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23 de mar de 2017

CEMA aprova criação de Câmara Técnica para propor ações contra as mudanças climáticas

Conselho Estadual de Meio Ambiente do Paraná irá debater e propor a regulamentação da Lei 18.947/2016 que proíbe os testes sísmicos e operações de fracking no Paraná por 10 anos.


Plenário cheio na 97ª Reunião do Conselho Estadual de Meio Ambiente.

O ano de 2016 foi o mais quente da história. Os efeitos do aquecimento da temperatura global têm sido cada vez mais sentidos e estão mais visíveis a olhos nus. No Brasil, a população vivenciou extremos: De secas severas e ondas de calor intenso a enchentes, tempestades, alagamentos e chuvas de granizo. Verões fora de época e invernos atípicos. Está cada vez mais difícil negar a existência das mudanças climáticas e sua relação intrínseca com as atividades humanas. Precisamos estar preparados.

Nesse sentido, os integrantes do Conselho Estadual de Meio Ambiente (CEMA) acataram a proposição do conselheiro Juliano Bueno de Araujo, da Fundação Vida para Todos, para que o Estado do Paraná seja o primeiro a debater no âmbito do conselho políticas públicas para evitar os riscos e mitigar os impactos das alterações radicais do clima causadas pelo aquecimento global. Na 97ª reunião realizada no começo do mês foi aprovada a constituição de uma Câmara Técnica para tratar das mudanças climáticas.

“Não podemos mais ignorar que os impactos das mudanças climáticas são uma realidade e que nós já estamos vivenciando destruições e catástrofes que poderiam ser evitadas”, justificou Juliano, que também é coordenador de Campanhas Climáticas da 350.org e da COESUS – Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida.

Para Juliano, “as cidades brasileiras e da América do Sul estão despreparadas para os desastres naturais, potencializados pelos extremos climáticos. Temos que antever soluções junto à especialistas para balizar ações dos governos para evitar morte e mais destruição”.

As Câmaras Técnicas ou Temáticas são a instância de construção do que for proposto pelos conselheiros em plenário. São reunidas pessoas e instituições que entendam de determinado assunto e podem até chamar especialistas a participar das reuniões e debates quando necessário. Todo o processo ou questionamento que tiver a ver com o tema será por ela debatido e esmiuçado para chegar ao plenário com propostas de solução. Essa solução pode ser a minuta de uma resolução, ou moção ou recomendação. Dependendo do assunto, pode passar por mais de uma Câmara Técnica antes de ir a debate e votação no Plenário.

Com o fim do verão, novos recordes de temperatura foram registrados em todo o país, agravando as secas e modificando o regime de chuvas. “As mudanças climáticas irão promover alterações profundas na produção de alimentos, nas políticas públicas de saúde da população e de infraestrutura e nos critérios para o abastecimento hídrico. Teremos que nos adaptar a essa nova realidade e promover uma série de medidas para diminuir os impactos”, alerta Juliano.



Não ao fracking, sim para as renováveis

Uma das saídas para conter o agravamento do aquecimento global, em grande parte intensificado pela exploração e queima dos combustíveis fósseis – carvão, petróleo e gás, é promover investimentos na geração de energias renováveis.

“A exploração dos hidrocarbonetos, especialmente pelo método não convencional conhecido como fraturamento hidráulico, ou fracking, deve ser banida de nosso país, que tem grande potencial para as energias renováveis como solar, eólica e de biomassa”, garante Nicole Figueiredo do Oliveira, diretora da350.org Brasil e América Latina. A 350.org é um movimento global que denuncia as mudanças climáticas e defende o desinvestimento em projetos fósseis. No Brasil, a entidade coordena a campanha nacional contra o fracking, assim, como em vários países na América Latina.

O Paraná foi o primeiro estado brasileiro a aprovar uma legislação estadual que suspende por 10 anos a exploração do gás do folhelho de xisto, bem como as pesquisas, por entender que os impactos do fracking seriam devastadores para o ambiente, para a economia e para a saúde das pessoas e animais. Não bastasse os severos e irreversíveis impactos, o fracking também provoca terremotos, mesmo na fase de pesquisa, e intensifica as mudanças climáticas já que o metano liberado é 86 vezes mais danoso à atmosfera que o dióxido de carbono.

Em paralelo, a campanha contra o fraturamento hidráulico mobiliza e atua junto às cidades no sentido de aprovar uma legislação municipal que proíba definitivamente a exploração desse gás. “Desde 2013, mais de 280 municípios já disseram não ao fracking para proteger os aquíferos, o solo fértil e saúde humana, mandando um recado claro à indústria que o Brasil não será o paraíso dos combustíveis fósseis”, completa Nicole.

Além de aprovar a constituição de uma Câmara Técnica para tratar das mudanças climáticas, Juliano Bueno de Araujo também propôs e teve aprovadas moções para parabenizar a Assembleia Legislativa do Paraná e governador Beto Richa pela aprovação e sanção da Lei 18.947/2106 que suspende por 10 anos o licenciamento para operações de fracking, exaltando a importância do veto ao artigo 3º que permitia a pesquisa e que foi mantido pelos parlamentares. Também foi aprovada uma moção a todas às Câmaras Municipais de Vereadores das cidades que aprovaram o projeto de lei sugerido pela COESUS e parceiros para banir definitivamente a exploração do gás de xisto.



Em maio, a 350.org realiza a Mobilização Global pelo Desinvestimento (Global Divestment Mobilisation – GDM) que promoverá no Brasil diversas ações para chamar atenção para os riscos e impactos das mudanças climáticas. Descubra mais sobre o que é o desinvestimento de combustíveis fósseis e o seu potencial para frear o caos climático em: http://gofossilfree.org/brasil




Por Silvia Calciolari

Foto: COESUS/350Brasil
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Telhados Brancos e Telhados Verdes



Um dos grandes desafios da perspectiva de inclusão integral dos parâmetros de sustentabilidade na construção civil envolve a discussão sobre o uso de coberturas. Recobrimentos vegetais, que até já são obrigatórios em alguns raros sítios, e telhados brancos, que por sua refletividade da luz solar podem contribuir para diminuição da absorção do calor do sol, maior conforto térmico e melhores condições de sustentabilidade pela redução de consumo de energia para movimentar aparelhos de ar-condicionado.

Investigações comprovam que pintar telhados de coloração branca, segundo site da organização “Green Building Council” reduzem de 40% a 70% a temperatura registrada nos ambientes, atenuando em índices superiores a 90%, a incidência de raios “ultra-violetas”, refletindo e mitigando em mais de 80% o total de incidência de raios solares. A economia de energia elétrica em utilização de ar-condicionado e outros equipamentos, é estimada em cerca de 30% do volume total da edificação beneficiada por esta ação.

Site denominado “SustentArqui” registra que a campanha para combater o aquecimento global e incentivar a adoção de coberturas e telhados brancos, foi lançada em 2009, a partir da campanha denominada “um grau a menos” (“one degree less”) da organização não governamental “Green Building Council”, entidade sem fins lucrativos, engajada na disseminação de técnicas que auxiliem a implantação de sustentabilidade na construção civil. Informações do site ainda registram que o estado americano da Califórnia, normatizou em diploma legal, a obrigatoriedade de que prédios comerciais tenham coberturas pintadas de branco.

Os argumentos sobre as virtudes da implantação da medida são a diminuição das “ilhas” de calor, denominação atribuída ao fenômeno climático urbano, em cidades com densidade construtiva muito elevada, onde as temperaturas aumentam de 1 a 6 graus em comparação com áreas urbanas mais rarefeitas, ou áreas rurais.

Outro fator enumerado é a redução da emissão de gás carbônico. CO2 é a representação química deste gás, também conhecido por dióxido de carbono ou gás carbônico e que é um dos principais causadores do chamado “efeito estufa”, que resulta nos processos de aquecimento global. Este gás é grandemente gerado através da queima de combustíveis fósseis, muito utilizados na geração de energia, atividades de transporte e de calefação doméstica ou corporativa.

Mas a principal evidenciação ainda é a redução do consumo de energia gerada pela manutenção de temperaturas ambientais mais baixas. Dados indicam que as reduções energéticas para resfriamento dos ambientes se situam entre 20% a 70%. São utilizados em menor escala aparelhos de ar condicionado ou ventiladores. A coloração branca reflete a radiação solar, reduzindo a absorção de calor, e ao contrário, quanto mais escura for a tinta, mais a superfície absorve os raios solares e mais quente o ambiente fica.

O uso de telhados e coberturas brancas é fácil, e logo após a aplicação pode sentir o efeito da diferença de temperatura. As tintas específicas impermeabilizam e fazem também a proteção dos telhados, evitando assim a proliferação de fungos. Normalmente a manutenção é aplicada a cada período de 5 anos.

A alternativa aos telhados brancos e que precede há bastante tempo estas ações, são os telhados verdes, ou seja, a implantação de coberturas com gramíneas ou jardins. A grande adversidade que causam é a necessidade de muito boa impermeabilização das coberturas onde deverão ser implantadas as coberturas verdes.

Mas também existem grandes vantagens registradas. Os jardins suspensos são muito antigos na história da humanidade, desde os jardins suspensos da Babilônia. Já foram também muito utilizados na arquitetura moderna. Segundo o arquiteto, paisagista e urbanista Burle Marx, o uso de coberturas verdes registra muitas vantagens.

Telhados verdes diminuem a poluição atmosférica e melhoram a qualidade do ar nos agrupamentos urbanos. A vegetação absorve as substâncias tóxicas e libera oxigênio na atmosfera. Os processos de fotossíntese respondem por boa parte disto. A absorção da energia da luz solar pelas plantas, também impede a formação de ilhas de calor. Desta forma, inclusive o isolamento térmico de todo o conjunto da edificação é favorecido, protegendo contra altas temperaturas no verão e ajudando a manter a temperatura interna nos períodos de inverno.

Todo o conjunto de isolamento acústico da edificação é incrementado. Vegetação absorve e isola ruídos em geral. Ocorre maior retenção de águas decorrentes de precipitações pluviométricas. Vegetação auxilia não drenagem das águas da chuva, reduzindo a demanda por escoamento em sistemas próprios ou associados a coleta de esgotos e ainda favorecendo a filtragem física das águas. Desta forma contribui para os controles de enchentes em áreas urbanas. Na medida em que, ocorre a retenção de parte da água da chuva, diminui as demandas de esgotamento urbano.

Telhados verdes auxiliam no controle global das temperaturas, tanto internas quanto externas. Assim, como os telhados brancos auxiliam na redução da demanda energética. Por último, não pode ser negligenciada a atração de pássaros, borboletas e outros entes representantes da biodiversidade. Por último, telhados verdes embelezam a paisagem das cidades.

Telhados verdes parecem ser uma solução mais completa, para o conjunto de demandas verificadas por construções sustentáveis. Mas não se pode negligenciar telhados brancos que atuam na principal demanda ambiental que se identifica, ao reduzirem as necessidades energéticas. E apresentam menores e mais simples necessidades de manutenção.



Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.
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Operação ‘Carne Fria’ do Ibama autua JBS, mas governo federal tenta abafar


Dentre os frigoríficos autuados na operação "Carne Fria", estavam as unidades de Redenção e Santana do Araguaia, no Pará, pertencentes à JBS. Foto: Marcio Isensee e Sá


Por coincidência, e mais azar do governo de Michel Temer, em pleno turbilhão da operação Carne Fraca, o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) deflagrou na última 2ª f, 20/3eira, outra operação que atinge gravemente a indústria da carne no país, inclusive a JBS, a maior empresa dmarcao ramo, dona das s Friboi, Seara e Swift.Ninguém combinou, mas o Ibama chamou a sua operação de Carne Fria. Nessa ação, autuou 14 frigoríficos no Pará, Bahia e Tocantins que compraram 58 mil cabeças de gado, produzidas em 26 fazendas com áreas embargadas pelo Ibama por desmatamento ilegal na Amazônia.

Dentre os frigoríficos, estavam as unidades de Redenção e Santana do Araguaia, no Pará, pertencentes à JBS.

Feitas as autuações, o Ibama estava pronto para divulgar o sucesso da talvez mais técnica operação que já realizou, e uma das mais bem-sucedidas em flagrar grandes infratores.

Isso não aconteceu, porque, em seguida, e de Brasília, o governo começou uma operação para tentar abafar a divulgação em nível nacional – vários sites de notícias regionais já publicaram notas a respeito. Segundo apurou ((o))eco, Suely Araújo, presidente do Ibama, ensaiou duas vezes convocar uma coletiva de imprensa, mas acabou não indo em frente. A mais formal delas aconteceria nesta 6a feira, 24/3, em Belém do Pará, e seria feita em conjunto com o Ministério Público Federal, que apoiou a operação.

A reviravolta ocorreu porque nem mesmo o Ministério do Meio Ambiente (MMA) estava bem informado sobre a Carne Fria. Quando o Planalto tomou conhecimento do que estava acontecendo foi cobrar satisfações do Ibama pelo novo desastre de comunicação e tentar adiar a operação ou pelo menos sua publicidade. Tarde demais. A tentativa de conter danos não funcionou porque o Ibama havia avisado sobre a ação a repórteres da Rede Globo e Repórter Brasil.

No meio do inferno astral da Carne Fraca, da Polícia Federal, a Carne Fria, do Ibama, é um repique do desgaste que o governo e a indústria estão passando. E dessa vez, por uma razão muito mais difícil de consertar: destruição de bioma. A operação torna público que pelo menos uma grande exportadora de carne brasileira está comprando animais criados em áreas de desmate ilegal. E áreas de pasto para gado representam cerca de 60% do desmatamento acumulado na Amazônia.

É mais fácil tirar um lote de carne estragada do supermercado do que regenerar partes destruídas da floresta mais famosa do planeta. As unidades da JBS de Redenção e Santana foram autuadas pelo crime ambiental de "adquirir produto de área embargada", o que significa, no caso, área desmatada fora da lei.

Um ano de preparação

A Carne Fria começou a ser planejada há cerca de um ano, em 2016. Em vez de fiscalização em campo, a operação usou um esforço de inteligência para pegar os infratores. A sua primeira etapa ocorreu em janeiro de 2016, quando o Ibama notificou os frigoríficos a entregar ao instituto os documentos que mostram a procedência do gado que adquirem.

O documento mais importante para a investigação foi o chamado GTA (Guia de Trânsito Animal), usado para controle sanitário, em especial da febre aftosa. De posse do GTA é possível saber qual o percurso do gado, das fazendas que criam e as que engordam até chegar à porta do frigorífico. Os dados dos frigoríficos foram comparados com os fornecidos pela Adepará (Agência Estadual de Defesa Agropecuária do Estado do Pará). Por sua vez, a Adepará só forneceu esses dados depois de pressionada pelo Ibama e pelo Ministério Público. Uma vez de posse dos dados da indústria e da agência fiscalizadora, o cruzamento apontou os infratores.

Uma consequência da operação do Ibama, segundo apurou ((o))eco, foi a queda do superintendente interino do instituto no Pará, Luiz Paulo Printes, um dos responsáveis por preparar a Carne Fria. Ele foi destituído do cargo na manhã desta 4a feira, 22/3.

Agora, além de fraca, a carne é fria e envolve crime ambiental: mais desmatamento na Amazônia.


Outro lado: Ibama

Procurado, o Ibama negou ter havido cancelamento de entrevistas a respeito da Carne Fria. Afirma que a operação ainda durará cerca de 15 dias e que divulgará nota com informações oficiais. Os resultados ainda seriam parciais.

Outro lado: JBS

Procurada, a empresa negou ter comprado de fornecedores irregulares. Eis a íntegra da nota enviada:

A JBS esclarece que não comprou animais de áreas embargadas pelo Ibama e vem cumprindo integralmente o TAC assinado com o Ministério Público Federal.

Para garantir a origem responsável de sua matéria-prima, a JBS:

seleciona 100% dos fornecedores com base em critérios socioambientais;

não adquire animais de fazendas envolvidas com desmatamento de florestas nativas, invasões de terras indígenas ou de conservação ambiental e que estejam embargadas pelo Ibama. As informações de movimentação dos animais entre fazendas são registradas na Guia de Trânsito Animal (GTA) responsabilidade dos órgãos governamentais;

mantém processo sistêmico de bloqueio de fornecedores que mantenham qualquer relação com violência no campo e conflitos agrários ou que façam uso de trabalho análogo ao escravo ou infantil.

Adicionalmente, e com o objetivo de identificar e bloquear fornecedores irregulares, a JBS realiza, diariamente, o download de todas as informações contidas na lista de áreas embargadas pelo Ibama e da “lista suja do trabalho escravo” do Ministério do Trabalho (na ausência da publicação da lista do MTE, utilizamos a lista publicada pelo Instituto pela Erradicação do Trabalho Escravo – InPacto), para confrontação dos CPFs/CNPJs contidos nas listas públicas com o cadastro de fornecedores de gado da companhia.

Outro lado: Ministério da Agricultura

O Ministério da Agricultura informou, por meio de sua assessoria de comunicação, não ter conhecimento da operação Carne Fria.


Essa matéria foi atualizada às 2h14 de 23/03/2017

Fonte: http://www.oeco.org.br
notícias

Agro só é tudo, quando a carne é fraca



Não é de hoje que os esforços voltados à conservação da natureza no Brasil sofrem com pressões impostas pelo agronegócio. A enorme capacidade de influência exercida por esse setor é sentida no Congresso Nacional e na maioria das Assembleias Legislativas estaduais. O que acaba se refletindo pesadamente nos executivos, no âmbito federal e estadual.

É exemplar a mudança da legislação ocorrida em 2012, depois de alguns anos de muita polêmica. Deputados Federais e Senadores permitiram mudanças profundas no Código Florestal Brasileiro, com ajustes moldados à vontade dos ruralistas. Essas mudanças implicaram numa diminuição drástica de áreas naturais a serem mantidas na forma de Reservas Legais e Áreas de Preservação Permanente, além de permitir um conjunto de ajustes permissivos e contrários às normas técnicas que deveriam ser consideradas.

Não bastaram as posições de instituições científicas como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e outras, demonstrando o equívoco proposital que estava sendo cometido, em prejuízo de toda a sociedade brasileira. Tampouco foram ouvidas as pesquisas que indicaram, à época, que 87% dos brasileiros eram contrários às mudanças mais profundas do Código Florestal. Liderados especialmente por políticos do Paraná e de Santa Catarina, essas alterações foram aprovadas com folga no Congresso Nacional.

A força e a influência política do ruralismo mostram-se tão intensos, que os próprios órgãos ambientais que têm a responsabilidade de atuar de maneira isenta para estabelecer condições mínimas de controle sobre excessos que degradam o Patrimônio Natural do Brasil, são hoje coibidos de atuar com a sua plenitude e sofrem um processo de desestruturação e intervenções veladas. Tal situação parece afetar igualmente a isenção e correção dos setores governamentais mais diretamente ligados ao agronegócio.

No Paraná, é de conhecimento público o domínio ruralista presente na atual gestão estadual, tanto no que se refere ao Legislativo como no Executivo. O Batalhão de Polícia Ambiental do Paraná (BPAmb), não pôde atuar em sua plenitude ao longo dos últimos seis anos por uma artimanha política que definiu que a fiscalização sobre caça e supressão de vegetação nativa não é uma prioridade. E teve como propalador dessa máxima, o próprio Governador Beto Richa, em inúmeras aparições em público.

A atual gestão do desestruturado Instituto Ambiental do Paraná (IAP) tem um íntimo atrelamento às vontades da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (FAEP), uma instituição privada que influencia e assina os produtos que deveriam ser de responsabilidade única dos órgãos ambientais. Em especial o Código Florestal do Paraná e sua regulamentação foram desenvolvidos dentro da FAEP, com integralidade endossada pelo Governo do Estado e pela Assembleia Legislativa do Paraná. Uma relação de promiscuidade e de intervenção direta na gestão pública que nunca poderia ser admitida.

Recentemente, esta mesma Assembleia surge com uma proposta intempestiva e sem qualquer tipo de argumento plausível, que implica em diminuir em dois terços a Área de Proteção Ambiental da Escarpa Devoniana, entre o primeiro e o segundo planaltos do Paraná. Para seguir com esse intento, o próprio IAP busca a orientação da Fundação ABC, entidade privada mantida 100% por grupos ligados ao agronegócio. Mesmo sem conseguir aportar argumentos factíveis, a proposta de impor essa agressão ao povo paranaense tem por lastro o próprio Governo Estadual.

A intensa atuação do ruralismo coibindo e estrangulando a agenda de conservação da natureza no Brasil é um fato. Como em outros exemplos que se sucedem no dia-a-dia, o excesso de poder e influência, concentrado em grupos setoriais, tem representado um risco importante para a sociedade brasileira, que se depara com situações de enorme constrangimento. Vivemos uma condição de permissividade que extrapola limites. E são muitos os exemplos que apontam para pesados prejuízos econômicos justamente em setores que amplificam sua influência de maneira excessiva e inadequada.

A incontestável relevância social e econômica do agronegócio é muito maior do que situações pontuais que possam advir de excessos e ilicitudes observadas em todos os ramos de atividades. O Brasil não pode abrir mão de preservar o patrimônio que representa a agropecuária e a agroindústria, um dos principais alicerces de nossa economia. No entanto, para manter essa pujança, as relações entre grupos setoriais e governos não pode se manter na condição de promiscuidade que hoje se apresenta.

A despeito de todo o poder político e financeiro de que disponha, para o próprio bem e segurança do agronegócio, deve haver mais respeito ao limite ético e legal que separa a gestão pública dos interesses setoriais. Afinal de contas, não se trata de novidade o fato de que, quando o domínio é demasiado, a carne é fraca.

Clóvis Borges, diretor-executivo da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental e Gilson Burigo Guimarães, geólogo e docente do Departamento de Geociências da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).

Fonte: http://www.envolverde.com.br
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22 de mar de 2017

17 curiosidades sobre a água que você talvez não saiba

A água é essencial para que haja vida.


A água é essencial para que haja vida. | Foto: iStock Photo

A água é essencial para que haja vida. Ela está presente em cada célula do corpo humano e é necessária para a produção de alimentos e qualquer tipo de bem de consumo. Nesta quarta-feira (22) é comemorado o Dia Mundial da Água, para celebrar esta data, o CicloVivo separou uma lista com 17 curiosidades sobre este recurso que podem mudar a forma como você enxerga este recurso:

1. O corpo humano de um adulto possui até 65% de água em sua composição. Em um recém-nascido o número é ainda maior: 78%.

2. O planeta Terra também é conhecido como o Planeta Água. A justificativa para o nome deve-se ao fato de que 70,9% de sua superfície é coberta por água.


3. Apenas 3% da água do mundo é doce. Deste total, 70% está na forma de gelo ou no solo.

4. 12% da água doce do mundo está no Brasil. O país é privilegiado por seus aquíferos, que armazenam a água no solo.

5. O Aquífero Guarani é o maior do mundo. Ele se estende por uma área média de 1,2 milhão de km2 e reserva, aproximadamente, 45 mil quilômetros cúbicos de água.


Pantanal | Foto: iStock by Getty Images

6. Existe mais água na atmosfera do que em todos os rios do mundo juntos.

7. De acordo com a ONU, existem 783 milhões de pessoas no mundo que vivem sem água potável. Em 2025 esse número pode chegar a 1,8 bilhão.

8. Na América Latina são 36 milhões de pessoas sem acesso à água de boa qualidade.



Comunidade com rio poluido no Rio de Janeiro | Foto: iStock by Getty Images

9. Enquanto nos EUA as pessoas gastam, em média, 370 litros de água por dia, os africanos usam de sete a dezenove litros.

10. Por não terem acesso à estrutura de saneamento básico, mulheres e crianças na África Subsaariana perdem até seis horas do dia caminhando longas distâncias para encher baldes de água. Em apenas um dia, a soma dessas viagens cobriria a distância de ida e volta à Lua.


Família buscando água com baldes na zona rural do sul da África. | Foto: iStock @brunoat

11. Em média, 2/3 da água do mundo é usada para a produção de alimentos, em especial à agricultura e pecuária.

12. Nos EUA, 26% da água usada nas residências é gasta apenas em descargas.
13. Uma torneira que goteja a cada segundo pode vazar três mil litros em um ano.




14. Em São Paulo, os vazamentos nas redes de distribuição geram desperdício de 980 bilhões de litros de água por ano, em média, 30% da água tratada no município. Em Nova York são perdidos 13 trilhões.

15. Para fazer uma calça jeans são necessários, aproximadamente, dez mil litros de água.

16. Para produzir um quilo de manteiga são necessários 18 mil litros de água e para um quilo de
carne gasta-se 15.400 litros.

17. Um banho de 15 minutos, com o registro meio aberto, consome 135 litros de água. Uma mangueira aberta pelo mesmo tempo pode desperdiçar até 280 litros.


Diante destes fatos, é impossível não valorizar a água que chega até a sua casa. Faça sua parte, economize cada gota!

Redação CicloVivo
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O risco do excesso do consumo de refrigerantes à base de cola

Estudo revela outros males que a bebida pode provocar: problema muscular e cardíaco





Seu filho tem hábito de tomar refrigerante todos os dias? Atenção. Além de problemas nos dentes, obesidade e diabetes provocados pelo consumo excessivo da bebida, um estudo agora sugere que as bebidas à base de cola também podem trazer comprometimento muscular.

Uma investigação realizada pela Universidade de Ioannina, na Grécia, analisou pacientes que tomaram de dois a nove litros de refrigerante de cola por dia, e o resultado sugeriu que o consumo excessivo pode levar a hipocalemia - queda nos níveis de potássio no sangue. Segundo os cientistas, isso pode ocasionar sintomas de fraqueza muscular leve à profunda, como paralisia. Os vilões seriam três dos ingredientes na bebida: glicose, frutose e cafeína.

Um dos pesquisados, uma grávida de 21 anos, que consumia até três litros da bebida por dia, queixou-se de fadiga, perda de apetite e tinha vômitos persistentes. A análise mostrou que, além dos baixos níveis de potássio, ela apresentava bloqueio no coração.

Embora todos os avaliados apresentaram uma melhora rápida e total após parar de tomar a bebida e serem medicados, os pesquisadores alertam que a hipocalemia crônica leva a problemas mais sérios, como alteração nos batimentos. Segundo Moisés Elisaf, autor do estudo, fadiga e perda de produtividade são outros sinais do excesso de cola.

Para Celso Cukier, nutrólogo do Hospital São Luiz (SP), a quantidade exagerada do consumo de refrigerante é um erro alimentar que, em geral, ocorre na família. “O aumento do consumo se dá com o hábito. A criança que se acostumou a tomar refrigerante desde pequena aos poucos nem se dá conta do volume que ingere”, diz.

E é claro que o que faz mal é o excesso, e não um copinho que o seu filho toma na festa de aniversário do colega. “A saúde alimentar começa em casa. É preciso educar, alertar e limitar as crianças”, afirma Cukier.

O especialista ressalta ainda que principalmente quando as crianças são pequenas, o risco é ainda maior. “Os pais submetem o filho a substâncias químicas sem saber o potencial alergeno delas. Não há justificativa para dar refrigerante”, afirma. Aquele suco de fruta feito na hora é sempre a melhor pedida para a criançada.

Fonte: http://revistacrescer.globo.com
destaques saúde

Estudo sugere que pessoas que comem mais laticínios são mais magras e têm colesterol mais baixo

Um novo estudo realizado por pesquisadores na Irlanda trouxe boas notícias para os amantes de laticinios.



Em ensaios realizados com 1.500 pessoas, eles descobriram que pessoas que comiam mais desse tipo de alimento apresentavam menores percentuais de gordura corporal e IMC. A pesquisa, realizada pela Universidade de Dublin, embora surpreendente, uma vez que aprendemos que produtos lácteos são ricos em gorduras saturadas e devem ser evitados por que aumentam o colesterol (LDL) e consequentemente o risco de doenças cardíacas, de fato sugere que queijo, manteiga e nata não podem ser culpados.



“O que vimos foi que os consumidores mais frequentes [de laticínios] tinham uma ingestão significativamente maior de gordura saturada do que os não consumidores e os consumidores mais reduzidos, mas não havia diferença em seus níveis de colesterol LDL”, disse a pesquisadora Emma Feeney.



O estudo analisou 1.500 pessoas na Irlanda com idades entre 18 e 90 anos. Por um período de quatro dias, os pesquisadores observaram os níveis de ingestão de laticínios, que tipo de laticínios estavam consumindo e se eram de baixo ou alto teor de gordura. Os maiores consumidores, após serem controlados por ingestão calórica, sexo, idade, classe social e tabagismo, tinham apresentado menores números de IMC, percentual de gordura corporal, menores cinturas e maior sensibilidade à insulina em comparação aos menores consumidores de laticínios.



Os pesquisadores observaram também que até mesmo os que haviam consumido mais iogurte e leites magros tinham menores índices de gordura corporal, enquanto que os maiores consumidores de queijo não apresentaram diferenças nos marcadores de saúde metabólica. Ainda, os ensaios mostraram que o colesterol total era menor no grupo de consumidores de queijo, manteiga e creme do que nos consumidores de leite magro e iogurte. Isso significa que os que consomem produtos lácteos de baixas de gorduras tinham índices mais elevados de colesterol.

Fonte: http://www.jornalciencia.com
saúde

21 de mar de 2017

Ambev lança água e reverte 100% do lucro para o semiárido brasileiro

O novo produto social dará acesso à água potável à população da região.


Graças ao produto, três cidades no interior do Ceará começam a receber água potável nesta quarta (22), Dia Mundial da Água. | Foto: Divulgação/Ambev

A Ambev acaba de lançar seu mais novo produto: a água mineral AMA, uma grande inovação no mercado de bebidas nacional. Isso porque 100% do lucro das garrafas de água vendidas serão revertidos a projetos de acesso à água potável no semiárido brasileiro. A AMA já está à venda nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro e online pelo Emporio.com. Até o fim do ano, chegará em todo o país.

“Estamos muito felizes de lançar a AMA. Essa é uma inovação única no mercado brasileiro porque, quando alguém compra uma garrafa de AMA, 100% do lucro vai para projetos que ajudam quem mais precisa de água”, destaca Bernardo Paiva, presidente da Ambev. “A AMA é a tradução perfeita do nosso sonho grande, de unir as pessoas por um mundo melhor ”, completa Bernardo.

Três comunidades, que reúnem juntas cerca de 3 mil pessoas no interior do Ceará, estado que atualmente mais sofre com a seca no Brasil, vão inaugurar projetos de acesso à água potável na quarta-feira, Dia Mundial da Água. As comunidades ficam nas cidades de Aiuaba, Jaguaruana e Capistrano. Todas elas se localizam em áreas rurais de grave escassez hídrica.



Os projetos receberam investimentos da AMA para dar andamento a iniciativas locais de abastecimento. A verba investida pela cervejaria viabilizou obras para a perfuração de poços de água e a instalação de micro usinas de energia solar que diminuem consideravelmente o custo de distribuição da água. Depois que os projetos forem inaugurados, eles serão geridos pela própria comunidade.

O parceiro local da Ambev, responsável por administrar a maioria dos sistemas de água rurais do Ceará e que coloca em prática os projetos nas três comunidades, é o SISAR – Sistema Integrado de Saneamento Rural. Equipes técnicas formadas por especialistas em recursos hídricos e assistentes sociais dão a essas comunidades todo o suporte necessário para que as iniciativas se desenvolvam de forma sustentável. O trabalho é reconhecido pelo Banco Mundial como um dos melhores sistemas de gestão de água rural existentes.

Com o apoio da Fundación Avina, ONG que trabalha em prol do desenvolvimento sustentável na América Latina, a Ambev pretende ampliar o programa de apoio para todo o semiárido brasileiro.



A história da AMA

A AMA começou a nascer no fim de 2015, quando o time de sustentabilidade da Ambev deu início à busca por um novo projeto para expandir seus programas de preservação e uso consciente de água. Depois de reunir diversas áreas da empresa e fazer uma parceria com o Yunus Corporate Action Tank, promovido pela Yunus Negócios Sociais, que estimula as empresas a pensarem em negócios que já nascem para resolver um problema social, surgiu a ideia de criar uma água engarrafada que tivesse 100% dos lucros investidos no acesso à água potável.

Com o lançamento da AMA, a cervejaria contribui para que o sexto Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU seja concretizado: garantir disponibilidade e manejo sustentável da água e saneamento para todos. A Ambev faz ainda parte do CEO Water Mandate, que reúne empresas comprometidas com o problema da escassez de água e da falta de saneamento em todo o mundo.

“A AMA não vai só financiar projetos que aumentem o acesso à água potável, mas vai, também, ser uma forma de conscientizar mais pessoas, de trazer atenção para esse problema, de conectar as pessoas que vivem hoje em um mundo tão polarizado e individualizado”, diz Renato Biava, diretor de sustentabilidade da Ambev.

De forma totalmente transparente, todas as etapas do projeto AMA são apresentados por meio de uma plataforma digital (veja aqui) com todas as informações do produto, prestação de contas periódicas sobre o lucro obtido com as vendas, investimentos e andamento de cada projeto.

Até o fim do ano, a AMA estará disponível nas redes varejistas de todo o país.

Fonte: http://ciclovivo.com.br
notícias

Corações mais saudáveis do mundo estão em povoado indígena da Bolívia, indica estudo


Pesquisa revela que nenhum tsimane tinha sinais de artérias entupidas

Os corações mais saudáveis do mundo são dos tsimane (ou chimane), um povo indígena que vive nas florestas no norte da Bolívia, revela um novo estudo.

Segundo a pesquisa, publicada na revista científica Lancet, praticamente nenhum tsimane tinha sinais de artérias entupidas ─ inclusive aqueles com idade avançada.

"É uma população incrível" com dietas e estilos de vida radicalmente diferentes, dizem os pesquisadores.


Os tsimane caçam a própria comida e comem o que plantam.

Os responsáveis pelo estudo afirmam que, apesar de o restante do mundo não poder fazer o mesmo, há lições a serem aprendidas.


Atualmente, população dos tsimane está estimada em 16 mil

Atualmente, a população dos tsimane está estimada em 16 mil. Eles caçam, pescam e cultivam alimentos ao longo do Rio raniqui, na floresta amazônica da Bolívia.
O estilo de vida deles guarda semelhanças com o da civilização humana de milhares de anos atrás.

O povoado isolado exigiu esforço dos cientistas, que tiveram de pegar vários voos e até uma canoa para chegar ao local.


Tsimane caçam, pescam e cultivam alimentos ao longo do rio Maniqui, na Amazônia

Como é a dieta tsimane - e no que ela difere da nossa?

- 17% da dieta dos tsimane é uma combinação de carnes de porco selvagem, anta e capivara;

- 7% é composta de peixes frescos, como piranha e bagre;

- O restante vem da agricultura, como arroz, milho, mandioca e banana da terra;

- Eles também consomem grandes quantidades de frutas silvestres e nozes.

Ou seja...

- 72% das calorias diárias dos tsimane vêm de carboidratos, comparado a 52% nos Estados Unidos;

- 14% vêm de gorduras, comparado com 34% nos Estados Unidos (eles também consomem muito menos gordura saturada);

- Tanto os tsimane quanto os americanos consomem o mesmo porcentual de proteínas (14%), mas o povo indígena come mais carne magra.

Atividade física

Os tsimane também são mais bem mais ativos - os homens dão 17 mil passos por dia, e as mulheres, 16 mil.

Até os maiores de 60 anos têm um desempenho bem acima do recomendado: 15 mil.

Especialistas aconselham que as pessoas deem pelo menos 10 mil passos diários para manter um estilo de vida saudável.

Quão saudável é o coração dos tsimane?

Para chegar às conclusões, os cientistas observaram o nível de cálcio nas artérias dos tsimane - que indica o sinal de entupimento dos vasos sanguíneos e o risco de parada cardíaca.

Eles examinaram o coração de 705 integrantes do povoado indígena por meio de tomografia computadorizada - e também receberam a ajuda de um grupo de pesquisa com experiência na análise de corpos mumificados.

Aos 45 anos, quase nenhum tsimane tinha CAC nas suas artérias, comparado a 25% dos americanos.

E quando atingiram a idade de 75 anos, dois terços dos tsimane não apresentavam nenhuma formação de cálcio no coração, comparado a 80% dos americanos.


Os tsimane têm um estilo de vida bastante ativo

Os pesquisadores vêm estudando o povo há muito tempo. Dessa forma, eliminaram a possibilidade de que os resultados do estudo pudessem ter sido afetados pela morte precoce de alguns dos integrantes da comunidade.

Um dos pesquisadores, Michael Gurven, professor de antropologia da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, disse à BBC que o nível de cálcio no coração dos tsimane "é muito menor do que em qualquer outra população do mundo para a qual existem dados".

"As mulheres japonesas são as que chegam mais perto (dos tsimane), mas mesmo assim há um oceano de distância", acrescentou.

Os tsimane também fumam menos, mas contraem mais infecções, o que potencialmente aumenta o risco de problemas cardíacos por causa da inflamação no corpo.

Os pesquisadores acreditam, contudo, que vermes intestinais - que atenuam as reações do sistema imunológico - podem ser mais comuns nos organismos dos integrantes do povo indígena, ajudando, assim, a proteger seus corações.

O que os tsimane podem nos ensinar?

"Diria que precisamos de uma abordagem mais holística em relação ao exercício físico do que simplesmente praticá-los no fim de semana", diz Gurven.
Para Gregory Thomas, do centro médico Long Beach Memorial na Califórnia, que também participou do estudo, "para manter a nossa saúde em dia, devemos nos exercitar muito mais do que nos exercitamos".


Nível de cálcio no coração dos tsimane é muito menor do que em qualquer outra população

"O mundo moderno está nos mantendo vivos, mas a urbanização e a especialização da força de trabalho podem ser novos fatores de risco (para o coração)", acrescentou o especialista.

"Os tsimane também vivem em pequenas comunidades, socializam bastante e mantêm uma perspectiva otimista para a vida", completou.

Reações

Gavin Sandercock, professor de fisiologia clínica na Universidade de Essex, no Reino Unido, que não participou do estudo, elogiou as descobertas da pesquisa.

"É uma excelente pesquisa com descobertas únicas", afirmou.

"Os tsiname obtêm 72% de sua energia dos carboidratos. E o fato de eles terem os melhores indicadores de saúde cardiovascular já registrados vai de encontro à suposição de que os carboidratos não são saudáveis."

Já o professor Naveed Sattar, da Universidade de Glasgow, disse se tratar de "um maravilhoso estudo da vida real que reafirma tudo o que entendemos sobre como prevenir doenças coronarianas".

"Em outras palavras, ter uma dieta saudável pobre em gorduras saturadas e repleta de produtos não processados, não fumar e ser ativo ao longo da vida está associado a um risco menor de entupimento de vasos sanguíneos", conclui.

As doenças cardiovasculares, como infarto e AVC, são a maior causa de mortes no Brasil - são mais de 700 paradas cardíacas por dia e 300 mil mortes por ano (um terço do total geral).

A alta freqüência do problema posiciona o Brasil entre os dez países com maior índice de mortes por doenças cardiovasculares.

Fonte: http://www.bbc.com/




saúde

A música que a Natureza precisa



Há 25 anos assisti a uma palestra do Dr. Kent Redford que me deu grande emoção. Primeiro, o teor e a forma criativa de expor o conteúdo por meio de metáforas com sensibilidade e coerência. Segundo, porque a ocasião do evento foi a fundação do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, do qual faço parte desde o início, tendo Kent como um de nossos Conselheiros por alguns anos. O evento foi em março de 1992 no auditório da ESALQ em Piracicaba.

Do que constava sua fala? Kent comparou a conservação da natureza e das áreas protegidas a Ulisses, na Grécia antiga, que reconhecendo sua vulnerabilidade como homem, já que não era deus, pediu para ser amarrado ao mastro de seu navio para não se deixar tentar pelo canto das sereias. Cabia a ele a responsabilidade de conduzir a embarcação com segurança ao seu destino e, tanto ele quanto sua equipe sabiam que passariam próximos a uma ilha onde viviam as sereias que seduziam por sua beleza e canto cheio de magia.

Os desafios da conservação têm sido marcados pela sedução de aparentes vantagens, hoje responsáveis pela destruição maciça da natureza, seja construção de estradas, exploração de minérios valiosos, plantio de um produto rentável em larga escala, criação de animais para o abate, ou qualquer outra atividade econômica, comuns mundo afora. As escolhas humanas vêm sobrepondo à conservação e o mundo natural encontra-se cada vez mais diminuto e menos protegido. Com isso, temos que ter mais e mais cuidados para não nos deixarmos seduzir pelo canto das sereias que se proliferam exponencialmente.

Precisamos nos lembrar que somos seres vivos integrantes de uma teia complexa de elementos que perfazem o sistema terrestre. Se nos deixarmos cair na tentação de abrirmos mão de nossos propósitos mais valiosos, dos quais a celebração da vida faz parte, cairemos no canto das sereias. Amarrem-nos, dizia Kent. Apertem mais e mais as cordas para que não avancemos nas áreas protegidas.

Precisamos proteger a natureza de nós mesmos e de nossas escolhas equivocadas, de modo a que a riqueza da vida permaneça tanto na terra quanto nas águas e no ar. O planeta nos proporcionou abundância de espécies, ecossistemas, biomas que merecem a chance de continuar sua trajetória evolutiva, com os mares salvaguardados, os rios com águas límpidas e cheios de vida, e tudo o mais que herdamos nessa nossa breve passagem por aqui. A cada tentação, amarrem-nos mais fortes e nos tirem as vendas da cegueira da ganância.

Mais recentemente, li sobre outro personagem do mundo mitológico, e achei que valia ser relembrado: Orpheu. Ao tocar sua lira, tamanha era a perfeição do som que produzia que a todos encantava. O mal e o bem se estarreciam diante de tanta beleza. Até as árvores se curvavam ao som de sua música mágica. Orfeu apaixonou-se perdidamente e perdeu seu amor cedo. Foi às profundezas sombrias tentando resgatá-la, e até lá encantou a todos que encontrou, e por isso não foi contagiado pelo mal. Acabou por perder seu amor para sempre, mas ficou a magia de sua música e sua lira se tornou uma constelação da via láctea.

O que Orfeu tem a ver com conservação? Como educadora ambiental, busco formas de encantar as pessoas com as belezas naturais que estão por toda parte. Estão dentro e fora de nós. Estão ao redor e nas alturas, no sistema cósmico a que pertencemos. Todo a intrincada teia de vida da qual dependemos e fazemos parte é de imensa beleza, sutil, delicada e por vezes agressiva, mas sempre em harmonia com um propósito maior, e por isso merecedora de nossa reverência e maravilhamento. Precisamos encontrar liras que sonorizem nuances de tons que sejam tão bem tocados que nos afastem das tentações de abrir mão do que realmente vale a pena. E no caminho que percorrermos, é fundamental que contagiemos a todos com esse sentimento de êxtase que a natureza é capaz de nos despertar.

Que o IPÊ e todos que buscam proteger a natureza encontrem liras à altura de Orfeu, suficientes para cumprir nosso papel de dar exemplo de que é possível viver sem destruir. É possível proteger e ajudar àqueles que desejam novos modelos de desenvolvimento integrado à vida. Nossa felicidade muito depende desse novo pensar e que nossos caminhos sejam banhados de músicas inspiradoras e não de cantos de sereias tentadoras.

Por Suzana Padua - http://www.oeco.org.br/
destaques

O que é o 'El Niño costeiro' e por que ele pode indicar um fenômeno global

Desde o fim de janeiro, fortes chuvas já afetaram milhares de pessoas e causaram sérios danos em casas e estradas no Peru e no Equador. A área não assistia a um desastre de tamanha proporção desde 1998.


Meteorologistas de todo o mundo observam a costa do Peru e do Equador

Em uma única região peruana, Piura, há aproximadamente 15 mil atingidos, que têm sofrido com rios transbordando e o colapso dos sistemas de canalização. As principais áreas afetadas estão no norte do país, Tumbes, Piura e Lambayeque, mas os efeitos também podem ser vistos em La Libertad, Cajamarca, Ica e na capital Lima.

Enquanto isso, as enchentes já provocaram a morte de 14 pessoas e danificaram milhares de casas na costa do Equador - principalmente nas províncias de Chimborazo, Guayas, Los Rios e Manabí.

Essa situação se deve a um fenômeno que, por suas consequências, é parecido com o El Niño, mas que está localizado apenas ao longo das costas do Peru e Equador.

Por essa semelhança, cientistas peruanos o batizaram de "El Niño costeiro", e especialistas de todo o mundo observam o que ocorre ali. O motivo: trata-se de um sinal de que um El Niño de escala planetária pode estar se aproximando.

Aquecimento localizado

Durante o El Niño, a temperatura da água aumenta em toda a franja equatorial do oceano Pacífico até os Estados Unidos, e os efeitos são sentidos em todo o mundo: chuvas de monções fracas na Índia, invernos mais frios na Europa, tufões na Ásia e secas na Indonésia e na Austrália, entre outras calamidades.

Mas no "El Niño costeiro" o aquecimento ocorre apenas na zona costeira do Peru e Equador - as consequências, como chuvas torrenciais, se restringem apenas a esses territórios, explica o Comitê Multissetorial para o Estudo do Fenômeno do El Niño no Peru.

O fato de que a temperatura da água está aumentando sozinha na costa de ambos os países pode ser relacionado com correntes de vento que circulam nesta área.

No final de 2016, ventos do norte, provenientes da América Central, favoreceram o deslocamento de águas quentes para o sul. No caminho até a costa equatoriana e peruana, essa massa hídrica não encontrou nenhuma barreira, explica o meteorologista Nelson Quispe, diretor do departamento de previsão do Serviço Nacional de Meteorologia e Hidrologia do Peru.

Os ventos costeiros que seguiam em direção oposta - do sul ao norte - ficaram enfraquecidos durante os primeiros dias de dezembro de 2016 e permitiram a entrada das águas quentes oriundas da América Central.


Chuvas intensas também deixaram rastro de destruição no Equador

"Normalmente, o vento que vai do sul ao norte ajuda a levar a corrente marítima de Humboldt, que é fria. Mas como o vento enfraqueceu, a corrente também ficou mais leve", acrescenta Quispe.

O aquecimento atípico do mar na costa começou em meados de janeiro e já causou picos na temperatura da água de até 29ºC no Peru e de 28ºC no Equador.

"A temperatura normal no verão é 24ºC ou 25ºC. Agora, está quatro a cinco graus acima, e isso é que causa as chuvas (por forte evaporação da água)", explica Quispe.


Segundo o Ministério da Agricultura do Peru, 1,2 mil hectares de cultivo foram perdidos em Piura

Um requisito para que as autoridades peruanas confirmem a presença do "El Niño costeiro" é registrar essas mudanças por pelo menos três meses consecutivos.
Espera-se que as precipitações continuem neste mês e que diminuam apenas no final de abril, assinala Quispe.

El Niño global?

A definição do "El Niño costeiro" foi criada pelo Comitê Multissetorial para o Estudo do Fenômeno do El Niño no Peru para analisá-lo e prevenir danos no país, explica Rodney Martínez, diretor de um centro similar no Equador.

Cientistas não acreditam que um El Niño esteja acontecendo em nível mundial, mas não descartam que isso ocorra nos próximos meses.

"(Para alguns cientistas) o que acontece no Equador e Peru é um aquecimento anormal no Pacífico oriental que provoca chuvas acima do nível normal. Mas não é reconhecido como um Niño. É um fenômeno bastante localizado, muito da nossa região", diz Martínez.

Mas ele adverte que, se o aquecimento no Pacífico oriental permanecer, pode ser um precursor para um El Niño global.

"Tudo o que acontece no Pacífico oriental afeta a pressão atmosférica em todo o Pacífico e contribui para uma potencial evolução até um El Niño", argumenta o diretor do centro equatoriano.

"Não se observava essa intensidade (no aquecimento do Pacífico) há 18 anos. É um aquecimento atípico, pouco esperado e forte para a parte norte", emenda Martínez.

Meteorologistas estimam em 40% as chances de que um novo El Niño se desenvolva numa escala global.

Mas isso seria algo atípico, uma vez que já se registrou um fenômeno de grande intensidade entre 2015 e 2016, batizado de "El Super Niño" - por causa dele, as temperaturas mundiais bateram vários recordes.

Esperava-se que as águas equatoriais esfriassem nos últimos meses, dando lugar à "La Niña", algo que, até o momento, tem acontecido de forma intermitente.

Isso levou cientistas a rebatizarem "La Niña" como "La Nada", dado os poucos efeitos detectados.

Fonte: http://www.bbc.com/
destaques

Saiba quais são os países mais felizes do mundo

Na lista de 2017, o Brasil ocupa o 22o lugar.



O World Happiness Report 2017, que classifica 155 países por seus níveis de felicidade, foi lançado hoje pelas Nações Unidas em um evento celebrando o Dia Internacional da Felicidade, comemorado em 20 de março. O relatório é o quinto a ser publicado desde 2012 e continua a ganhar reconhecimento global à medida que governos, organizações e sociedade civil usam cada vez mais indicadores de felicidade para tomar decisões.

Em apoio à felicidade, em 2015 a ONU lançou 17 Metas de Desenvolvimento Sustentável que buscam acabar com a pobreza, reduzir a desigualdade e proteger o planeta – três aspectos-chave que levam ao bem-estar e como consequência, à felicidade.

Embora a felicidade possa ser subjetiva, há definitivamente uma ciência por trás dela. Para medi-la o relatório baseia-se em seis fatores: PIB per capita; Anos saudáveis de expectativa de vida; Apoio social (medido por ter alguém com quem contar em momentos de dificuldade); Confiança (medida por uma percepção de ausência de corrupção no governo e nos negócios); Percepção de liberdade para tomar decisões de vida; E generosidade (medida por doações recentes). Os dados foram coletados a partir de levantamentos de pessoas – e como eles avaliam suas vidas em uma escala de 0 a 10 – em 156 países.

Os top 10 deste ano são os mesmos que no relatório do ano passado, mas houveram algumas mudanças de posição. O número um do ano passado, a Dinamarca, ficou em segundo lugar, enquanto a Noruega saltou para cima, para a primeira posição, embora a diferença entre os adversários escandinavos sejam minúsculas. O Brasil caiu seis posições desde 2015, saindo do 16o para o 22o lugar.

Noruega (7.537)

Dinamarca (7.522)

Islândia (7.504)

Suíça (7,494)

Finlândia (7.469)

Países Baixos (7.377)

Canadá (7.316)

Nova Zelândia (7.314)

Austrália (7.284)

Suécia (7,284)

Israel (7.213)

Costa Rica (7.079)

Áustria (7.006)

Estados Unidos (6.993)

Irlanda (6.977)

Alemanha (6.951)

Bélgica (6.891)

Luxemburgo (6.863)

Reino Unido (6.714)

Chile (6.652)

Emirados Árabes (6.648)

Brasil (6.635)

É interessante observar que o PIB per capita é muito importante para a felicidade, porém, não é tudo.

Por exemplo, embora os Estados Unidos tenham um nível de desenvolvimento econômico mais elevado que os cinco países nórdicos no topo da lista (Dinamarca, Finlândia, Islândia, Noruega e Suécia), ainda sim eles obtiveram menores índices. Isso tem a ver com questões como liberdade pessoal, suporte social e índices de corrupção.

E, infelizmente, há um fundo triste para a lista:

Ruanda (3.471)

Síria (3.462)

Tanzânia (3.349)

Burundi (2.905)

República Centro-Africana (2.693)

O relatório é produzido pela Rede de Soluções de Desenvolvimento Sustentável (SDSN).

Fonte: http://ciclovivo.com.br
variedades

20 de mar de 2017

O atual padrão de consumo é insustentável e coloca o futuro da humanidade em risco

Uma boa ceia de natal, como diz a tradição, é o momento de reunir a família e os amigos para preparar pratos deliciosos, beber sem preocupação com o dia seguinte e conversar sobre o ano que passou, com histórias engraçadas, conquistas profissionais e eventuais fofocas cotidianas. A abundância de comida sobre a mesa da sala, no entanto, também conta com uma narrativa que diz muito sobre nosso atual modelo de desenvolvimento. Nesse caso, infelizmente, a história não nos leva a um final feliz.

“O que posso fazer para transformar o mundo em um lugar melhor?” As primeiras cenas de Cowspiracy, documentário lançado em 2014 e que recebeu atenção mundial após a Netflix disponibilizar a produção no serviço de streaming em setembro deste ano, levantam uma questão que volta e meia faz barulho em muita consciência. Kip Andersen, diretor do filme, fez esse mesmo questionamento após assistir ao documentário Uma Verdade Inconveniente, produção assinada por Al Gore, vice-presidente dos Estados Unidos entre 1993 e 2001.

Os dados apresentados sobre a influência humana no aumento de gases de efeito estufa na atmosfera, que fez subir a temperatura terrestre em 0,85°C nas últimas décadas, motivou Andersen a assumir uma série de compromissos pessoais, como diminuir o tempo dos banhos, trocar o carro pela bicicleta no deslocamento urbano e reciclar aquilo que consumia.

A certeza de realizar uma grande contribuição para o futuro da humanidade caiu por terra após um amigo compartilhar no Facebook a notícia de um relatório divulgado em 2006 pelas Nações Unidas, afirmando que a pecuária gerava 18% da quantidade de gases de efeito estufa, superior em cinco pontos percentuais às emissões de gás carbônico de todo o setor de transporte do mundo. Diante dessa informação, Andersen procurou instituições governamentais, ONGs, empresas e pesquisadores para chegar à conclusão de que o modelo de consumo da humanidade – e, sobretudo, nossos hábitos alimentares – são insustentáveis e esgotarão os recursos da Terra caso mudanças definitivas não ocorram em um curto horizonte de tempo. Mas para entender a gravidade desse desequilíbrio, é necessário compreender como alcançamos o atual sistema de produção de comida.




Convenhamos que acordar segunda-feira de manhã não está entre os momentos mais agradáveis da semana, mas imagine ter de sair de casa todos os dias para buscar o próprio alimento – e isso não significa caminhar até a padaria para comprar pãezinhos quentes. Os primeiros Homo sapiens a ocuparem o planeta dedicavam-se à busca de vegetais comestíveis ou animais para caça e, quando eventualmente topavam com um bicho feroz, as chances do caçador se tornar a presa da vez aumentavam consideravelmente.

Tudo mudou graças à construção do arado, ferramenta criada há mais de sete mil anos para descompactar a terra e torná-la propícia ao cultivo de plantas em maior escala. O feito tecnológico levou à geração de excedentes alimentícios, que possibilitou a divisão do trabalho em diferentes atividades e deu o pontapé para um novo tipo de sociedade, cada vez mais especializada.

A comida, responsável por suprir as necessidades biológicas do ser humano, tornou-se uma mercadoria valiosa – de acordo com as últimas estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o brasileiro gasta em média 16% de sua renda mensal em alimentação. Com fatias cada vez maiores de lucro, a humanidade dominou a natureza para fabricar mais recursos nutricionais: há 10 mil anos, 99% da quantidade de biomassa animal correspondia a bichos selvagens; hoje, animais criados para a alimentação humana e nós, Homo sapiens, fazemos parte de 98% da matéria viva do planeta.

Nas últimas décadas, a produtividade por hectare – unidade de medida para superfícies agrárias que corresponde a uma área semelhante a um campo de futebol – aumentou no Brasil, com seis vezes mais grãos colhidos na mesma área e dez vezes mais carne obtida por hectare. “No país, houve um salto tecnológico para o desenvolvimento de uma agricultura tropical, que aumentou a produtividade e diminuiu os preços”, afirma Rodrigo de Brito, assessor técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária, a CNA.

Acontece que essa lógica de produção e criação animal trouxe consequências ambientais mais graves do que o próprio processo de industrialização, com um impacto sem precedentes na emissão de gases de efeito estufa, no consumo crescente de água potável e na exaustão das terras cultiváveis. Tudo isso para garantir aquela picanha do churrasco de domingo ou o rosbife assado do cardápio da ceia natalina. “O consumo de carne aumenta o impacto ambiental, com o desmatamento nas áreas de florestas, emissões de gases poluentes e mudanças nas incidências de chuvas”, afirma Paulo Barreto, mestre em Ciências Florestais pela Universidade Yale e pesquisador do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).

Em estudo apresentado neste ano, Barreto reuniu dados sobre o impacto ambiental da atividade agropecuária, responsável por 62% do total de emissões brasileiras de gases poluentes em 2013. Desse índice, a criação de gado ocupa posição privilegiada: a fermentação no intestino dos animais foi responsável por 76% das emissões de gases poluentes do setor agrícola brasileiro em 2013, com a liberação do gás metano, que tem potencial poluente 25 vezes superior ao gás carbônico, e do óxido nitroso, liberado no esterco do animal, 296 vezes mais danoso que o CO2.

Em média, cada boi ou vaca produz de 250 a 500 litros de metano por dia – só no Brasil, o rebanho está estimado em 212 milhões de cabeças de gado, de acordo com números do IBGE. O bilionário volume tóxico é somado à derrubada de vegetação nativa para a abertura de pastos, que diminuem o número de árvores responsáveis por sequestrar o gás carbônico durante o processo da fotossíntese e consequentemente aumentar a quantidade de poluentes na atmosfera. De 2000 a 2013, o rebanho bovino aumentou em 70% na região amazônica, passando de 47 milhões de cabeças de gado para 80 milhões – não por acaso, 65% das áreas desmatadas da região deram lugar a pastos.

A expansão territorial para as atividades da pecuária, aliás, não se restringem à destinação de espaços para os animais viverem: relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO-ONU) indica que metade dos grãos produzidos no planeta é utilizada para os 70 bilhões de animais criados para a alimentação humana. “Um quilo de carne de frango custa dois quilos de ração e os porcos se alimentam com o dobro dessa quantidade”, diz o professor Carlos Armênio Khatounian, do Departamento de Produção Vegetal da Escola Superior de Agricultura da Universidade de São Paulo (ESALQ-USP). “O resultado disso é uma produção cada vez maior de cereais e o uso de terra para fornecer ração animal.”

Além da expansão de monoculturas de grãos, como soja e milho, a criação de animais também contribui indiretamente para o consumo de cada vez mais água doce – 70% do consumo desse recurso vêm da agricultura, de acordo com relatório do programa climático das Nações Unidas de 2011. Segundo informações coletadas pela organização Water Footprint Network, a média de água utilizada na produção de um quilo de corte bovino sem osso corresponde a assustadores 19,4 mil litros de água, o equivalente a 143 banhos de 15 minutos de duração ou 431 duchas de cinco minutos.

A substituição do consumo dessas carnes por uma alimentação de peixes e frutos do mar seria a solução, portanto? Não exatamente. “A pesca é, de longe, o principal impacto à saúde dos oceanos”, diz Monica Peres, diretora geral da Oceana Brasil, que trabalha com a conservação da biodiversidade dos oceanos. “Nas áreas costeiras, a poluição e a destruição de habitat são mais perceptíveis, mas na medida em que vamos em direção ao oceano, a pesca se torna o impacto mais importante.” Em 2014, a produção total da piscicultura brasileira foi de 474,33 mil toneladas, de acordo com dados do IBGE. O problema é que a lista oficial do Ministério do Meio Ambiente já considera 475 espécies de peixes e invertebrados aquáticos ameaçadas de extinção, por conta de alterações no habitat e a captura insustentável. Além dos números oficiais, a FAO indica que de 11 a 26 milhões de toneladas de peixes por ano são capturados de maneira ilegal no mundo, que geram um valor aproximado de US$ 10 bilhões a US$ 23 bilhões. Se nem o bacalhauzinho da ceia está garantido, o que resta de esperança para a humanidade?

Em Cowspiracy, Kip Andersen levanta a bandeira de que é possível tornar o mundo mais sustentável a partir da suspensão do consumo de carne e outros produtos derivados dos animais, como leite, ovos e margarina – grupo de alimentos ricos em proteínas, os macronutrientes que participam de processos celulares fundamentais para o funcionamento de nosso organismo.

Nutricionistas e médicos concordam que uma dieta exclusivamente vegetariana é possível de ser adotada por adultos, que consumiriam a proteína vegetal de produtos como feijão, lentilha, grão de bico, soja e ervilha. Nesse caso, a única deficiência seria a da vitamina B12, presente em maior quantidade nos produtos de origem animal e importante para a constituição do sangue – nesse caso, a vitamina seria consumida pelos vegetarianos estritos em forma de suplemento nutricional sintético. “Gerações de famílias vegetarianas não são anêmicas, mas têm uma estrutura e peso menor que os humanos onívoros em longo prazo”, afirma o médico Roberto Navarro, especialista em nutrologia. “Além do aumento dos índices de colesterol, o excesso de proteína afeta o funcionamento dos rins e pode prejudicar a composição de cálcio dos ossos.” A recomendação para o consumo diário de proteínas é de 0,8 a 1,2 gramas por quilo ou 300 gramas de carne por semana.

Se não há maiores justificativas nutricionais para o consumo excessivo de carne, por que fazemos questão de rechear o nosso prato com um belo pedaço de bife a cada refeição? “Passamos por estágios de fome na história e o consumo de carne era uma marca de distinção social”, diz a nutricionista Julicristie Oliveira, professora da Faculdade de Ciências Aplicadas da Universidade de Campinas (Unicamp). “Quando era presidente, Lula dizia que o brasileiro já podia comer carne, em um exemplo da melhora do poder de compra.” De fato, entre 2002 e 2014, a população subalimentada no Brasil caiu 82,1%, por um esforço de políticas públicas associado ao crescimento econômico da exportação de produtos da agropecuária: a soja é o principal produto da balança comercial brasileira, o país é líder na produção de frango e tem a meta de suprir 44,5% do mercado mundial de carne bovina até 2020. “Há 40 anos, o consumo anual de produtos de origem animal na China era de quatro quilos por habitante, e isso incluía leite, ovos e peixe”, diz o professor Carlos Armênio Khatounian. “Hoje, esse índice é de 80 quilos anuais e o que possibilitou isso foi a expansão da soja no Brasil para a produção de ração.”

Mesmo com a instabilidade econômica, a expectativa do setor agropecuário é ser responsável por R$ 1,2 trilhão do Produto Interno Brasileiro (PIB) deste ano, praticamente um terço do total das riquezas nacionais, com participação de R$ 816,1 bilhões da agricultura e R$ 391,6 bilhões da pecuária, consideradas as diferentes etapas de produção.

A contradição presente em nosso atual modelo de desenvolvimento, que contrapõe a economia nacional com a sustentabilidade ambiental, não se restringe às grandes propriedades monocultoras e à criação de animais. Assim como a carne, o hábito de comer certos vegetais sem levar em conta suas características geográficas e sazonais também produz desequilíbrios pelo uso excessivo de agrotóxicos ou fertilizantes artificiais que esgotam os recursos naturais da terra e poluem o lençol freático – dados da FAO afirmam que o mau uso de fertilizantes aumentou o teor de fósforo nos sistemas de água doce em 75%, proliferando algas que afetam o equilíbrio da biodiversidade. “Sabe por que o tomate, a batata e o morango utilizam tanto veneno? Porque eles são plantas de adaptação forçada em nosso ambiente”, afirma o professor Khatounian, da ESALQ. “As populações humanas adaptaram sua dieta e padrão de sabor naquilo mais abundante em cada quadrante do planeta, o gosto é uma criação sociocultural.”

Em artigo sobre a história da alimentação, o pesquisador afirma que esses vegetais desembarcaram em território brasileiro por conta da imigração, utilizando doses de agrotóxicos para controlar as pragas locais – de acordo com a FAO, a agricultura causa mais de 40 mil mortes por envenenamento por pesticidas a cada ano no mundo. Mas como se não bastasse ainda há as toneladas de comida que diariamente têm o lixo como destino.

DESTINO DA GULA
Chega a ser inacreditável o fato de que, até dezembro de 2015, ainda existissem mais de 800 milhões de pessoas em condições de pobreza extrema e fome, segundo os últimos dados da ONU. Enquanto isso, o desperdício global de comida é estimado em 1,3 bilhão de toneladas, o equivalente a um terço da produção total mundial, a um custo perdido de US$ 750 bilhões de dólares e uma área de 1,4 bilhão de hectares, equivalente a 28% da área total ocupada pela agricultura no mundo. Cerca de 45% de todas as frutas e legumes, 35% dos peixes e frutos do mar e 20% da carne vão para o lixo e são responsáveis pela emissão de 3,3 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa na atmosfera do planeta. “O transporte é, possivelmente, a principal causa dos danos mecânicos, cuja intensidade varia com a distância a ser percorrida e o tipo de produto transportado”, diz Antônio Gomes Soares, pesquisador da Embrapa. “Em um país com dimensões continentais como o Brasil, transportar frutas e hortaliças, que são altamente perecíveis, em estradas ruins e caminhões sem refrigeração, permite o aumento substancial das perdas.” De acordo com a instituição, metade das 26,3 milhões de toneladas anuais perdidas no Brasil ocorre durante o manuseio e transporte dos alimentos, enquanto 30% do desperdício acontece nas centrais de abastecimento e comercialização.

Para ajudar a solucionar esse problema, a carioca Luciana Quintão fundou em 1998 a ONG Banco de Alimentos, que entra em contato com distribuidores e supermercados para recolher alimentos que seriam desperdiçados e os distribui para instituições que atendem atualmente a quase 22 mil pessoas. “No lixo da cidade, mais da metade do material orgânico é resto de alimento”, diz Luciana. “Há um grave problema que é cultural: grande parte da população joga fora talos e sementes, enquanto poderia aproveitá-los na hora de preparar o alimento.”

A FAO afirma que, em 2013, 500 mil toneladas de alimentos foram poupadas do desperdício por meio dos bancos de alimentos: só na América Latina, 190 mil toneladas foram distribuídas a 12,7 mil organizações de 15 países. Desenvolvido em parceria com 50 restaurantes do Rio Grande do Sul e de São Paulo, o projeto Satisfeito foi idealizado em 2012 por conta de um desconforto comum na hora em que o prato pedido chega à mesa. “A gente se dá conta que a refeição é maior do que a nossa fome”, diz Luiza Esteves, coordenadora da iniciativa realizada pelo Instituto Alana, organização que realiza trabalhos na área de sustentabilidade.

Ao participar do Satisfeito, o restaurante pode indicar ao cliente uma troca: há a possibilidade de pedir um prato com a porção menor de comida pelo mesmo preço da quantidade original. O valor economizado pela empresa é doado ao projeto, que já disponibilizou cerca de 130 mil refeições repassadas a organizações. “Essa é uma mudança de cultura, porque vemos aquela ideia do prato bem servido, mas as pessoas estão cada vez mais conscientes em relação à sustentabilidade”, afirma Luiza. Em São Paulo, um restaurante de porte médio desperdiça quase 10% do produto total em serviços de bufê; já o modelo à la carte pode registrar 40% de perdas.

QUE FAZER?
Caso tenha chegado até o final desta reportagem, por favor, não desista da sua ceia natalina após encontrar essa aparente espiral de caos que fundamenta o atual modelo de desenvolvimento alimentar, abastecimento e consumo. As mudanças de nossos hábitos alimentares serão irreversíveis nos próximos anos, mais provavelmente por mudanças decorrentes de movimentos econômicos do que por catástrofes naturais. “A indústria de tabaco alegava que a propaganda contra o cigarro desempregaria muita gente, mas esse argumento ignora a flexibilidade da economia e a criação de novas oportunidades”, diz Carlos Armênio Khatounian. “Uma dieta com menos carne poderia gerar novos postos de trabalho na área de produção agrícola e nutricional, além de uma nova diversidade de produtos, mas o fato é que isso não acontecerá de uma hora para a outra.” Nunca subestimem a capacidade de transformação do capitalismo, afinal.

Quem compartilha uma opinião semelhante ao do professor da ESALQ é o norte-americano Dan Barber, chef do restaurante nova-iorquino Blue Hill e autor do livro O Terceiro Prato (editora Casa Amarela, 480 páginas). Na obra, Barber propõe soluções para superar o atual sistema alimentar a partir de uma gastronomia que respeite as particularidades culturais e os ciclos biológicos de cada território, além de aproximar o pequeno agricultor do consumidor, a partir da valorização da produção familiar e orgânica. “Com o fim do modelo de agricultura ‘industrial’, teremos de mudar as estruturas de como consumimos a comida”, diz o chef em entrevista à GALILEU. “Isso significa mais diversidade e menos componentes químicos nas fazendas, com dietas mais ligadas à realidade ecológica”. O “terceiro prato” proposto por Barber para o futuro é composto de grãos, legumes e vegetais, sendo que a carne será utilizada como um condimento. E o mais importante de tudo, sem perder o sabor e o prazer de se alimentar bem. “A comida cultivada do jeito correto e com o tipo adequado de ecologia é invariavelmente mais gostosa.”

Mas se o futuro não é tão ruim assim, o que é possível fazer agora para mudar a nossa relação com a comida? A consciência de consumo é um primeiro passo importante para tornar os hábitos mais sustentáveis, como verificar a procedência das mercadorias compradas nos mercados – cerca de 60% da carne consumida no Brasil provém dos três maiores frigoríficos que publicam relatórios socioambientais sobre a compra de carne de origem lícita. O problema é que 40% da carne vendida ainda vêm de origem incerta e duvidosa. Mas como colocar pressão para que os supermercados parem de comprar carne de fazendas que desmatam a floresta? Para tentar responder a essa pergunta, o Greenpeace publicou o estudo Carne ao molho madeira – vamos colocar a floresta na frente dos bois, que realizou um questionário com os principais supermercados do país para entender a política de aquisição de carne. O resultado foi decepcionante: entre as grandes empresas, nenhuma se saiu bem. “Hoje pode se dizer que, de forma geral, a carne vendida nos supermercados brasileiros é de origem duvidosa”, afirma Adriana Charoux, coordenadora da campanha de pecuária da ONG. “Não quer dizer que toda a carne seja suja, só não dá para garantir que a carne está livre de desmatamento.”

Apesar de sofrer pressões do agronegócio e com o desafio de produzir alimentos para cada vez mais pessoas, os produtores familiares que não utilizam agrotóxicos no cultivo de vegetais também ganham destaque como alternativa sustentável para o futuro. “Experiências agroecológicas mais avançadas mostram que é possível produzir mais e respeitar a biodiversidade, acumulando água para recuperar o solo”, afirma Denis Monteiro, da Secretaria da Articulação Nacional de Agroecologia. “Uma das propostas do movimento agroecológico é promover os mercados locais: ao invés de levar um produto transportado em uma distância de mil quilômetros você estimula aquilo que é produzido localmente.” Apesar de não eliminar completamente a necessidade de trazer alimentos de outros lugares, quanto menor o espaço de deslocamento, mais fresco chegará o produto, poupando o meio ambiente da emissão de poluentes dos caminhões de transporte.

O brasileiro consome, em média, 40 quilos de carne vermelha por ano: em uma conta feita com o Greenpeace, se 10% da população tirasse a carne do cardápio em um dia do mês, o impacto ambiental seria melhor do que se 1% dos habitantes do país parasse de comer carne da noite para o dia. De qualquer maneira, antes de iniciar a sua ceia natalina, lembre-se que o peru desossado e sem penas era um ser vivo – e, apesar de ser a primeira vez que a ética e o cuidado com os animais é citada nesta reportagem, essa é uma questão essencial para uma mudança definitiva em relação à maneira como nos relacionamos com nossa comida.

Fonte: Revista Galileu - Thiago Tanji, com reportagem de Gustavo Poloni, Marcia Schuler e Samuel Lima

http://espacoecologiconoar.com.br

Fotos: Tomás Arthuzzi
destaques

19 de mar de 2017

Alimentos ultraprocessados: o perigo nas letras miúdas



A Operação Carne Fraca sacudiu o país na sexta-feira e levantou a questão: você sabe exatamente o que está comendo? Se já temos que conviver com pesticidas em legumes, frutas e verduras, imagine quando se trata de um alimento industrializado! Sabemos que é praticamente impossível decifrar o que está escrito em letras tão miúdas que exigem lupa e esta situação se agrava com a idade e com a existência de doenças crônicas – será que é seguro consumir o que está dentro do pacote? Felizmente já há muita gente se mobilizando para mudar esse quadro. Uma delas é a professora Isabel de Paula Antunes David, graduada em nutrição, doutora em fisiologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisadora do Departamento de Fisiologia e Farmacologia da Universidade Federal Fluminense. Atualmente, ela faz parte de um grupo de pesquisa que testa a eficácia de advertências de texto e de sistemas de rotulagens a serem incluídos na propaganda veiculada nos meios de comunicação e nos rótulos dispostos nas embalagens de alimentos ultraprocessados.

Afinal, o que são alimentos ultraprocessados e por que eles se distinguem dos demais?

Isabel David: Os alimentos ultraprocessados são formulações industriais contendo cinco ou mais ingredientes inteira ou majoritariamente constituídos por substâncias extraídas de alimentos (como açúcar, óleos, gorduras, proteínas e sal) ou derivadas de constituintes de alimentos (como gordura hidrogenada, amido modificado, hidrolisados proteicos, açúcar invertido, xarope de milho). Essas formulações ainda recebem aditivos como antioxidantes, corantes, estabilizantes, conservantes, realçadores de sabor e edulcorantes artificiais.

Pode nos dar um exemplo dessa manipulação dos ingredientes?

Isabel David: Alguns produtos ultraprocessados são fáceis de serem identificados, como refrigerantes, balas, chocolates, pós com sabor de fruta para preparar refrescos e alguns tipos de biscoitos do tipo snack. O problema é que muitos dos aditivos são usados para simular atributos sensoriais de alimentos in natura, ou preparações culinárias artesanais. Alguns são mais difíceis de serem identificados, como sucos de fruta líquidos, sorvetes, bolos, pães, congelados pré-preparados prontos para aquecer (como tortas, pratos de massa, pizzas, salgados), produtos de carne reconstituída (como nuggets, salsicha, hambúrguer e outros), além dos “instantâneos”: macarrão, sopas e sobremesas. Por exemplo, os snacks de batatas podem conter compostos modificados de cereais como arroz e milho, aditivos (como aromatizantes, estabilizantes, corantes e conservantes), além de quantidades excessivas de gorduras e sal. Muitos sucos contêm baixa quantidade da fruta (quando contêm alguma), pouca fibra e alta quantidade de açúcar, além dos aditivos já mencionados.

Qual é a relação entre o consumo desses alimentos e o aumento de casos de obesidade e diabetes? Eles também podem estar associados à hipertensão e ao câncer?

Isabel David: Esses produtos contêm um alto valor calórico e baixo valor nutricional, com quantidade excessiva de açúcar, gordura saturada, gordura trans e sal. Já é consolidada a informação de que o consumo excessivo desses componentes está associado ao desenvolvimento de obesidade, cárie dental, doenças coronarianas, hipertensão e diabetes. A obesidade está ainda associada ao desenvolvimento de vários tipos de câncer.

Por que esse tipo de comida parece tão atraente se é tão artificial? O que a indústria faz para “fisgar” o consumidor?

Isabel David: São produtos hiperpalatáveis, com grande apelo sensorial. Mas esse apelo vem justamente da utilização de substâncias pouco saudáveis, como o glutamato monossódico, que realça o sabor, ou a frutose, um açúcar modificado que altera o nosso metabolismo. Faça suco de fruta em sua casa e veja se ele tem a cor intensa dos sucos artificiais. Ou veja se dá para fazer batatas fritas tão crocantes quanto as ultraprocessadas... Para culminar, são produtos práticos, baratos, duráveis e acompanhados de uma propaganda agressiva.

No caso dos idosos, o consumo dos alimentos processados traz algum risco extra à saúde?

Isabel David: O consumo excessivo de ultraprocessados pode agravar doenças pré-existentes ou favorecer o surgimento de novas doenças.

Toda essa discussão nos leva à questão da rotulagem dos alimentos, que parece ser quase incompreensível de propósito. Para os mais velhos, inclusive, é praticamente ilegível. Que é a avaliação dos pesquisadores?

Isabel David: Uma vez que o consumidor não consegue facilmente identificar nesses produtos a quantidade excessiva de gordura, açúcar, sal e aditivos, os sistemas de rotulagem nutricional desempenham um papel informativo importante. O intuito é garantir o direito do consumidor de escolher o produto com base em informações nutricionais confiáveis. No Brasil, as informações nutricionais nas embalagens são até bastante completas em comparação a outros países, mas também são de difícil compreensão para a população em geral, em letras pequenas e dispostas na parte de trás da embalagem. Nosso grupo de pesquisa tem testado em laboratório a eficácia de sistemas de rotulagens propostos ou já utilizados em outros países, como o semáforo nutricional. Uma questão importante é que, independentemente do sistema de rotulagem, o ideal é dar preferência aos alimentos in natura ou minimamente processados.

O que é o semáforo nutricional, que já foi adotado em diversos países?

Isabel David: O sistema de rotulagem em forma de semáforo nutricional foi proposto inicialmente no Reino Unido, há cerca de dez anos, e utiliza diferentes cores como indicativo de valores elevados ou seguros de açúcar, sódio e gordura saturada como: verde (seguro), amarelo (atenção) e vermelho (elevado). É simples, inteligível ao consumidor e estudos têm demostrado que o semáforo nutricional aumenta consideravelmente a capacidade dos consumidores de avaliar a salubridade dos alimentos.

Como o Brasil se situa em relação aos demais países no que diz respeito ao uso de aditivos nos alimentos ultraprocessados? Quais são malefícios que essas substâncias trazem?

Isabel David: Apesar de a indústria utilizar somente aditivos alimentares que são permitidos legalmente, é discutível qual seria a quantidade e a frequência de consumo seguras a longo prazo, além do possível efeito da interação entre os vários aditivos consumidos. Por exemplo, estudos têm apontado o potencial carcinogênico de alguns aditivos, como os subprodutos do corante caramelo IV, presente em refrigerantes e biscoitos. O uso deste corante foi reduzido nos Estados Unidos e Canadá, mas, segundo pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, aqui no Brasil a quantidade utilizada ainda é bastante superior que em outros países.

Fonte: 
destaques saúde

 

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