2 de nov de 2016

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A luta de uma viúva para manter sonho de 'escola de ricos para pobres' no interior do Paraná

variedades
"Uma escola de rico para os pobres" era o lema de Thereza Elizabeth Castor, de 68 anos, e de seu marido, Belmiro Castor, quando decidiram usar o tempo livre para criar uma instituição de ensino gratuita para crianças da cidadezinha de Piraquara, na zona rural de Curitiba, no Paraná.

Depois de período nos EUA, Elizabeth e o falecido marido sonhavam com escola beneficente para "ajudar a escola pública"

"Queríamos uma escola que tivesse todo o aparelhamento e o atendimento das escolas particulares - que atendem ao nível alto da nossa sociedade - para atender crianças necessitadas", diz dona Elizabeth, como é conhecida, à BBC Brasil.

O ano era 2007, e a primeira decisão do casal foi que a escola deveria ser completamente independente da administração pública, mantida por doações de pessoas ou empresas interessadas em projetos beneficentes.

"Como meu marido foi secretário de Educação do Estado, ele teve a experiência de que a parte educacional fica muito sujeita às vontades dos políticos, que ficam pedindo remanejamento de alunos e professores para agradar o eleitorado. Por isso não quisemos nenhum vínculo com a classe política."

"Além disso, queremos ajudar o poder público na educação. Não faria sentido a escola ser custeada por ele", afirma.

O Centro Educacional João Paulo 2º, começou a funcionar em 2010, financiado por um grupo de amigos do casal. Até o espaço físico da escola foi projetado, voluntariamente, pelo renomado arquiteto Manoel Coelho - autor do projeto da PUC-PR e do mobiliário urbano de Curitiba.

O ensino infantil em período integral, para crianças de 3 a 5 anos, é reconhecido pela secretaria de educação. Dos 6 aos 14 anos, elas vão para lá depois da escola regular e têm aulas de reforço de português, matemática e literatura, além de teatro, caratê, futebol, artes, música e dança.

Alunos dos 6 aos 14 anos frequentam o colégio beneficente para aulas de reforço e de artes

As quase 300 crianças atendidas pelo Centro João Paulo 2º, no entanto, são um número pequeno perto da mudança que Elizabeth e Belmiro queriam começar. Ver o modelo da escola copiado e reproduzido, diz ela, é o que realmente falta para realizar o sonho.

"Sabemos que só uma escola funcionando dessa forma ajuda um grupo de pessoas, mas acreditávamos que o projeto pudesse servir como um piloto para incentivar outros núcleos da sociedade a repetir isso, até em outras cidades", diz ela.

"Infelizmente, ainda não aconteceu."

Impacto
As histórias colecionadas ao longo dos seis anos de funcionamento do João Paulo 2º, segundo Elizabeth, comprovam o impacto do projeto nas famílias mais pobres da região.

"Uma dessas famílias veio nos agradecer depois de um tempo dos filhos deles conosco. A esposa conseguiu começar a trabalhar e estudar porque eles passavam o dia aqui. A visão de futuro deles passou a ser outra."

"Muitas das crianças não conheciam nem hábitos de higiene. Uma delas veio contar que o pai estava muito feliz porque descobriram, com ela, que tinham que escovar os dentes todos os dias. A família tinha só uma escova na casa que todos usavam de vez em quando, até que a menina começou a fazer o que aprendeu aqui", conta.

Julio Bueno de 10 anos, chegou no João Paulo 2º aos três, com sérias dificuldades de aprendizado, mesmo tendo passado por uma escola pública.

"A gente não conseguia se comunicar com ele porque ele tinha uma fala muito enrolada, trocando ou omitindo letras. Até certo ponto isso é normal nessa fase, mas a dificuldade dele era grande", diz a professora Andressa Moro, de 34 anos, que recebeu o garoto em sua sala de aula.

Julio, que mora na zona rural de Piraquara, entrou na escola com dificuldades de aprendizado e de relacionamento

"No começo, precisávamos falar por gestos, que era como os pais faziam porque também não entendiam a fala dele."

A timidez causada pela dificuldade também impedia que Julio fizesse novos amigos. Esta, aliás, é uma das poucas memórias que ele ainda tem daquela idade.

"Era muito difícil pra mim, a professora pedia pra soletrar e eu não conseguia. Eu via que os outros alunos conseguiam, mas eu não", disse à BBC Brasil.

"Eu brincava menos porque tinha vergonha de errar as palavras. Eu tinha quase dois amigos na outra escola, e agora nem sei dizer quantos tenho. Todo mundo me ajudou aqui"

A escola também recebe casos mais difíceis - como os de crianças que são vítimas de abuso -, mas, com o orçamento apertando, ainda não conseguiu contratar um psicólogo para lidar com elas. A maioria das situações, segundo Elizabeth, precisam da atenção contínua dos professores.

"É uma necessidade urgente ter uma pessoa que faça esse trabalho. Atualmente, a enfermeira que trabalha aqui faz um pouco. Tentamos conseguir uma estagiária de psicologia com a universidade, mas não deu certo."

Sobrevivência
Sem apoio financeiro de governos municipal, estadual ou federal, a escola conta com parcerias para economizar nas despesas mensais - que, atualmente, são de R$ 120 mil. ONGs, fundações e instituições como o Sesi são as responsáveis, por exemplo, pela contratação dos professores que dão aulas de artes e esportes.

Belmiro administrava a escola e cuidava da captação de recursos até sua morte, em 2014. Elizabeth supervisionava os funcionários e o atendimento às crianças. Ao ficar viúva, encarou o desafio de assumir completamente o comando, quando as doações pararam de chegar.

"Chegamos a pensar em fechar a escola, porque era ele quem fazia os contatos, e não conseguiríamos ter dinheiro até o final do ano. Por sorte, houve uma mobilização muito grande da mídia e as doações voltaram a aumentar", relembra.

Após a crise, Elizabeth aceitou que o conselho criado para fazer a auditoria das contas do centro - também formado por voluntários - fizesse também a captação e administração dos recursos.

"Esse ano, temos caixa para levar a escola até o final do ano. Mas ano que vem começamos de novo. Tem sido assim", afirma.

"Eu acho que o nosso projeto é de muito sucesso, mas gostaria que não tivéssemos que lutar tanto pela sobrevivência dele."

Após morte do marido, que era o responsável pela captação de recursos, escola correu o risco de fechar por falta de doações


Cultura 'egoísta'
A inspiração para a escola, segundo Elizabeth, veio quando o casal morou nos Estados Unidos, nos primeiros anos de casamento. "Víamos que os americanos têm essa iniciativa da ajuda. Nos hospitais existem alas inteiras que foram doadas por famílias ricas. E a gente imaginava que nossa sociedade, também chamada a contribuir, daria um maior retorno. Mas não foi bem assim", lamenta.

Atualmente, é possível doar dinheiro de quatro maneiras diferentes pelo site da escola. Pessoas físicas podem comprometer-se a uma doação mensal, para a qual se recebe um boleto bancário; cadastrar-se para doar um valor fixo pago junto com a conta de luz ou fazer uma doação livre.

Empresas podem obter abatimento no imposto de renda ao fazer uma contribuição direcionada para o colégio no Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Piraquara - fruto de uma parceria com a prefeitura.

Mas desde o início do seu funcionamento, o João Paulo 2º contou muito mais com as doações empresariais.

"Especialmente depois da crise as doações de pessoas físicas ficaram bem menos volumosas. Se dependêssemos só delas, a gente não sobreviveria", afirma Elizabeth.

"Lá (nos EUA) existe, há anos e anos, essa cultura de colaboração com a sociedade. Mas é algo que vem com o tempo, não surge de uma hora para outra. Aqui, as pessoas mais prósperas não têm o hábito de colaborar com a sociedade em geral. Ainda são muito egoístas."

Fonte: Camilla Costa da BBC Brasil em São Paulo

Alfredo de Pontal

Autor & Editor

O portal Águas de Pontal abre as cortinas para mostrar o grande espetáculo da vida proporcionado pela Mãe Natureza e seus atores: o ser humano íntegro voltado à reconstrução.

 

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