6 de out de 2015

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"Maior problema da Petrobras é falta de governança"

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Em entrevista à DW, Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, afirma que crise política agrava gestão da estatal, que anunciou corte em investimentos. Redução sinaliza "cenário interno grave", diz.


O novo corte de 11 bilhões de dólares nos investimentos da Petrobras evidencia "falta de coragem" e de independência da estatal em tomar medidas de fato necessárias para retomar o crescimento.

A opinião é de Adriano Pires, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (Cbie). Para o especialista, a medida é um paliativo e consequência de um modelo de gestão que não funciona.

"Se a empresa perde grau de investimento e não coloca em prática nenhuma ação para reverter o cenário, a saída é cortar investimento. Isso é muito ruim, porque se prejudica a produção", explica.

Em entrevista à DW Brasil, Pires critica a atuação do Conselho de Administração da Petrobras e a forma como o Planalto tem conduzido a crise na empresa. "Por incrível que pareça, o governo se 'esqueceu' da Petrobras", afirma.

Na segunda-feira (05/10), a estatal reduziu a meta do Plano de Negócios 2015-2019 de 130,3 bilhões para 119,3 bilhões de dólares, um corte de cerca de 8%. A justificativa da direção foi ajustar o planejamento "diante dos novos patamares do preço do petróleo e da taxa de câmbio". A empresa ressaltou, no entanto, a manutenção da meta de produção em cerca de 2 milhões de barris diários.

Deutsche Welle: O novo corte de investimentos vem quatro meses depois de um primeiro anúncio de redução estimado em 40% para os próximos anos. Por que de fato a medida foi necessária?

Adriano Pires: O anúncio de corte de investimentos mostra que a situação da Petrobras está cada dia mais grave. O governo não tem tomado medidas fortes e necessárias para reverter a situação caótica que a empresa está vivendo. A Petrobras perdeu grau de investimento em duas agências, a Moody's e a Standard & Poor's, e ainda precisa de dinheiro para fechar o caixa neste ano. A empresa decidiu colocar à venda ativos num valor de 57 bilhões de dólares até 2018, mas não tem vendido nada. Nada sai do papel. Nem sabemos quais são os modelos de venda. Quando se perde grau de investimento e não se coloca em prática nenhuma medida para reverter a situação, a saída é cortar o investimento. E isso é muito ruim, porque se prejudica a produção.

Na semana passada, as ações da Petrobras subiram depois de a companhia aumentar em 6% o preço da gasolina e em 4% o valor do diesel, em meio a reações positivas de analistas de mercado. Como o senhor avalia essa medida?

Esses valores são muito baixos diante da situação financeira que a empresa está vivendo, com uma dívida superior a 500 bilhões de reais. A medida é boa, porque se tinha uma preocupação de o governo pudesse fazer uma loucura e aumentar o preço da gasolina e do diesel por meio da Cide, o que não levaria nenhum dinheiro para o caixa da empresa. Mas todo mundo sabe que aumento da gasolina e do diesel é como usar um antibiótico. E quando será o próximo aumento? Qual foi a lógica para se adotar 6%? Se o raciocínio se baseasse no caixa da empresa, o aumento teria de ser no mínimo de 10%. Por outro lado, se o aumento fosse acima de 6% haveria um impacto no IPCA, o que levaria a inflação para dois dígitos. Mais uma vez, vemos que a política de preços da Petrobras é determinada pelo Ministério da Fazenda, como na época do ex-ministro Guido Mantega, e não pela própria empresa.

Essa é uma crítica, então, à forma como o Governo conduz a Petrobras.

O governo, que é acionista majoritário, não dá o mandato suficiente para que a empresa volte a encontrar o caminho da lucratividade e da eficiência. A atual diretoria da Petrobras não tem um mandato para tomar as medidas necessárias, como também não quer fazer. Isso fica muito claro com o licenciamento do presidente do Conselho de Administração, Murilo Ferreira, em setembro. O principal problema da estatal nos últimos anos tem sido a falta de governança. E governança exige transparência. Ninguém explicou a saída temporária de Ferreira. Essa falta de transparência preocupa muito. Se providências não forem tomadas, outros cortes virão.

Quais providências deveriam ser tomadas?

Principalmente, vender ativos de forma agressiva e transparente. O governo também deveria ter coragem de vender refinarias. Para que a Petrobras quer 12 refinarias? A estatal deve se concentrar no negócio que dá dinheiro, que ela conhece muito e tem excelência nessa área que é o pré-sal, explorar e produzir petróleo. Com os cortes anunciados, a produção vai cair ainda mais.

No médio prazo, não há perspectivas positivas?

A empresa anda para trás a cada dia e não se toma uma atitude. Não aumentam o preço dos combustíveis de forma adequada e não vendem os ativos como deveriam. Parte do problema é a crise política. O governo tem tanto problema para resolver que, por incrível que possa parecer, a Petrobras está de lado. Com ameaça de impeachment e de reprovação das contas no TCU, o governo se esqueceu, entre aspas, da Petrobras.

Fonte: http://www.dw.com

Alfredo de Pontal

Autor & Editor

O portal Águas de Pontal abre as cortinas para mostrar o grande espetáculo da vida proporcionado pela Mãe Natureza e seus atores: o ser humano íntegro voltado à reconstrução.

 

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