30 de abr de 2013

Publicado em:

Pai

dedo de prosa


Até 1999 você estava comigo. Fiquei a seu lado até o momento derradeiro. Senti um enorme alivio, pois, há semanas, você agonizava no hospital depois de longa e sofrida batalha.

Não sei onde você está hoje. Será que existem outras vidas, a vida eterna? Sei lá, agora não importa. Parece que sinto sua presença me rodeando e comemorando a emoção que acabei de sentir, ao tomar conhecimento da menção do meu portal nas referências bibliográficas no artigo de pós que meu amigo/irmão Jony escreveu e que, inclusive, foi eleito entre os melhores da América Latina. Jony irá à São Paulo apresentar o trabalho num fórum especialmente organizado para os melhores, os campeões.

Soube também que, hoje, um palestrante da Casa da Cultura citou o meu Dedo de Prosa, também do portal, como modelo de aproximação entre os seres humanos.

Estou aqui à beira da baía com os meus amigos Ervino, Vininho, Clarinda, Benê, Cesário, Terézio, Zébrio, Figueirinha, Mr. John, Salvador e Firmo. Conheci essa turma aqui na enseada e de vez em quando a gente se encontra pra por a conversa em dia.

Quero dividir minha alegria com eles e contar um pouco da nossa história. Não vou dizer que sinto sua presença, mas, pelo menos quero que ouça. Arrume um toco, desses que a maré costuma trazer, sente, fique a vontade.

Você lembra quando eu tinha seis anos, já faz 60, e aos domingos, muito cedo, às vezes com geada, íamos pescar lambari no Iapó. A isca era minhoca branca. A puladeira, ou quebra-quebra, pra lambari, não prestavam. Lembra daquele enorme bagre que pesquei cedinho no Barranco Amarelo e aquela pirapitinga (peixe raro) no Pedregulho?

Lembra do capão do surdo, do areião, do poço fundo, dos ribeirões do Maracanã e do Onça? Poxa, nós conhecíamos cada pedacinho do Iapó e você me contava tantos causos. . .Sabe, eu era muito feliz, principalmente, porque estava com o meu Pai e você era bom.

Ao final das pescarias contávamos o que cada um pescou. Com o tempo cheguei a pegar mais do que você. Só que você não gostava muito. Nós dois não gostávamos de perder.

O primeiro abraço ganhei de você aos dezoito anos. Foi no dia da minha formatura no Colégio São José. Eu almoçava e você enrolava o cigarro de palha de frente para o armário que você fez e que até hoje está na cozinha aqui de casa. A mesa e os outros armários também. De repente virou-se e ambos, aos prantos, nos abraçamos. Era o seu jeito de ser. Simples, tímido, correto demais, exigente e um grande artesão. Muitas peças de sua produção ainda estão comigo.

Minha vida foi marcada por diferentes dificuldades, mas, de você só bons ensinamentos e os melhores exemplos.

Aos sete anos, nos mesmos locais do Iapó, a mesma pescaria, você ensinou ao meu filho. Tratava-o como pedra preciosa. Coisas que só os avós sabem.

Uma pausa. . .silêncio. . . e parece que você foi repousar no seu canto, tal como sempre fazia. Antes, deixe-me abraçá-lo carinhosamente. Hoje é o dia dos Pais, seja feliz, conte seus causos e apareça.

A turma, envolvida em longos papos, reclamando muito como sempre. Firmo, o irritado, queria explicações sobre a equipe do novo Prefeito, que muda todo dia e não se acerta. Foi advertido por Dr.Zébrio: Em nosso meio esse tipo de assunto não pode ocupar espaço. Mas e as casas populares que irão construir no manguezal? Temos que confiar em nossos representantes. Nós os elegemos e eles sabem o que fazem.

Sei não, resmungou Clarinda: a coisa precisa melhorar. Saúde, transporte, segurança, tá pior! E a fábrica que veio fabricar plataformas, contrata 3 mil, despede 1.500 e ninguém explica! Mr John interfere tentando esclarecer a situação. Afinal, tem altos contatos no meio empresarial e político. Tudo logo será normalizado e novas indústrias virão. Aguardem.

Seu Mito ajuda a clarear algumas coisas, por exemplo: uma nova estrada será construída, saindo do Guaraguaçú até a Ponta do Poço. A PR-407 será duplicada. A nossa 412, no entanto, com 42 lombadas fica como está, pelo jeito.

Olha turma, já que estou falando, me deixem lembra-los que hoje é o dia dos Pais. Quem pode não deixe de abraça-los.

Ah!. . .quando eles se vão. . .quanta saudade! A vida por aqui é curta, muito curta e não dá pra perder tempo. Falem de amor com seus pais. Não permitam que as banalidades roubem espaço e tempo da bondade, da compreensão, do carinho. O mundo anda muito turbulento. É preciso parar, ouvir a voz do silêncio, deixar que a ternura tome conta. Há muita maldade sendo praticada, mas, sempre há lugar para a paz, para o bem. Pelo menos aqui em nosso meio, hoje e em muitos outros dias, tentemos ser alegres, amáveis e porque não, felizes.

Dedo de Prosa é fruto do imaginário. Às vezes se confunde com a realidade.

Alfredo de Pontal

Autor & Editor

O portal Águas de Pontal abre as cortinas para mostrar o grande espetáculo da vida proporcionado pela Mãe Natureza e seus atores: o ser humano íntegro voltado à reconstrução.

 

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