30 de jul de 2015

Publicado em:

População mundial pobre não está consciente sobre os efeitos das mudanças climáticas

meio ambiente
Uma pesquisa publicada segunda-feira (27) na revista “Nature Climate Change”, sobre a conscientização da população mundial a respeito das mudanças climáticas, ratifica a tremenda desigualdade social, o maior desafio do século XXI. Noventa por cento das pessoas que moram na Europa, no Japão e na América do Norte estão conscientes do problema, ao passo que muito poucas dos países pobres disseram saber das mudanças climáticas, embora sintam bem próximo os novos padrões do clima local. A entrevista foi feita pela equipe do Gallup World Poll em 2007/2008 e consolidada pela Yale.

Anthony Leiserowitz, co-autor da pesquisa, constatou que nada menos do que 40% dos adultos entrevistados nos 119 países nunca ouviram falar sobre mudanças climáticas. “Este percentual sobe para mais de 65% se fizermos o recorte apenas entre os países não desenvolvidos”, disse ele para o site. Como era de se prever, o nível de educação interfere diretamente no conhecimento do problema, mas a pesquisa aprofundou um pouco mais sobre essa questão e descobriu que nos Estados Unidos contam também o engajamento cívico e o acesso à informação. Na China, as pessoas mais interessadas no tema são aquelas que têm mais escolaridade, moram em regiões urbanas e de maior renda familiar.

Outro ponto que a pesquisa mostra – e que não é surpresa – é que as pessoas que estão conscientes da mudança climática percebem essa questão como uma ameaça grave para si e para toda a família. Mas, isso nos países pobres, muito mais do que nos países desenvolvidos, para quem o risco, de fato, é menor. O fato de as mudanças climáticas serem causadas pelo homem está presente para a maioria dos que estão conscientes do problema. Mas na China o que chama mais a atenção das pessoas é a má qualidade do ar, enquanto nos Estados Unidos o que causa essa sensação é mesmo a mudança do clima no dia a dia.

Leiserowitz conclui que os resultados dessa pesquisa podem ajudar bastante os governos a entenderem o que é preciso fazer para que as pessoas se conscientizem do problema. E, é claro, constata que mais educação e informação são imprescindíveis.

Não há como discordar disso, embora com alguma frequência eu ande me perguntando se, de fato, os governos de todos os países querem que essa consciência se alastre. Como também constato que justamente os moradores dos países pobres, aqueles que já estão sendo mais afetados com a falta de recursos para consertar os estragos causados pelos desastres ambientais, são os que menos conhecem o tema.

Não custa lembrar que foi em 23 de junho de 1988* que o aquecimento global e, consequentemente, as mudanças do clima que viriam daí, tornou-se tema integrante dos discursos de alguns políticos nos Estados Unidos. Naquele dia, o então presidente do Instituto de Estudos Espaciais da Nasa, James Hansen, fez um discurso para os legisladores do Congresso norte-americano onde afirmava que havia quase 99% de certeza de que as altas temperaturas que estavam pegando todo mundo de surpresa naquele ano tinham como origem as atividades humanas. Para o “The New York Times”, Hansen declarou que já era tempo de encarar a ciência, sob esse aspecto, mais seriamente. No mesmo ano, no Canadá, a questão da redução das emissões de carbono foi discutida pela primeira vez na Conferência Mundial sobre Mudanças Atmosféricas.

Não é de se surpreender, portanto, que um país rico, que tem mais facilidade de oferecer serviços de qualidade a seu povo, tenha mais pessoas conscientes do problema do que o resto do mundo.

Um fato inquietante, porém, é que mesmo quem se esforça para estar o tempo todo antenado com a evolução das descobertas sobre mudanças climáticas, vira e mexe se surpreende com um fato novo. Elizabeth Kolbert, jornalista e escritora norte-americana que escreve assiduamente na “The New Yorker” acaba de noticiar em sua coluna que a meta de aquecimento de 2 graus centígrados até o fim do século estabelecida pelos líderes no acordo da Conferência de Copenhague (COP-15) “não fornece segurança e o aumento do nível do mar pode começar muito mais cedo do que se supõe”.

Quem dá esta notícia à jornalista é, nada mais nada menos, do que o próprio James Hansen, que hoje lidera uma equipe de cientistas da revista “Atmospheric Chemistry and Physics” (ACP) . Ele e seus colegas alertam para o fato de que um aumento de 2 graus já é o suficiente para derreter grandes porções da Antártida o que, por sua vez, pode resultar em vários metros a mais no nível do mar. Não é à toa que as nações-ilha do Pacífico se irritaram tanto com o Acordo de Copenhague ao fim da COP-15. Afinal, o resultado direto do aumento do nível do mar é a salinização de suas terras e, posteriormente, até mesmo o fim delas.

“O que é importante nesse documento divulgado pela ACP é perceber que os cientistas estão longe de se entender a respeito dos perigos que as mudanças climáticas podem trazer. E isso tem implicações políticas importantes, embora pareça pouco provável que os políticos vão entendê-las”, diz Kolbert.

Mas, no fim das contas, o próprio documento assinado por Hansen está sendo contestado por outros cientistas que consideram que muitos dos cenários apontados pela equipe não são realistas. Seja como for, Kolbert ouviu um número de “proeminentes climatologistas” – que não estão identificados em seu texto – que afirmam que mesmo um aumento de 2 graus na temperatura global pode causar secas e tempestades “que desafiariam a sociedade civilizada, levando potencialmente para o conflito e migrações em massa”.

Ora, como já foi bastante anunciado à época, um grupo de pesquisadores da Universidade da Califórnia afirmou que um dos motivos para a Guerra Civil na Síria em 2011 foi uma seca que o país enfrentou entre 2007 e 2010. A falta de condições para o plantio inviabilizou a produção agrícola em várias regiões e obrigou mais de 1 milhão de pessoas a migrarem do campo para as cidades. Junte-se a isso a má gestão governamental para enfrentar esse problema e temos a rebelião.

Ou seja, conflitos e migrações por conta das mudanças climáticas já estão acontecendo hoje. Na pesquisa feita pela Yale certamente a Siria não está entre os países desenvolvidos (o IDH do país é médio, segundo o relatório do PNUD de 2013), o que nos faz acreditar que as pessoas que já sofreram na pele um dos muitos dramas causados pelo aquecimento não sabem que isso existe. E, talvez, não tenham mesmo tempo e cabeça para lidar com tal problema. Isso não quer dizer que os estudos tenham que parar. A tarefa maior, no entanto, deve ser introduzir a preocupação com a mudança climática na vida cotidiana das pessoas e oferecer-lhes perspectivas no sentido de adaptação aos problemas que surgem.

*Informação retirada do livro “This Changes Everything”, de Naomi Klein

Fonte: G1 - Amelia Gonzalez

Alfredo de Pontal

Autor & Editor

O portal Águas de Pontal abre as cortinas para mostrar o grande espetáculo da vida proporcionado pela Mãe Natureza e seus atores: o ser humano íntegro voltado à reconstrução.

 

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