17 de ago de 2016

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Uma cidade tóxica sob o Ártico

destaques
Tratores usados para construir a cidade. 

Estudo alerta que mudança climática irá trazer das profundezas uma enorme base militar. Ela foi construída pelos EUA na Guerra Fria e que contém toneladas de resíduos tóxicos.

Poderia ser o roteiro de um filme, mas é muito melhor, porque aconteceu de verdade. Em 1959, durante a Guerra Fria, o Exército dos EUA construiu uma enorme base militar sob o gelo da Groenlândia. Foram planejados até 4.000 quilômetros de túneis cavados a dezenas de metros sob o gelo, em meio a um deserto branco que parece de outro planeta e a 200 quilômetros da costa.

Publicamente o objetivo dessa nova base, chamada Camp Century, era a pesquisa que seria feita em cooperação com a Dinamarca, o país responsável pelo território. O projeto incluía um reator nuclear que abastecia toda a base de energia, com capacidade para 200 pessoas. Existiam escritórios, laboratórios, academias, bares, capelas. E sob o mais rígido segredo, sem o conhecimento de seus aliados dinamarqueses, o Exército dos EUA também criou um plano para armazenar ogivas nucleares que poderiam ser disparadas contra a União Soviética de lançadores subterrâneos. Isso era a “cidade sob o gelo”.

Agora, uma equipe de cientistas alerta que o aquecimento climático irá desenterrar a antiga base, que foi fechada e sepultada na neve em 1967. Os responsáveis pelo projeto acreditaram que os túneis e o restante das instalações seriam esmagados pelo gelo, cuja espessura sobre a base aumentaria com o passar dos anos. Mas os responsáveis pelo novo trabalho, de várias instituições acadêmicas dos EUA e Canadá, explicam que a Groenlândia e o Ártico é uma das regiões mais afetadas pelo aquecimento global. Isso ameaça tirar do gelo um volume de resíduos e material tóxico difícil de estimar. Em seu trabalho, publicado na revista Geophysical Research Letters, William Colgan, da Universidade de York, no Canadá, e sua equipe explicam que se o clima seguir uma trajetória semelhante à atual a cidade gelada poderá sair à superfície com sua carga de rejeitos no final do século.

“Quando analisamos as simulações climáticas, vemos que no lugar de existir uma cobertura de neve perpétua, parece que esse lugar pode derreter em 2090”, explica Colgan. “Assim que o local registrar uma quantidade maior de derretimento do que neve, será somente questão de tempo até que os resíduos saiam à superfície, será irreversível”, frisa.

O estudo calcula que os rejeitos da base têm 55 hectares e contêm 200.000 litros de combustível diesel, suficiente para que um carro dê 80 voltas ao mundo. O trabalho estima que também deve existir uma quantidade desconhecida de compostos tóxicos conhecidos como bifenilos policlorados (PCB). Existiriam também 240.000 litros de água contaminada, incluindo resíduos fecais, e uma quantidade desconhecida do refrigerador usado no reator nuclear e que teria níveis baixos de radiação. O reator foi desmontado e retirado após o fechamento da base.

Os responsáveis pelo estudo dizem que a contaminação da região pode começar muito antes da base sair do gelo, já que podem existir correntes de água líquida que atravessem o nível no qual estão os resíduos e os levem a outras áreas da Groenlândia. Os pesquisadores não pedem que a região seja limpa, pois seria muito caro e trabalhoso. “Estamos realmente em uma situação de espera até que se derreta a capa de gelo até quase deixar expostos os rejeitos, só então poderíamos pedir que fosse limpa”, diz Colgan.

A 'rua' principal da cidade media 400 metros e estava ligada a outros 16 túneis. 

Um documentário do Exército dos EUA mostrou à época a enorme quantidade de maquinário e veículos especializados necessária para construir a base e também para enterrá-la no gelo ao ser abandonada. O mítico jornalista Walter Cronkite visitou o local durante sua construção e perguntou a um dos oficiais no comando se a base tinha algum objetivo militar. O responsável disse taxativamente que não, apesar da base ter sido construída lá justamente por ser um dos locais mais próximos à antiga União Soviética. Nenhuma palavra também sobre o projeto Verme de Gelo para levar à base ogivas nucleares, que não se concretizou.

Os autores do estudo alertam que isso pode ser uma bomba diplomática prestes a explodir. As leis ambientais internacionais, dizem, não deixam claro quem deve limpar o local, o que poderia causar um conflito entre os EUA e a Dinamarca, apesar de a Groenlândia ter seu próprio Governo. São conflitos, dizem os autores, que ficaram congelados durante décadas e que a mudança climática irá ressuscitar.

Fonte: NUÑO DOMÍNGUEZ - http://brasil.elpais.com/

Alfredo de Pontal

Autor & Editor

O portal Águas de Pontal abre as cortinas para mostrar o grande espetáculo da vida proporcionado pela Mãe Natureza e seus atores: o ser humano íntegro voltado à reconstrução.

 

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