18 de jan de 2016

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Alimentação com poucas fibras prejudica flora intestinal, segundo cientistas

saúde


O hábito de comer alimentos gordurosos e instantâneos, com uma quantidade quase inexistente de fibras, tem tudo para mudar totalmente nosso intestino. Para pior. Um estudo realizado por pesquisadores das escolas de Medicina de três das mais importantes universidades americanas, Stanford, Harvard e Princeton, faz um alerta claro: adotar uma dieta pobre em fibras, característica tão comum em alimentos industrializados, pode eliminar bactérias benéficas da nossa flora intestinal de forma irreversível. Os cientistas constataram, também, que essa maléfica mudança tende a ser transmitida para as gerações futuras.

Publicada na revista “Nature”, a pesquisa indica que negligenciar as fibras — presentes em alimentos como feijão, soja, vegetais, frutas e aveia — pode causar uma importante perda da diversidade de espécies de bactérias no intestino, ambiente chamado de microbiota. Quem ingere poucas fibras pode ver exemplares importantes desses micro-organismos desaparecerem em três ou quatro gerações dentro de sua família. E, se isso ocorrer, a pesquisas sugere que haverá dificuldade de restaurar essas bactérias mesmo com o consumo diário de alimentos ricos em fibras.

Segundo os principais autores do estudo, o casal Justin e Erica Sonnenburg, boa parte da população em sociedades industrializadas já deve estar indo por esse caminho.

— Inúmeros fatores, como o uso indiscriminado de antibióticos, podem justificar essa queda no número de bactérias entre pessoas de regiões industrializadas. Mas nos perguntamos se a escassez de fibra na vida moderna poderia, por si só, ser responsável por esse fenômeno — diz Erica Sonnenburg, ao contar como a pesquisa começou.

Os cientistas explicam que a proliferação de alimentos processados quase livres de fibras, iniciada na metade do século XX, resultou em um consumo médio per capita de 15 gramas desse nutriente por dia. Isso representa apenas um décimo do consumo de fibras de populações atuais de caçadores-coletores, cuja dieta é mais próxima dos humanos na pré-história.

As fibras são essenciais porque servem de principal fonte de alimento para as bactérias do cólon, a maior porção do intestino grosso.

— Essas bactérias nos defendem de agentes patogênicos, treinam o sistema imunológico e até orientam o desenvolvimento dos tecidos. Milhares de espécies bacterianas habitam o intestino grosso de todo indivíduo saudável. Seria difícil viver sem elas — analisa Justin Sonnenburg, professor de microbiologia e imunologia.

Essas bactérias são adquiridas ao longo da vida, e, principalmente, durante a infância, junto ao núcleo familiar mais próximo. Se determinada criança tem contato frequente — por toque, saliva, respiração do mesmo ar — com pessoas que têm uma microbiota saudável e vive numa casa onde a alimentação é rica em fibras, ela vai desenvolver as bactérias que se alimentarão dessas fibras. Com isso, terá o organismo mais protegido contra doenças como a síndrome do intestino irritável, que gera diarreia constante, gases e sensação de peso no estômago.

Médicos dizem ainda que as mães podem transferir informação genética sobre sua própria microbiota para os fetos. Assim, embora as crianças nasçam com poucas bactérias, já teriam indicação de quais devem desenvolver. Além disso, aquelas que nascem por parto normal são beneficiadas porque passam pela vagina da mãe e entram em contato com suas bactérias, o que fortalece o organismo do bebê. Parte desses micro-organismos também é transmitida durante a amamentação.

— Um adulto tem 3 trilhões e 300 milhões de bactérias, o que, se fosse pesado, daria cerca de dois quilos e meio — destaca o especialista em terapia nutricional Ricardo Rosenfeld. — Para cada célula do corpo, temos ao menos nove bactérias. Essa população de seres vivos nos influencia muito. Existem pequenas evidências de relação entre mudanças na microbiota e incidência de câncer, diabetes, infarto, psoríase e outras doenças.

Ex-presidente da Sociedade Brasileira de Nutrição Parental e Enteral, Rosenfeld diz que 70% do sistema imunológico estão no intestino, e que o ser humano mudou tanto nos últimos cem anos que parte do organismo não consegue se adaptar.

— O século XX foi o da industrialização e da desgraça na alimentação. Quando se fala em manter a vida, pensa-se logo no coração e no cérebro, não nas bactérias. Mas, para morrer rapidamente, basta deixar de alimentar suas bactérias com boa comida — ressalta o médico. — Se elas morrem, nós também morremos.

PESQUISA COM CAMUNDONGOS

No estudo dos EUA, os pesquisadores trabalharam com camundongos nascidos em ambientes assépticos, sem bactérias. Após preencher as vísceras dos animais com micróbios de humanos, a equipe os dividiu em dois grupos. Um recebeu alimentos com alto teor de fibras de origem vegetal, enquanto o outro teve uma dieta equivalente à do primeiro em relação a proteína, gordura e calorias, mas praticamente sem fibras.

Analisando amostras de fezes dos animais, os pesquisadores viram que, em duas semanas, os camundongos que seguiam dieta com pouca fibra passaram a abrigar menos espécies bacterianas no intestino. Mais da metade delas caiu em 75%. Depois de sete semanas, esses animais voltaram para uma dieta rica em fibras, por um mês. No entanto, a microbiota deles se recuperou apenas parcialmente: um terço das espécies originais não chegou a ser restaurado.

De acordo com o endocrinologista Alberto Arbex, da Faculdade Ipemed de Ciências Médicas e professor convidado de Harvard, em certos países industrializados, como os EUA, 60% dos alimentos são pré-preparados.

— No Brasil, essa taxa é de 30%, mas já foi bem menor e só faz crescer. Temos que tomar cuidado. Para evitar o sobrepeso (problema que atinge 53% da população brasileira, segundo pesquisas recentes), temos que contar muito com as bactérias. Elas nos definem e determinam muitas das doenças que vamos desenvolver ou não — alerta Arbex.



Fonte: Extra

Alfredo de Pontal

Autor & Editor

O portal Águas de Pontal abre as cortinas para mostrar o grande espetáculo da vida proporcionado pela Mãe Natureza e seus atores: o ser humano íntegro voltado à reconstrução.

 

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