28 de dez de 2015

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A guerra do WhatsApp não é só com a Justiça, é com as operadoras

destaques


Tendência é mundial, mas no Brasil é acentuada e afunda lucro das empresas tradicionais

A telefonia móvel nasceu da necessidade de falar em movimento. Essa funcionalidade mudou radicalmente nos últimos tempos. A generalização dos smartphones, ou telefones inteligentes capazes de se conectarem à Internet, e o aparecimento das redes sociais e aplicativos de mensagens instantâneas, como o WhatsApp, revirou essa funcionalidade básica de telefonia. A Internet está devorando a telefonia móvel no mundo, e, no Brasil, as operadoras brasileiras tiveram uma prova acachapante de sua perda de hegemonia com a comoção provocada pela interrupção por quase 13 horas do WhatsApp, em punição pelo não cumprimento de uma medida judicial brasileira.

As mensagens de texto há tempos se tornaram um anacronismo. E agora chega a vez dos telefonemas. Trata-se uma tendência global. Essa mudança de hábitos, que desloca o usuário de um universo analógico e individualista para outro digital e socializado, tem uma dupla consequência empresarial e sociológica. No caso do Brasil, também jurídica e geopolítica: afinal, como deve ser a relação dessas empresas globais de aplicativos —o WhatsApp foi comprado pelo Facebook— com as justiças nacionais?

Seja como for, quanto maior a economia na comparação entre as tarifas tradicionais de telefonia e o uso de aplicativos como WhatsApp, mais rápida é a transição, e foi exatamente isso que aconteceu no Brasil. No âmbito dos negócios, as operadoras veem suas receitas tradicionais com tráfego de voz desabarem e tentam compensar essa queda com faturamento por uso de dados. Por ora, o balanço é negativo porque os planos de tarifas fixas de dados móveis se mostram mais acessíveis que a receita com as chamadas, sujeitas a despesas extras, como o custo de sua realização. Mas o fenômeno mais desestabilizador para as contas das empresas é o wi-fi, que passou a ser o principal recurso de navegação para os dispositivos móveis.

No Brasil, de acordo com a Anatel, o número de novas linhas de celulares diminuíram pela primeira vez em anos. Entre abril e outubro, foram 10 milhões de celulares a menos conectados, num resultado que analistas atribuem tanto à crise econômica como ao uso de aplicativos e wifi. Na Espanha, os dados oficiais mostram a importância do wifi. Um total de 73,6% dos usuários com smartphone se conecta habitualmente a redes wi-fi e apenas 8,3% recorre exclusivamente às redes de banda larga móvel para acessar a Internet, segundo os dados oficiais espanhóis. "Os consumidores não querem surpresas em sua conta. Percebem o wi-fi como um serviço gratuito e ilimitado, embora na realidade esteja sujeito a uma tarifa mensal. Por isso, preferem consumir dados a consumir voz, apesar de empregarem esses dados para falar”, diz o porta-voz de uma operadora do país.

Apelo das operadoras no Brasil

No Brasil, o WhatsApp já é o aplicativo mais usado pelos internautas (93%), segundo pesquisa divulgada recentemente pelo instituto Ibope. Por isso, quando a Justiça anunciou o bloqueio do WhatsApp, as operadoras em guerra fria há meses com o aplicativo, apenas anunciaram que cumpririam a decisão. A reação forte dos brasileiros em rechaço à suspensão do serviço, no entanto, deve ter feito as operadoras do setor pensar duas vezes antes de continuar uma campanha contra o aplicativo e similares, que flertou, inclusive, com ações judiciais. O principal linha de argumentação é chamar o WhatsApp de serviço pirata.

Em setembro, o sindicado das empresas do setor, o SindiTeleBrasil, fez uma nota que misturava protesto e apelo para falar de sua perda de espaço: "A concorrência desigual, injusta e mesmo desleal por parte de algumas OTT's (serviço over-the-top), que ofertam serviços de voz, vídeo e mensagens de forma similar aos serviços de telecomunicações, pode colocar em risco o crescimento da infraestrutura, o emprego do brasileiro, a arrecadação nos níveis municipal, estadual e federal e a própria sustentabilidade do setor", disse a entidade.

O SindiTeleBrasil diz defender "uma discussão profunda sobre a revolução digital" e cobra do Governo Dilma Rousseff uma definição. A solução, como em outras áreas da economia como táxis e hotelaria, não parece fácil e tampouco parece haver volta atrás.

Na Espanha

De fato, o panorama não é diferente na Europa. Para desgraça da Telefónica, Vodafone, Orange ou Yoigo, as principais companhias espanholas, os usuários falam e navegam mais que nunca por celular, mas cada vez gastam menos ao fazê-lo. A despesa dos domicílios da Espanha em telefonia móvel caiu 4,2% no último ano e o gasto médio mensal passou de 29 a 27 euros (120 a 110 reais), de acordo com os dados da última edição do informativo As TICs nos Domicílios Espanhóis, correspondente ao primeiro trimestre de 2015. Esse mesmo estudo revela que a segunda principal característica que os consumidores valorizam quando renovam seu celular é a conexão wi-fi (64,7%), só superada pela câmera (79,1%). Consequentemente, as receitas por telefonia móvel caíram 9,8% em 2014, enquanto as de banda larga móvel cresceram 4,4% e as de banda larga fixa aumentaram 5,5%, segundo o informe oficial correspondente ao quarto trimestre de 2014. Paralelamente, o uso dos aplicativos de mensagem instantânea, que agora se complementam com serviços de voz, como o WhatsApp, se generalizaram igualmente em tempo recorde.

“O sucesso do WhatsApp pode ser decorrente de uma convergência entre SMS e as redes sociais. Por um lado, guarda o respeito à privacidade; por outro, permite a troca de mensagens em grupo, emulando uma rede social, mas sem que o conteúdo seja público, e sem que o usuário tenha a impressão de que seu conteúdo está sendo rastreado com fins publicitários, como fazem o Facebook e o Google”, diz Frederic Guerrero-Solé, professor de Comunicação da Universidade Pompeu Fabra.

Fonte: http://brasil.elpais.com/

Alfredo de Pontal

Autor & Editor

O portal Águas de Pontal abre as cortinas para mostrar o grande espetáculo da vida proporcionado pela Mãe Natureza e seus atores: o ser humano íntegro voltado à reconstrução.

 

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