10 de ago de 2015

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Canal de Suez: esperanças econômicas e temores ecológicos

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Cartazes anunciando “Um projeto egípcio, assombrando o mundo” podem ser vistos ao longo das congestionadas estradas do Cairo. Enormes bandeiras tremulam frouxamentre nos spots televisivos de propaganda louvando a mais nova proeza da engenharia nacional: a expansão do Canal de Suez, inaugurada nesta quinta-feira (06/08).




As obras, completadas em apenas 11 meses, acrescentam uma via adicional de 37 quilômetros de extensão na parte do canal marítimo que conecta o Mar Vermelho ao Mediterrâneo. Além disso, a passagem principal foi alargada e aprofundada. Aberto em 1869, o Canal de Suez é a principal fonte de divisas para o país, cuja economia vai se recuperando lentamente do impacto econômico resultante das turbulências políticas da “Primavera Árabe” de 2011 e da crise de segurança na região. A nova seção custou 7,9 bilhões de euros, financiados inteiramente por investidores egípcios. Ela vai abreviar o período de espera para as embarcações de 18 para 11 horas. O governo do Egito espera que, ao permitir a passagem de mais navios, a expansão multiplique o faturamento do canal, dos 4,7 bilhões de euros calculados para o fim de 2015 para quase 12 bilhões de euros em 2023. Isso, apesar de analistas rebaterem que o aumento do volume de navios dependerá do volume do comércio global, e não da capacidade da via marítima. Temores ecológicos Entre os ecologistas, o projeto é visto com ceticismo e apreensão. A bióloga marinha Bella Galil, do Instituto Nacional de Oceanografia de Israel, teme que ele “cause caos e destruição em todo o Mediterrâneo”. Desde sua construção, 145 anos atrás, o Canal de Suez tem funcionado como um corredor para espécies exóticas invadirem a região. Na ausência de inimigos naturais como parasitas ou predadores, elas se reproduzem com rapidez extrema. Até o momento, 444 dessas espécies penetraram no Mediterrâneo através do canal, explica Galil. A medida que o mar vai se aquecendo, devido à mudança climática global, elas migram para o norte e o oeste, e será basicamente “impossível tirá-las novamente do Mediterrâneo”. Juntamente com 17 cientistas de várias partes do planeta, ela publicou em 2014 um artigo para a revista Biological Invasions, alertando para a ameaça ecológica acarretada pela ampliação do canal. A bióloga chama a atenção para espécies como a Rhopilema nomadica, um tipo de água-viva que, desde o final da década de 1970, aparece anualmente no Mar Mediterrâneo em enxames de quilômetros de extensão. “Sofremos com elas todos os verões”, queixa-se. As águas-vivas são altamente venenosas, e sua picada pode levar à hospitalização. Além disso, elas ameaçam as usinas de energia costeiras, entupindo seus sistemas de refrigeração, além de prejudicarem a pesca e o turismo. E cada expansão do Canal de Suez “é seguida por outra safra de invasão do Mediterrâneo”, afirma Bella Galil. Cairo nega ameaça ecológica Sendo israelense, Galil está ciente de que seus comentários podem ser interpretados como tendo motivação política. Assim, ela se apressa em esclarecer que não é contra a passagem marítima em si, já que a navegação é menos nociva ao meio ambiente do que outras formas de transporte. No entanto, as autoridades deixaram de adotar medidas paliativas necessárias, como a instalação de comportas ou de barreiras de salinidade, que minimizariam o afluxo das espécies invasivas, critica a bióloga. Uma porta-voz do Ministério egípcio do Meio Ambiente rechaça essa acusação: a avaliação ambiental conduzida pelo governo teria indicado que “não vai haver nenhum impacto”. “De outro modo não poderíamos ter continuado o projeto”, disse à DW. Outras portas de invasão Tarek Temraz, que atuou como consultor externo para o estudo de impacto, concorda. Ele acredita que a ampliação terá “um efeito mínimo no aumento das espécies ou organismos invasivos”. “Não estou dizendo que tudo esteja OK. Mas nem todas as espécies invasivas no Mediterrâneo estão relacionadas ao Canal.” O cientista da Universidade do Canal de Suez em Ismaília ressalta que há outros pontos de entrada, como a água de lastro dos navios ou crustáceos agarrados aos cascos: “Seria necessário o exame genético para identificar de onde, exatamente, essas espécies vêm.” Segundo Temraz, as autoridades do Egito teriam lançado um projeto de monitoramento para detectar espécies invasivas e eventuais ameaças ecológicas. Se necessário, o governo “tomará as medidas apropriadas”, assegura. Entretanto, a julgar pelo clima de entusiasmo no Cairo, bem poucos egípcios estavam pensando em ecologia, durante as comemorações da expansão do Canal de Suez.

 Fonte: MSN - Deutsche Welle - Naomi Conrad

Alfredo de Pontal

Autor & Editor

O portal Águas de Pontal abre as cortinas para mostrar o grande espetáculo da vida proporcionado pela Mãe Natureza e seus atores: o ser humano íntegro voltado à reconstrução.

 

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