28 de jul de 2013

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FIM DO MUNDO

dedo de prosa


Hoje, logo cedo, me deparo com Clarinda batendo no portão. Aos prantos pedia socorro. Tive que pedir p’ra patroa providenciar água com açúcar, suco de maracujá até fazer a dita se acalmar um pouco.

Seu Mito, soube ali no mangue, na casa dos Maias, que o mundo vai acabar dia 21. Uns falando no tal do tsunami, outros num fogaréu muito grande que vai derreter tudo e não vai sobrar nada.

Seu Mito, por favor, o senhor que é mais letrado, me diga que não é verdade. Eu vou enlouquecer, antes do dia 21 vou amarrar uma pedra pesada no pé e me jogar na Ponta do Poço. Como ali o mar é muito fundo sei que não escapo e me livro do fim do mundo. Me salve Seu Mito. . .socorro. . .estou desesperada. CALE-SE CLARINDA!, se acalme, pelo menos um pouco, para podermos conversar, pô!

É tudo estória Clarinda, o que você chama de mundo, não acaba assim de repente. O nosso pequeno planeta, perdido entre tantos outros no universo, há tempo vem se acabando. E nós, chamados de racionais, inteligentes, é que estamos acabando com ele. Nessa toada, lentamente, está morrendo.

Fazemos quase tudo errado, Clarinda. Não cuidamos das matas, das águas, dos animais, das aves. A maioria não respeita o próximo, rouba, mata, tudo pela ganância de ter cada vez mais, sem se importar com os meios.

Os cientistas dizem que o nível dos mares está subindo, que a temperatura está aumentando e tudo, tudo mesmo, por ação direta do ser humano, que não quer usufruir, apenas destruir.

Fique calma, você vai comemorar o Natal e muitos outros. Porém, comece hoje, sem demora, a proteger o planeta e convoque seus vizinhos, amigos. Crie uma multidão de fazedores do bem e o planeta, talvez, volte a sorrir.

Fazer o bem de que jeito? Ora Clarinda, não tá vendo o lixo nas ruas, nas praias? O manguezal tá cheio de garrafas plásticas, potes, pneus, fraldas e tudo mais que se possa imaginar! É só não fazer isso e ensinar, convidar os outros a não fazerem.

Nisso, Mr.John, o australiano, que veio morar na terrinha, passa pelo portão e não resiste. Diante da acalorada conversa, se aproxima, e quer saber o que tá rolando.

Clarinda explica (complica) um pouco mais. Na tentativa de acalmar os ânimos, Mr.John resolve falar sobre o Hercólubus. Aí, então, a coisa ficou feia: Não me venha falar palavrão em inglês, aparteia Clarinda. Aqui no meio da nossa turma ninguém é bocudo. Podemos não ter estudado muito, mas, educação a gente tem. Outra coisa: sou capaz de começar a usar o meu palavreado caiçara, que também tem palavrão, embora não tão feio.

Por sorte, o Seu Ervino, junto com o Benê, Firmo, Salvador, Cesário e Figueirinha iam passando e se aproximaram, percebendo que a situação não era das mais fáceis.

Finalmente Mr. John conseguiu falar. Amigos, Hercólubus é um possível planeta, descrito por Joaquin Amortegui Valbuena (conhecido por Rabolú), em seu livro Hercolubus or Red Planet.

Ele, o planeta, estaria se aproximando perigosamente da Terra, como no passado, quando teria destruído Atlântida, da qual Noé é um dos sobreviventes.

Há também outras passagens mais antigas que se aproximaram da Terra. Uma delas é a que submergiu o antigo continente da Lemúria e a Grande Atlântida. Seu nome é oriundo dos antigos sumérius que o chamavam de Ekolubus.

Rabolú alega que Hercólubus se aproximará novamente da Terra e que a única forma da humanidade se salvar do cataclismo (usando a linguagem culta) ou cataclisma (usando a linguagem popular) seria a eliminação dos defeitos psicológicos e a projeção astral consciente. É como se fosse um segundo sol.

Meia hora de silêncio, um olhando p’ra cara do outro, até que o impaciente Firmo arriscou: ontem, aqui em cima e p’ro lado da Ilha, a escuridão parecia anunciar o tal do cataclisma. P’ro lado da serra tinha sol, que naquelas alturas já devia ter ido dormir. Então, o segundo sol entrou em operação e iluminou uma parte da terrinha. É isso?

Firmo, veja bem, o seu raciocínio até faz algum sentido, alega Mr. John, mas, não é bem assim. Faltam os embasamentos científicos e só dia 21 é que conheceremos a realidade.

Caramba, diz Seu Ervino, vai ser um rebuliço danado. Vou juntar a família e um pouco das tralhas, subir o Marumbi e ficar vendo lá de cima.

Salvador, tentando consolar Clarinda, que se esgoelava de tanto chorar, se manifesta: não me venha com cataclisma, projeção astral e defeitos psicológicos. É tudo balela. Culpa dos Corinthianos que não pararam de fazer festa e, pelo jeito, vão acabar com o mundo. Andam dizendo que irão disputar jogos em outros planetas, porque aqui na Terra são imbatíveis.

Figueirinha interfere: ninguém é imbatível. Não viu o resultado das últimas eleições?

Nisso chega Vininho contando que lá na casa dos Maias, já começou a festa da despedida, que vai durar até o fim.

Mr. John ainda tenta minimizar as coisas, mas, sob ameaças, é expulso do pedaço e quase não consegue pegar a sua inseparável bicicleta.

Finalmente, Seu Mito resolve falar. Gente, não é nada disso, é tudo conversa mole. O nosso planeta, apesar de todas as nossas agressões, vai continuar sua rotina. Até quando? Até o dia que uma Instância Superior, arrependida da sua criatura, resolva criar um novo ser humano, despojado de maldade, vaidade, estupidez, ambição desenfreada. Nós e os que virão seremos responsáveis por essa difícil tarefa.

Mas e se o Seu Rabolú estiver certo, arremata Clarinda. Bem, daí os Corinthianos, aliás, com todo o respeito, terão ainda dois dias para comemorar.

P.S. o menu Dedo de Prosa foi inspirado em 12 personagens imaginários: Seu Ervino, Vininho, Benê, Firmo, Mr. John, Seu Mito, Salvador, Cesário, Clarinda, Figueirinha, Dr. Zébrio e Terézio.

Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

Alfredo de Pontal

Autor & Editor

O portal Águas de Pontal abre as cortinas para mostrar o grande espetáculo da vida proporcionado pela Mãe Natureza e seus atores: o ser humano íntegro voltado à reconstrução.

 

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