7 de jan de 2014

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Batismo do Perequê

dedo de prosa


O dia sete de janeiro de 2014 já ficou marcado na história das plagas da grande baía.

Figueirinha e Seu Mito, a bordo do Perequê, singram as águas de Pontal com destino ao porto vizinho.

Mar calmo, maré vazante, exige força máxima do poderoso motor, para cobrir a distância de doze milhas num tempo recorde de duas horas, com o Capitão Figueirinha no timão, peito estufado, orgulhoso. Era o batismo do Perequê que ele mesmo fabricara.

Seu Mito festejava o grande feito. Braços abertos sorvia a brisa matutina lembrando a infância quando navegava no rio Iapó. Cenário maravilhoso. A dupla comemorava tal qual crianças brincando de roda cotia.

Até a Cotinga tudo bem. De repente o poderoso tossiu, engasgou. Figueirinha teve que apelar pra manivela, já que o sistema eletrônico de ignição estava inoperante. Uma, duas. . .dez tentativas e nada. Aliás, Seu Mito nem sabe nadar.

Surge uma embarcação da Marinha e oferece socorro. Figueirinha disfarça e diz que “entrou ar no motor” e o Perequê a deriva. Usa de toda sua experiência, derrama óleo direto no pistão e o poderoso voltar a roncar. Dez minutos depois nova pane. Aí o jeito foi aceitar o reboque de outro pescador.

Entrar pelo Itiberê impossível. A documentação do rebocador não estava em ordem e o risco era grande. A alternativa seria atracar no Valadares e para lá rumaram. Entrementes Figueirinha faz mais uma tentativa e inexplicavelmente o poderoso ronca de novo. Rebocador desengatado seguem faceiros para a Rua da Praia, nas margens plácidas do Rio Itiberê, em plena Paranaguá.

Previamente acordados Seu Mito vai ao banco receber sua “polpuda” aposentadoria do INSS, enquanto Figueirinha permanece de atalaia nas imediações.

E no banco aconteceu o maior salseiro dos tempos atuais.

Seu Mito trajava bermuda cinza, camisa branca, boné verde, cobrindo seus exuberantes fios de cabelos tão brancos como desarumados, além da barba que tanto pode caracterizar o bom professor, como um estranho saído de uma aventura na selva. A mochila camuflada, pendurada no peito, ensejava grande suspeita. E não deu outra. Tão logo adentrou ao banco, uma senhorinha grita: CUIDADO HOMEM BOMBA!

Todo o pelotão da segurança, mais a galera insana, atacam e imobilizam o inofensivo ancião. O esquadrão anti-bombas é acionado. Viaturas brancas, azuis, vermelhas, amarelas cercam o prédio. Lá dentro, o soldado paramentado, cuidadosamente retira a mochila do peito do Seu Mito abrindo-a em busca dos explosivos. Para surpresa geral encontra uma camiseta, uma cueca, um rolo de papel higiênico e um tubo de desodorante spray e seus documentos.

Ao desvencilhar-se dos algozes aciona Figueirinha pelo celular que chegou distribuindo cacetadas pra todos os lados. Finalmente contidos, já que Seu Mito, irado, também partiu pra briga, são acomodados na sala da gerência, onde um comovente pedido de desculpas acalma a dupla.

Refeitos, aposentadoria recebida, retornam à embarcação. Já próximos Seu Mito dá sinais de necessidades fisiológicas. Figueirinha vai dizendo: faz aqui do lado do barco. Não consigo na frente dos outros. Então vai ali no bar da frente.

Moço posso usar o banheiro? . . .Só se comprar alguma coisa. Mas eu pago moço, tô apertado. Só se comprar alguma coisa. Então me venda duas garrafas de água. . . E não deu mais tempo!

Mesmo injuriado e molhado pagou pelas águas e voltou ao barco.

Ambos a bordo iniciam o regresso, depois de um dia de “atrocidades”. Restava saber, ainda, se o poderoso não iria engasgar, mas que nada, garantiu a sua parte. Como que num gesto de rebeldia, num tranco só, em uma hora e quarenta minutos, o Perequê rasgou as águas do Itiberê e da majestosa baia trazendo os históricos aventureiros de volta a seus lares em Pontal.

Té mais!

P.S. o Dedo de Prosa é fruto do imaginário. Qualquer semelhança com a realidade será pura imaginação.

Alfredo de Pontal

Autor & Editor

O portal Águas de Pontal abre as cortinas para mostrar o grande espetáculo da vida proporcionado pela Mãe Natureza e seus atores: o ser humano íntegro voltado à reconstrução.

 

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