29 de set de 2015

Publicado em:

A conquista da felicidade

artigos

O Paraguai é o país mais feliz, segundo uma pesquisa. É também um dos mais injustos.


Um pescador no rio Jejui, no Paraguai. / AMAMBAY TORALES (GETTY)

A ignorância é felicidade (Thomas Gray, poeta inglês)

A felicidade virou uma indústria. Aparentemente, não passa um dia sem que algum órgão governamental, uma universidade, um filósofo, um economista ou um blogueiro proponha o que pretende ser uma nova análise ou um plano prático para alcançar o sonho que todos desejamos. Faça uma busca na Amazon: há 14.384 livros sobre a conquista da felicidade.


Mas e se a felicidade existir não só em nossos corações e mentes, mas também em um lugar? E que tal se esse lugar for o Paraguai? Sim, o Paraguai, um país encerrado no centro geográfico da América do Sul, aonde comunidades alemãs, irlandesas, norte-americanas, australianas e finlandesas se dirigiram há 150 anos – ou mais, se incluirmos os missionários jesuítas do século XVII – convencidas de que aqui descobririam a utopia; um país que nos três últimos anos consecutivos foi, segundo pesquisas globais realizadas pela conceituada empresa Gallup, o mais feliz da Terra.

Viajei ao Paraguai a ver se encontrava o segredo, e me deparei com uma terra que parecia ter de tudo. Praticamente vazia (sete milhões de habitantes e quase duas vezes o tamanho da Alemanha), esta terra é tão fértil que as mangas apodrecem no chão, os porcos são alimentados com abacate, exporta-se mais carne do que a Argentina e a água de seus grandes rios é tão abundante que não só supera todas as necessidades agrícolas e humanas como também, graças à gigante represa de Itaipu, dispõe de quase dez vezes mais eletricidade renovável – e eterna – do que sua população necessita.

Na teologia guarani tradicional, existe o conceito paradisíaco da “terra sem males”. Dava a impressão de que a haviam encontrado. Mas raspei um pouco e vi que faltava algo para os humanos fazerem.

É que, na ausência de um Judiciário remotamente sério, a corrupção permeia as instituições políticas e estatais de cima a baixo, dos juízes aos policiais, dos ministros aos funcionários públicos comuns. Ocorre também que os pobres estão cada dia mais pobres, e os poucos ricos, mais ricos, entre eles o atual presidente, Horacio Cartes, um magnata do tabaco que, conforme me contou um de seus conhecidos, confessou certa vez que se meteu na política em parte porque já não sabia mais o que fazer com seus milhões.

Mas então, se o Paraguai é um dos países mais injustos, mais corruptos e mais desiguais da Terra, e se estamos quase todos de acordo que a injustiça, a corrupção e a desigualdade são os grandes males que nos assolam, por que seus habitantes se dizem tão felizes?

Em primeiro lugar, como escreveu um colunista paraguaio há algumas semanas, porque “uma das características mais conhecidas da nossa idiossincrasia” é “a obsessão”. Com o olhar voltado para a imaginária terra sem males, muitos se negam a ver o mal real que os rodeia. O exemplo mais surpreendente que encontrei foi o do herói pátrio, Francisco Solano López, cujo aniversário da morte, ocorrida em 1870, é a grande festa nacional. O autointitulado marechal López foi um déspota cujo endeusamento e tirania não seriam superados por nenhum dos ditadores latino-americanos que se seguiram a ele. Durante seus oito anos na presidência, López ordenou a tortura e execução de milhares de pessoas, incluindo parentes próximos, e conduziu o seu país a uma guerra demencial contra a Argentina, o Brasil e o Uruguai, a qual acabou com 85% da população paraguaia, deixando o país sem homens. Hoje, as principais avenidas de Assunção, a capital, levam o nome de López e da sua Lady Macbeth, a não menos sinistra concubina irlandesa do di
tador, Elisa Lynch.

A segunda razão que leva os paraguaios a acreditarem que são felizes é o seu hábito de viver o momento, que está relacionado com o de não examinar o passado com muita atenção. Quem me contou isso foi um empresário chamado Víctor González, durante um percurso de carro pela área rural que cerca Assunção. Enquanto eu via com meus próprios olhos a extraordinária riqueza da terra e a aparente serenidade – de mate na mão – em que seus habitantes viviam, González me disse que em guarani, idioma que quase todos os paraguaios falam, não existe uma palavra para amanhã. A que mais se aproxima do conceito é koera, que significa “se amanhecer”. O que se traduz em uma atitude de não se afligir pelo vier a acontecer no futuro, mentalidade que González, que hoje é rico, mas se criou numa chácara familiar pobre, recorda com nostalgia.

Comentavam González e outros paraguaios com os quais conversei que a infelicidade surge quando as pessoas geram expectativas que não podem cumprir. A mesma coisa foi demonstrada por estudos da Universidade Harvard, uma tese que está sendo demonstrada no Paraguai com um dado dramático: a cada dia, em média, um jovem de 15 a 25 anos se suicida. Cada um deles resolve que é melhor que a manhã não amanheça, porque, na grande maioria dos casos, são pessoas de famílias rurais pobres cujos pais aspiram a mais e que se misturam – por exemplo, ao se mudarem para a periferia de Assunção – com jovens que possuem camisas Lacoste, tênis Nike ou celulares de última geração. A felicidade de repente consiste em adquirir objetos antes desnecessários; eles veem que não conseguem e, corroídos por uma inveja lancinante, acabam com suas próprias vidas. Está claro que o Gallup não entrevistou esse setor específico da população, e também que os que foram entrevistados preferiram fazer vista grossa a essas desgraças.

Que lições tirar da experiência paraguaia? Que a felicidade é possível se as pessoas fecharem os olhos aos inevitáveis males da vida, viverem no presente, se conformarem com o essencial para conseguir viver e alcançarem o enorme luxo de não precisar se preocupar com o dinheiro. Mas falta um ingrediente para que o Paraguai seja o paraíso terrestre. Antes que as pessoas que vivem afligidas pela crise ou por outros dramas no resto do mundo sigam os passos dos sonhadores utópicos de antigamente, seria imprescindível pedir uma coisa à minoria de ricos que governa o Paraguai: que instalem o sine qua non de uma democracia: o Estado de direito, que a justiça seja igual para todos. Quando esse dia chegar, sim, vamos para lá. Todo o resto eles têm.

Fonte: John Carlin - http://brasil.elpais.com

Alfredo de Pontal

Autor & Editor

O portal Águas de Pontal abre as cortinas para mostrar o grande espetáculo da vida proporcionado pela Mãe Natureza e seus atores: o ser humano íntegro voltado à reconstrução.

 

Não perca nossas publicações...

Inscreva-se agora e receba todas as novidades em seu e-mail, é fácil e seguro!

Desenvolvido por YouSee Marketing Digital - Nós amamos o que fazemos
| Hosted in Google Servers with blogger technology |: