5 de set de 2015

Publicado em:

A contribuição de cada um para melhorar o ambiente das grandes cidades

meio ambiente

Dia desses entrei para comprar uma flor ali na Companhia Brasileira de Alimentos (Cobal) do Humaitá (Zona Sul do Rio de Janeiro) e ouvi uma conversa entre a vendedora e uma mulher que queria comprar flores artificiais. A vendedora, de uma loja conceitualmente moderna, fez questão de corrigir a cliente:


“Não se usa mais esse nome. Agora elas se chamam flores definitivas. Na verdade, continuam sendo feitas de maneira artificial, mas é melhor quando se entende que só diferem das outras porque essas vivem muito mais, não precisam de cuidados especiais. É a opção ideal para quem trabalha fora, quer ter a casa enfeitada e não tem tempo para ficar cuidando de planta”, explicou a moça.

Achei a explicação bem curiosa. Comprei minha flor natural e saí pensando. É coerente, num dia a dia em que somos exigidos cada vez mais e por mais tempo, pensar em não submeter seres vivos (plantas e animais domésticos) ao descaso. Por outro lado, para onde nos levarão esses cenários urbanos que estão ficando cada vez mais estéreis, sem vida? Como sobreviverão os bichos que tiveram que ceder seu espaço para os prédios mas precisam se alimentar de flores e plantas, como abelhas, morcegos, pássaros…

Nas varandas ou nas ruas, estamos mesmo precisando ter mais verde em nossas vidas. Recentemente o jornal britânico “The Guardian” fez um levantamento sobre os dez espaços mais verdes do mundo e deu o primeiro lugar para o Parque Ibirapuera, em São Paulo (veja aqui) . Aqui no Rio temos a Floresta da Tijuca, mas é uma área que não está exatamente no meio da cidade. Sei que ainda há locais de natureza viva em algumas grandes cidades aqui no Brasil, mas o fato é que parques e pequenas praças andam ficando cada vez mais tristemente áridos. E isso impacta diretamente no dia a dia de áreas urbanas.

Sem terra para acolher a água da chuva, mais enchentes. Sem verde, menos chuvas… E por aí vai. Já sabiam disso os arquitetos que, no período entre as duas guerras mundiais, assinaram a “Carta de Atenas” (leia aqui), quase um manifesto, um conjunto de pesquisas e propostas que eles vinham desenvolvendo em seus países para ordenar as cidades, naqueles tempos difíceis, de maneira mais agradável aos seus habitantes.

Está lá, no tópico 35 da “Carta de Atenas”, a sugestão: “Os volumes edificados serão intimamente amalgamados às superfícies verdes que os cercam. As zonas edificadas e as zonas plantadas serão distribuídas levando-se em consideração um tempo razoável para ir de umas às outras”. Como se pode perceber, pouco ou nada foi acatado das ideias dos arquitetos do século passado.

O pior é perceber que este binômio cidade/aridez anda se alastrando mundo afora. Num artigo da última edição impressa da revista “Resurgence & Ecologista” (veja aqui a publicação online) , o jornalista Ros Coward escreveu sobre o assunto em tom enérgico, quase uma denúncia: “As cercas e as áreas anteriormente dedicadas a hortências ou rosas estão sendo substituídos por azulejos brilhantes ou ardósia”. Ele aponta como grandes vilãos (ah, essa mania que a gente tem de eleger só um responsável…) os projetistas de interior modernos, que andam privilegiando cenários asseados.

“Esta mudança de estilo impacta o meio ambiente? Numa primeira avaliação alguém pode dizer que não, mas um olhar mais atento revela como essas modas têm implicações consideráveis para o meio ambiente. As casas são descritas como “minimalistas”. O sinônimo para deslumbrante, nessa nova estética, é tudo aquilo que está sempre em ordem, não deixa nenhuma bagunça à mostra e é muito bem acabado. Banheiros e cozinhas – com toda a bagunça abolida – têm superfícies de granito polido, azulejos e mármore”, escreve Coward.

E, é claro, em ambientes tão assépticos não cabe colocar um vaso de terra com uma planta que pode deixar cair flores no chão ou – horror dos horrores para quem quer uma casa tão estéril – atrair insetos. “Expulsos pelos desenhistas de interior, a perda de jardins urbanos tem sido catastrófica para o meio ambiente”.

Coward conta que uma pesquisa recente mostrou que Londres tem perdido, nos últimos cem meses, uma área semelhante a duas vezes e meia o Hyde Park, um dos maiores territórios verdes da cidade, com 2,5 quilômetros quadrados de área. Já as superfícies lisas e frias aumentaram cerca de 25% no mesmo período, aponta o mesmo estudo. E continua sua cruzada contra os desenhistas de interiores:

“Eles fazem seu trabalho como se estivessem protegidos dentro de uma bolha. Desenham as casas como se as pessoas vivessem ainda em castelos, sem necessidade nenhuma de interagir com o mundo ao redor. Só que nós, do lado de fora, somos afetados em nossa possibilidade de proteger a biodiversidade. Este discurso tem que mudar”, escreve o jornalista.

É legítima a preocupação de Ros Coward. E não é de hoje que a necessidade de se proteger flora e fauna vem sendo apontada como uma das soluções para poupar a vida humana de transtornos ainda maiores do que aqueles que já vêm acontecendo. Na quarta-feira (27), por exemplo, um estudo da Nasa (veja aqui) constatou que o nível dos mares subiu 8cm desde 1992 até agora. Em alguns lugares a situação é ainda pior, subindo até 22cm. As áreas mais prejudicadas foram as costas do Pacífico da Ásia e da Oceania, assim como o Mediterrâneo Oriental e a costa atlântica da América.

Em entrevista ao jornal “Folha de São Paulo” de segunda-feira (24), o secretário de energia dos Estados Unidos, o físico nuclear Ernest Moniz, que recebeu do presidente Barack Obama a tarefa de ajudar a buscar um acordo internacional na Conferência do Clima em Paris (COP 21), no sentido de baixar as emissões da economia mundial, mostrou-se confiante. Ele acha que é possível pensar no acordo mundial e num corte de 3 bilhões de toneladas de CO2 até 2030 e aposta, para isso, em inovação tecnológica. Como sabemos, as inovações custam dinheiro, o que, de cara, já exclui os países em desenvolvimento do grande conchavo mundial. A menos que os mais ricos baixem os preços de suas tecnologias, aposta Moniz. Eu, não apostaria nisso.

Seja como for, gosto da ideia de poder pensar que os moradores de grandes cidades podem ajudar um pouco, senão com grandes inventos que façam baixar as emissões, pelo menos com ações que não só embelezem mais a paisagem como tornem mais respirável o ar citadino. Portanto, vida longa às plantas naturais nas varandas, salas, jardins, playgrounds. Até porque, parar um pouco a correria do dia para mexer em terra pode ser bem saudável e menos complicado do que pareça a princípio.

Foto: Nathalia Lorentz/G1

Fonte: http://www.espacoecologiconoar.com.br

Alfredo de Pontal

Autor & Editor

O portal Águas de Pontal abre as cortinas para mostrar o grande espetáculo da vida proporcionado pela Mãe Natureza e seus atores: o ser humano íntegro voltado à reconstrução.

 

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