído pelos vizinhos, não necessariamente amigáveis, os coroados o significado da palavra seria algo como ‘gentinha, gente miúda, povo fraco’. Apesar desses significados depreciativos, Puri acabou sendo o nome assumido como etnônimo, sem grandes recalques daí derivados. (Minha avó costumava dizer que era ‘pura intriga da oposição’…)

Ilustrações desta matéria: quadros selecionados por Jairo Lima http://cronicasindigenistas.blogspot.com.br/: 1) José Maria Medeiros; 2) Elón Brasil; 3) Jaime Trindade.

Fonte: http://www.xapuri.info/

Alfredo de Pontal

Autor & Editor

O portal Águas de Pontal abre as cortinas para mostrar o grande espetáculo da vida proporcionado pela Mãe Natureza e seus atores: o ser humano íntegro voltado à reconstrução.

 

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