28 de jul de 2015

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Quando o Paraná virou um inferno

histórias
Em 1963, quando o “demônio reinou”, um incêndio devastador atingiu 128 cidades do estado e matou 110 pessoas.

Edição da Gazeta do Povo de 50 anos atrás relata a destruição causada pelas chamas - Marcelo Andrade/Gazeta do Povo

Há mais de 50 anos, o Paraná ardia em chamas. Uma série de incêndios florestais entre os meses de agosto e setembro de 1963 causou uma tragédia histórica – 110 pessoas morreram e 10% do território do estado foi consumido pelas chamas. Foi o pior incêndio registrado no Brasil e um dos maiores do mundo. O cenário foi descrito na época pelo trabalhador rural João Arruda, uma das centenas de vítimas do fogo, como o “ano da penitência”. “O demônio reinou por aqui e trouxe todo o fogo do inferno com ele”, disse, em um relatório elaborado pelo governo do estado.

O flagelo foi resultado da combinação de baixas temperaturas com uma estiagem prolongada. Os campos estavam secos em razão das fortes geadas daquele ano. Como era de costume, os lavradores faziam pequenas queimadas para limpar o terreno. Não demorou muito para o fogo avançar sem controle.

Ao todo, 128 cidades das Regiões Norte, Central e dos Campos Gerais foram afetadas. Dois milhões de hectares foram completamente devastados ao longo de dois meses. “Foram 20 mil hectares de plantações, 500 mil de florestas nativas e 1,5 milhão de campos e matas secundárias”, relata o pesquisador Antônio Carlos Batista, professor de Engenharia Flo­restal da Universidade Fe­deral do Paraná.

Em foto de 1963, o Paraná em chamas: florestas e araucárias foram devastadas. Ajuda para combater o fogo veio de outros estados

Aproximadamente 8 mil imóveis, entre casas, galpões e silos, viraram cinzas. Cerca de 5,7 mil famílias – a grande maioria formada por trabalhadores rurais – ficaram desabrigadas. Tratores, equipamentos agrícolas e incontáveis veículos foram atingidos pelo incêndio. Em 14 de agosto de 1963 foram noticiados os primei­ros focos de incêndios em Guaravera, Paiquerê e Ta­ma­rana, que eram distritos de Londrina. As chamas se estenderam a Sengés e Jaguariaíva, o que provocou a perda de pelo menos 15 milhões de araucárias. O relatório do governo estadual da época revelou que Ortigueira teve 90% da área queimada. Mais de 70% das reservas florestais das Indústrias Klabin de Papel e Celulose, cultivadas em uma fazenda de Tibagi, se perderam. Só nesse local, 200 milhões de araucárias foram destruídas. As perdas em todo o estado eram calculadas em 200 milhões de cruzeiros. A ajuda para combater o incêndio veio de outros estados, com o fornecimento de helicópteros e aviões. “Não tinha muito que fazer”, afirma Batista. O fim do inferno paranaense acabou naturalmente. “O fogo cessou só com a volta da chuva”, conta o professor.

O incêndio florestal registrado no Paraná há 50 anos é um dos maiores e com consequências mais drásticas em todo o mundo. Segundo o livro Incêndios Florestais – Controle, Efeitos e uso do Fogo, escrito pelos pesquisadores Ronaldo Via­na Soares e Antônio Car­los Batista, o incêndio de Pesthigo, nos Estados Unidos, em 1871, foi um dos mais graves já registrados, matando 1,5 mil pessoas. Nos grandes incêndios de Idaho, também nos Estados Unidos, 500 mil hectares foram devastados em 1933.

“O incêndio de 1963 foi não só o maior e mais destrutivo já registrado no Brasil como um dos maiores e mais destrutivos do mundo. Felizmente, no Brasil, nenhum outro chegou perto desse. O segundo maior em extensão ocorreu em Roraima, em 1998, atingindo cerca de 1,5 milhão de hectares”, afirma o pesquisador Viana Soares.

Segundo ele, no quesito de mortes, a tragédia no Pa­raná foi a segunda pior do mundo – perdendo para o de Pesthigo, no estado de Wisconsin. No Brasil, o segun­do incêndio com maior número de vítimas foi registrado no Parque Estadual do Rio Doce, Minas Gerais, em 1967, que matou 12 pessoas.

Impactos

A partir da tragédia de 1963, Batista revela que começou a se trabalhar para evitar outras calamidades. “Foi preparado um sistema de alerta, que monitora e avisa sobre os perigos de incêndios florestais”, conta.

Segundo ele, não se pode afirmar que nunca mais irá ocorrer um incêndio como aquele. “Existem formas de tentar prevenir e controlar as chamas. Mas não há estrutura suficiente para cessar imediatamente um fogo do porte do de 1963”, ressalta.

O pesquisador Soares concorda. “Até hoje não existe no mundo tecnologia capaz de combater incêndios de grande intensidade. Nesse caso, somente mudanças climáticas podem resolver o problema.” Foi o que aconteceu no Paraná quando a chuva chegou.

Estado decretou calamidade pública por causa das queimadas.

No dia 28 de agosto de 1963, o governo do Paraná decretou Estado de Calamidade Pública. O fato, que estampou a manchete da Gazeta do Povo, foi motivado pelos estragos causados pelo incêndio e os problemas sociais gerados, como desabrigados e desempregados. A atividade agrícola na época praticamente parou.

O governador Ney Braga chegou a contratar, em outubro, por 300 milhões de cruzeiros, uma equipe dos Estados Unidos para auxiliar no desenvolvimento do Paraná, que estava sofrendo com os efeitos da tragédia. Os peritos norte-americanos orientaram os produtores rurais para que não fizessem uso de queimadas para limpar o terreno antes do plantio.

Foram enviados ao estado medicamentos, ferramentas agrícolas, roupas e alimentos oriundos de diversos países, como Estados Unidos, Itália, Japão, China e Suíça.

Fonte: http://www.gazetadopovo.com.br - Diego Antonelli

Alfredo de Pontal

Autor & Editor

O portal Águas de Pontal abre as cortinas para mostrar o grande espetáculo da vida proporcionado pela Mãe Natureza e seus atores: o ser humano íntegro voltado à reconstrução.

 

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