21 de set de 2016

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Luta pela causa ambiental precisa de relação mais próxima entre homem e natureza

meio ambiente
No documentário “Para onde foram as andorinhas” , produzido em parceria pelo Instituto Socioambiental e pelo Instituto Catitu, um indígena conta como vem ficando sem referência climática para saber em que momento plantar e colher. Antigamente, diz ele, sempre que ouvia as cigarras cantarem, podia contar três dias que logo vinham as chuvas. Hoje o clima mudou e isso não acontece mais. Hoje ele precisa criar outras formas de ouvir e sentir a natureza, o que está cada vez mais difícil.

Essa relação homem e natureza, que nas grandes cidades ficou tão distante, quase ausente, é um ponto fundamental para que se consiga o engajamento da sociedade com a causa da conservação ambiental. É no que acredita o geógrafo Carlos Durigan, há mais de 20 anos vivendo e atuando na Amazônia, que acabou de ser eleito Conselheiro Regional para América do Sul da IUCN (International Union for Conservation of Nature), organização que desde 1948 tem como foco a preservação.

Conversamos longamente, por telefone, depois que Durigan voltou da Conferência da IUCN que aconteceu em Honolulu, capital do Hawai, de 1 a 10 de setembro. O tema do encontro desse ano foi “O planeta na encruzilhada”, mas o geógrafo adota um tom otimista quando acredita que a sociedade, os governos e as empresas vão, finalmente, apontar para a direção certa e adotar um outro modelo de produção para diminuir os impactos que já estão afetando os mais pobres do mundo. Segue a entrevista:

Desde 1948, portanto na esteira da organização dos países no pós-guerra, a IUCN está batalhando pela conservação da natureza. Mas a batalha continua e os resultados não têm sido animadores...


Carlos Durigan - Naquela época não se tinha o engajamento que nós temos atualmente, mas era um tema em ascensão, já havia grupos de cientistas impressionados com a tendência de extinção das espécies. Tanto que a grande contribuição da IUCN é a lista vermelha de espécies que nos mostra a cada ano o status da biodiversidade no mundo. Começamos a ter maior engajamento a partir dos anos 60, tivemos a publicação do livro “Primavera Silenciosa” (Ed. Gaia), de Rachel Carson vários trabalhos de sensibilização que são chave no processo de engajamento principalmente da sociedade, que começou a mostrar preocupação com esse processo do pós-guerra, de aumento da produtividade, industrialização e agronegócio crescendo. Até então, os impactos que a humanidade sentia eram mais evidentes com relação às guerras, era necessário reconstruir os países afetados. Para a América do Sul, a África, ações concretas começaram a surgir nos anos 70 muito timidamente. Tudo isso como tentativa de resposta à necessidade de se desenvolver ações voltadas a sustentabilizar, digamos assim, o desenvolvimento.

Fiquei contente quando li no documento “Navigating Island Earth” que foi redigido após a Conferência em Honolulu, uma preocupação forte com o socioambiental. É preciso um olhar cuidadoso também para os mais pobres que já estão sofrendo os impactos do aquecimento. A IUCN tem essa visão no contexto geral?

Carlos Durigan - Sim, e ela evoluiu bastante nas últimas décadas a ponto de nós termos, dentro das comissões que executam as ações da rede, a Comissão Social e Econômica, de políticas relacionadas à interação gente ou sociedade e natureza. Essa é uma das grandes preocupações, uma das plataformas que temos defendido, que a IUCN tenha essa consciência porque ela é formada por 1.300 membros do mundo inteiro, até órgãos do governo fazem parte. É uma esfera importante para gerar influência positiva. O tema da conferência deste ano foi “O planeta na encruzilhada”, e uma das coisas que eu falei lá foi que, apesar de estarmos numa encruzilhada, temos hoje em mãos bons elementos para escolhermos o melhor caminho a seguir. Precisamos convencer a sociedade, o grande capital e governos de que é preciso mudar nossa forma de agir no mundo.

Essa é a parte mais difícil, não? Existe uma distância muito grande entre intenção e gesto, um contrassenso que põe, de um lado, os líderes assinando acordos que se comprometem com um outro tipo de produção e, de outro, a mesma “ordem unida” em prol de um desenvolvimento sem limites. Fale um pouco sobre isso, por favor.

Carlos Durigan - Esse é o paradoxo que vivemos hoje e é tema de muitos debates dentro e fora da IUCN. Tem a ver com essa busca incessante do crescimento econômico, mas o crescimento precisa ter limites. Podemos continuar crescendo em taxas reduzidas para fazer com que nosso crescimento seja sustentável e viável do ponto de vista da sobrevivência humana. É um debate que coloca todos os governos nesse paradoxo, não só o Brasil. Aí esta nossa questão chave. Tivemos, em Honolulu, discussões interessantes sobre a questão dos plásticos nos oceanos, por exemplo, um produto muito ligado ao nosso modo de vida atual. Não adianta só trocar nossas sacolinhas de supermercado. Precisa ter um debate muito mais forte de limitação na produção de produtos que contenham plástico porque já se chegou num ponto que não tem como destinar. E reciclar também não é a solução. Teve uma apresentação de dados mostrando que transformar pet em camiseta muitas vezes acelera o processo de incorporação do pet na natureza porque ele vai entrar em fragmentos cada vez menores mas continua poluindo as águas. A água que a gente consome já tem muito de composição química e muito de plástico. Mas já temos alguns países voltando a usar papel como antigamente. Até fiquei espantado.

Mas o papel também tem impacto por conta de precisar de árvores, não?

Carlos Durigan – Temos a possibilidade de cultivar árvores de maneira sustentável. Muito mais do que o plástico.

A economia verde centra fogo na questão das emissões. O foco não precisa ser ampliado?

Carlos Durigan – Sim, é preciso baixar as emissões de carbono, mas não é só isso, há todo um conjunto de ações que precisamos efetuar. A questão da contaminação e utilização das águas, por exemplo, é muito importante: já existem países que vivem uma situação alarmante – como a China, vários países do Norte da África, Oriente Médio – por conta da água. É muito caro transformar água salgada ou altamente poluída em água própria para consumo. Claro, isso também é consequência das próprias mudanças de regimes climáticos em algumas regiões. No Brasil já vimos isso no Sudeste e há previsões de que situações semelhantes vão acontecer no futuro. Obviamente que as pessoas que vivem numa situação de seca vão querer se mover para outros lugares, e aí vem a questão das migrações. Junto com isso, vêm as questões políticas que elas envolvem. Esse também foi um ponto largamente debatido na Conferência, é uma agenda que não tem como desviar. Até porque, muitos países têm priorizado seus orçamentos na tentativa de solucionar o problema e isso tira do foco as questões ambientais, climáticas, que estão na base. Não é só a Guerra da Síria, são várias questões que estão mobilizando as pessoas, como pobreza extrema e doenças. Tem gente que está fugindo da África por causa de endemias que se agravam com as mudanças climáticas.

Num cenário desses, o candidato republicano à presidência dos Estados Unidos Donald Trump vem a público dizer que mudanças climáticas são uma bobagem e sua opinião é seguida por milhares. Você acredita que em algum momento o aquecimento global vai deixar de ser considerado um assunto menor?

Carlos Durigan - Quero ser otimista, mas o cenário é pessimista, vivemos numa situação bastante complexa na sociedade atual. Vejo crescer uma onda de conservadorismo e moralista no mundo, direcionada por questões religiosas ou políticas. É um desafio muito grande, mas já temos um número crescente de pessoas fazendo contraponto a este cenário mais negativo. O que mais me deixa perplexo é que existe um lado religioso mercantil de levar as pessoas para o lado retrógrado ao pensarem na existência do sagrado como se isso fosse permitir a destruição porque depois Deus resolve tudo. Mas, mesmo para quem crê no sagrado, é melhor pensar que nossa fonte do sagrado e nosso grande presente que ganhamos é a natureza.

As questões climáticas estão exaltando as desigualdades sociais? Tenho a sensação de que mais e mais os países ricos vão ter ferramentas para lidar com isso e os pobres vão ficando para trás...

Carlos Durigan - É o mundo que não queremos ver, mas a tendência é essa. Já estamos vivendo isso no Norte da áfrica, no Oriente Médio, na Ásia tropical, mesmo aqui no Brasil se a considerarmos o bioma Caatinga, o Nordeste. É o impacto inicial de um cenário de extremos cada vez mais negativo, uma vez que os extremos vão se consolidando. Com o tempo, os países mais ricos também vão começar a sentir o peso dessas mudanças. Noruega, Suécia, Islândia, países economicamente bem resolvidos, estão preocupados, sabendo que não basta construírem o oásis: eles vão ser afetados com o derretimento do Ártico. Por mais que tenham mudado suas fontes energéticas, que tenham criado mega infraestrutura para terem problemas resolvidas em eventos extremos, estão engajados a ponto de criarem fundos de ajuda mundo afora. Cito o exemplo do Fundo Amazônia, que a Noruega ajudou a criar. É preciso ter um sentimento globalizado independente de quanto dinheiro que cada país tenha. A curto prazo, quem está mais vulnerável vai sofrer mais, sim. Mas, a longo prazo, todo mundo vai sofrer.

Quais as expectativas pós-Conferência de Honolulu?

Carlos Durigan – Entre outras coisas, criamos uma plataforma de envolvimento da sociedade chamada "Nature for all". Temos hoje esse potencial, ainda mais através das mídias sociais. Um dos nossos entendimentos é que a vida urbana, a grande concentração das pessoas da cidade está afastando as pessoas da natureza, o que faz com que o caminho fique franco e aberto aos processos destrutivos. As pessoas têm que vivenciar e prestar atenção aos alertas da natureza para atuarem de forma engajada com questões relacionadas à conservação. Esse foi um ponto fundamental. Estamos vendo aqui no Brasil, por exemplo, as eleições municipais acontecerem sem uma cobrança aos políticos com relação às questões como abastecimento de água, destinação certa para lixo, nada sobre agenda socioambiental. A base da economia que o país quer crescer é o agronegócio, e é importante prestar atenção a isso.

Crédito da foto: Divulgação

Fonte: http://g1.globo.com/natureza

Alfredo de Pontal

Autor & Editor

O portal Águas de Pontal abre as cortinas para mostrar o grande espetáculo da vida proporcionado pela Mãe Natureza e seus atores: o ser humano íntegro voltado à reconstrução.

 

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