16 de mar de 2016

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Freio em Vaca Muerta já faz vítimas

destaques meio ambiente
Vista de Añelo, um povoado da Patagônia argentina – que viveu um explosivo desenvolvimento por ter como vizinho o maior campo de hidrocarbonos de xisto do país – começa a perceber o impacto da desaceleração no desenvolvimento dessas jazidas devido a afundamento dos preços internacionais do petróleo. Foto: Fabiana Frayssinet/IPS

Por Fabiana Frayssinet, da IPS –

Añelo, Argentina, 16/3/2016 – O vertiginoso crescimento de Añelo, um povoado do sudoeste da Argentina à sombra da exploração dos hidrocarbonos não convencionais de Vaca Muerta, se transformou em razão da queda mundial dos preços do petróleo, o que freou o desenvolvimento local e ameaça investimentos e empregos. A grande formação geológica de gás e petróleo de xisto, na província de Neuquén, começou a ser explorada em meados de 2013, pela empresa estatal Yacimientos Petroliferos Fiscales (YPF) em associação com a transnacional norte-americana Chevron.

“Foi quando tivemos uma explosão interessante em matéria de crescimento, com o plano estratégico de desenvolvimento que vínhamos implantando de estabelecer todas as empresas de serviços petroleiros em Añelo. Isso nos ajudou muitíssimo a crescer, a nos desenvolver como povoado”, destacou à IPS seu prefeito, Darío Díaz.A população dessa localidade da Patagônia, a cem quilômetros de Neuquén, a capital da província, que era de aproximadamente três mil habitantes, aumentou para seis mil.

Isso sem contar a enorme circulação de operários, técnicos, engenheiros e executivos das empresas petroleiras, junto com caminhoneiros que entregam materiais à mina de Loma Campana, a oito quilômetros de Añelo. “Tínhamos cerca de dez empresas de serviços assentadas em Añelo, e hoje já temos cerca de 40 operando e mais 160 convênios assinados com outras companhias”, disse o prefeito.

Vaca Muerta, com 30 mil quilômetros quadrados ricos em petróleo e gás de xisto, também conhecido pela palavra inglesa shale, converteu esse país no segundo do mundo em produção de hidrocarbonos não convencionais, atrás dos Estados Unidos.Loma Campana, com 300 poços ativos e investimento acumulado de US$ 3 bilhões, produz atualmente 50 mil barris (de 159 litros) diários de petróleo, segundo a YPF.

A atração pelo ouro negro animou grandes investimentos públicos em Añelo e outros povoados próximos. Antecipava-se que em 15 anos sua população poderia chegar a 25 mil habitantes.“Estamos construindo duas escolas e um hospital. Foram ampliadas escolas primárias e secundárias. Estamos fazendo praças e uma nova subestação de energia. Fizemos uma unidade para tornar a água potável, melhoramos serviços de esgoto. Realmente, em matéria de obras públicas, fizemos bastante, sempre pensando no crescimento”, acrescentou Díaz. Porém, a expansão do povoado trouxe problemastambém.

O prefeito citou, como exemplo, que o aluguel mensal de uma moradia de dois dormitórios passou de US$ 33 para US$ 100, e um terreno que antes valia US$ 1,7 mil, agora não se adquire por menos de US$ 130 mil. “Essas são as mudanças abruptas causadas pelo petróleo”, acrescentou. “O que mais sofremos, nós antigos moradores de Añelo, foi esse impacto social de tanto movimento, de tantos veículos, de tanta gente, que traz insegurança e outras coisas mais, razoáveis em qualquer desenvolvimento”, ressaltou Díaz.

Trabalhadores de Loma Campana, um campo com 300 poços abertos de petróleo de xisto, dentro de Vaca Muerta. A decisão de diminuir o desenvolvimento dos hidrocarbonos não convencionais na Argentina começou a provocar demissões na área. Foto: Fabiana Frayssinet/IPS

Agora Añelo teme que, além dos custos pagos por um desenvolvimento explosivo, finalmente o prometido progresso não chegue.No dia 4 de março, o presidente da YPS Miguel Galuccio, anunciou em uma conferência com investidores internacionais que as reduções do setor em 2016 se refletirão no fato de o bloco de Vaca Muerta “ir mais lentamente”. Durante 2015, a companhia teve uma queda de 49% em seus lucros, enquanto seu investimento cresceu menos de 4%, abaixo dos níveis precedentes.

Os custos de produção de xisto, que exigem a cara tecnologia da fratura hidráulica, não são competitivos, em um cenário de afundamento das cotações, em que os tipos marcadores internacionais oscilam atualmente entre US$ 30 e US$ 40 o barril. Na Argentina, o custo de extração em poços convencionais está entre US$ 25 e US$ 30 o barril, e os não convencionais se aproximam dos US$ 70, segundo especialistas em questões petroleiras.

Mas a cotação interna do barril na bacia de Neuquén está regulada em US$ 67,5 e nos demais poços em US$ 54,9, valor artificial estabelecido para sustentar os planos de expansão petroleira e em particular os de Vaca Muerta, embora agora em menor ritmo. A YPF anunciou que nessa bacia reduzirá em 15% os gastos de exploração. Isso implica uma redução de 21 equipamentos, e com as consequentes demissões, ou, como disse em sua linguagem, redução de “custos trabalhistas”.

“A situação é bem complicada”, disse Díaz, que calculou que haverá mil desocupados a mais na província, que se somarão a outros já demitidos. Já se percebe “uma queda da atividade, as pessoas trabalham menos horas”, há uma queda nos salários e isso provoca um impacto social. Sindicatos petroleiros da bacia de Neuquén situam as demissões, até agora nestes blocos, em mil pessoas, que se somam a outros mil desempregados em outras áreas.

Eduardo Toledo, técnico agropecuário que decidiu viver em Añelo, deixando Buenos Aires e investindo suas economias em um restaurante, vê receoso a redução da atividade em Vaca Muerta. “Começamos precariamente: um fogão de três bocas e um forninho, e hoje temos uma cozinha totalmente equipada”, contou Toledo, cujos clientes são caminhoneiros com altos salários petroleiros, operários e outros empregados de serviços das indústrias que estão instaladas nos arredores.

Foram muitos os que, como ele, investiram em hotéis, moradias para alugar, comércios e pequenos serviços. “Todos queriam ter algo onde seria a capital do não convencional”, pontuou Toledo. Atualmente sua atividade caiu para um “nível de médio para baixo”, acrescentou, apontando que “também há a questão da sensação. Se a pessoa sabe que vai perder o emprego, não quer gastar”. Toledo ainda acredita que o interesse pelo gás não convencional mantenha “o movimento”, apesar da queda dos preços.

Em Vaca Muerta, 77% das reservas provadas de xisto são de gás. Além disso, “há recursos gasíferos importantes que ainda não se converteram em reservas”, explicou à IPS o acadêmico Ignacio Sabbatella, doutor em ciências sociais da Universidade de Buenos Aires e coautor do livro História de Uma Privatização. Como e Por Que se Perdeu a YPF, que voltou ao controle estatal em 2012.

Sabbatella destacou que é preciso considerar que, além das flutuações internacionais do preço do petróleo, os investimentos em Vaca Muerta “rendem seus frutos no longo prazo”, estimado em cinco a dez anos.A exploração começou apenas em 2011, “sobretudo com a recuperação do controle estatal da YPF, em sociedade com empresas transnacionais como a Chevron”,recordou. A maior empresa argentina esteve em mãos privadas entre 1992 e 2012, quando o governo de Cristina Fernández (2007-2015) decidiu por sua reestatização.

O especialista observou que o anúncio das reduções da YPF se dá no contexto de “uma mudança de política” desde a chegada à Presidência, em 10 de dezembro, de Mauricio Macri (centro-direita), que pôs fim ao ciclo centro-esquerdista iniciado em 2003 com o governo de Néstor Kirchner, seguido pelo de Fernández, sua mulher.

“O governo anterior a Macri fez todo o possível para sustentar os investimentos, a produção e a exploração, mesmo com um contexto internacional desfavorável, e o que estamos vendo é que este governo controla os investimentos e inclusive empurra a YPF para a redução de seus investimentos”, ressaltou Sabbatella.

“O governo atual acredita que o melhor é ajustar a política petroleira nacional às condições externas. Em um contexto de preços baixos,acreditam que o melhor é não sustentar os investimentos internos, inclusive até dando alguns exemplos, como a conveniência de importar petróleo e combustível mais barato”, alertou o especialista.

À margem destas análises, Toledo prefere ser otimista porque, do contrário,“terei que fechar o restaurante. Não tenho fundos para ir para outro lugar e também não me interessa porque custa muito voltar a arraigar-se a um lugar como este”, lamentou. Envolverde/IPS

Fonte: http://www.envolverde.com.br/

Alfredo de Pontal

Autor & Editor

O portal Águas de Pontal abre as cortinas para mostrar o grande espetáculo da vida proporcionado pela Mãe Natureza e seus atores: o ser humano íntegro voltado à reconstrução.

 

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